Caros leitores amigos,
A Brasil Paralelo (BP) lançou uma coleção de 10 livros novos, que nunca tinham sido editados no Brasil e alguns deles estavam fora de circulação há décadas. Os livros são de capa dura, papel mais fino com letras grandes, entregues em casa, um por mês, para os assinantes. São temas universais, onde a ideia é trazer para os leitores de como se iniciou nossa civilização no quesito moral, filosófico, político, de hábitos e costumes. A ideia primordial da BP é transformar nossa forma de ver o Brasil e o ocidente.
O primeiro volume do Clube do Livro da Brasil Paralelo, o qual estou lendo com vagar pois o tema é denso, é "O Essencial da Grécia" - aliás o berço da civilização, eu diria da civilização "organizada". A obra traz alguns textos de Platão e Aristóteles.
Hoje resolvi então discorrer um pouco sobre o primeiro texto que li e que gostei bastante e, mesmo sendo uma obra de filosofia não foi difícil compreender suas ideias - talvez porque muitas delas estejam bastante atuais.
Esse primeiro texto é de Platão intitulado "Apologia de Sócrates" - transcrição feita por Platão, da defesa de Sócrates. "Platão apresenta sua versão da defesa que seu mestre Sócrates (c.470-399 a.C.) proferiu perante o Tribunal Popular de Atenas (Helieia), quando foi acusado de impiedade e sedução dos jovens. Um drama jurídico: a atitude de um cidadão inocente e sua postura ética diante de uma injustíssima Justiça! Platão esteve presente ao julgamento público. E legou à posteridade uma defesa estilizada, muito bem redigida e conforme os parâmetros esperados da arte da Retórica de então. Seu retrato de Sócrates é vivíssimo! O texto é dividido em três partes desiguais: a) resposta às acusações, b) discurso do réu após a primeira votação, e c) suas palavras finais (após ter sido condenado à morte). Sócrates se apresenta como defensor da Verdade e se coloca a partir do ponto de vista da Eternidade, isto é, sem levar em conta a efemeridade das coisas, sempre fugazes e passageiras, mas tendo em vista as verdades que são eternas, universais e necessárias. Sim, pois é sempre melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la." Esse texto introdutório foi escrito por Ricardo Costa - professor titular do Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM) da UFES.
Bem, vamos então às minhas impressões sobre o texto. Eu nunca havia lido Platão/Sócrates com tanta profundidade - havia lido uma parte de "O Banquete" na primeira faculdade que cursei, mas na época não houve tanto entendimento de minha parte. Hoje, com mais maturidade minha compreensão foi total. Talvez pela enorme quantidade de livros que venho lendo desde que "me conheço por gente."
Resumindo, de uma maneira bem simples, Sócrates foi condenado por causa de uma fofoca, um mal entendido, ou melhor dizendo, como nos dias atuais, por uma "fake news".
Tentarei me explicar melhor. Sócrates era um peripatético, ou seja, aquele que ensina passeando/andando (aprendi essa expressão na série da Netflix "Merlí" e essa palavra está no dicionário Aurélio). Sócrates ia trocando ideias, conversando, falando o que sentia, o que pensava enquanto caminhava. Ele, em realidade buscava encontrar um homem sábio (assim como Diógenes, o cínico) e, até o fim de sua existência não o havia encontrado. Ele percebeu que aqueles que se diziam sábios, conheciam bem o seu ofício, mas eram ignorantes para outros assuntos ou coisas.
O texto é riquíssimo, traz ideias que estão, atualmente, em nosso contexto social e muitas vezes, a impressão que tive ao ler era que dos tempos de Sócrates para os nossos tempos pouca coisa foi adiante - o preconceito, o "telefone sem fio", as pessoas que só falam e não ouvem - a humanidade continua rastejando...
Num momento de sua defesa, Sócrates exclama "...é isso que me condenará...não Meleto ou Ânito, mas o preconceito e a antipatia de muitos. Isso já condenou muitos outros homens bons, e creio que continuará condenando, sem riscos de isso parar em mim."
Na primeira parte das respostas de Sócrates às suas acusações, logo no início ele pede "...prestem atenção, se o que eu digo é justo ou não; afinal, essa é a virtude de um julgador, e a virtude de um orador é dizer à verdade."
Depois ele admite que ninguém o defendeu "...o caso que processaram correu totalmente sem defesa, pois ninguém apareceu para me defender. Mas o mais absurdo de tudo é isto: que não é sequer possível saber e dizer seus nomes, exceto quando um deles por acaso é um autor de comédias. E todos aqueles que os persuadiram por meio da inveja e da calúnia - e alguns também persuadiram outros porque eles próprios haviam sido persuadidos..."
Na minha opinião, a fala de Sócrates que calou fundo em minha alma foi "Excelentíssimo homem, cidadão de Atenas - que é a maior das cidades e a mais famosa pela sabedoria e pelo poder - não se envergonha de se importar com a aquisição de riqueza e com a reputação e a honra, enquanto não se interessa pela sabedoria, pela verdade e pelo aperfeiçoamento da sua alma?" "...lhes digo que a virtude não vem da riqueza, mas que da virtude vem a riqueza e todos os outros bens, tanto ao indivíduo quanto ao Estado."
"...negligenciei todos os meus próprios assuntos e suportei durante todos esses anos o abandono dos meus interesses, mas estive sempre ocupado a serviço do interesse de vocês, abordando cada um individualmente como um pai ou um irmão mas velho e exortando-os a cuidarem da virtude."
No seu discurso após a primeira votação, ficou marcado para mim a seguinte afirmação: "...agora não é fácil livrá-los de grandes preconceitos em pouco tempo."
Aqui vou deixar para vocês algumas ideias de suas palavras finais já sabendo de sua condenação à morte:
"Senhores, não é difícil escapar da morte; é muito mais difícil escapar da maldade, pois esta corre mais rápido que a morte."
"Se vocês pensam que, ao matar homens, impedirão alguém de repreendê-los por não agirem como deveriam, estão enganados. Esse modo de escapar não é de modo algum possível nem honroso; o modo mais fácil e honroso não é suprimindo os outros, mas tornando vocês mesmos os melhores possíveis."
"Afinal, o estado da morte é das duas uma: ou consiste num quase nada, de modo que o morto não possui qualquer consciência, ou, como afirmam alguns, é uma mudança, uma transposição da alma deste lugar para outro."
"...nenhum mal pode acontecer a um homem bom - seja na vida, seja após a morte - , e o deus não o negligencia."
"Eu parto rumo à morte, e vocês rumo à vida; qual de nós tem o melhor destino, apenas o deus sabe."
Boa semana e uma excelente reflexão!
P.S. Definição de "Apologia" no dicionário Aurélio: discurso para justificar, defender, ou louvar uma ideia.