quarta-feira, 26 de maio de 2021

ACARICIE UM GATO QUANDO ENCONTRAR UM NA RUA

 Amigos,

Finalmente, chegamos à última regra de Jordan B. Peterson, a 12ª regra "Acaricie um gato quando encontrar um na rua".

Peterson faz dessa regra um relato de alguns momentos difíceis de sua vida. Ele descreve toda a problemática física de sua filha, a qual foi diagnosticada aos seis anos de idade com artrite reumatoide juvenil.  Ela tinha 37 juntas de sua perna que precisavam ser "trocadas", ou seja, próteses deveriam ser colocadas.  Bem, ela sofreu ao longo de alguns anos muitas cirurgias; teve que tomar muitos medicamentos fortes para a dor (a maioria opiáceos que depois tiveram que ser retirados e lhe causado crises de abstinência...)  Após 8 anos de sofrimento, após ter "trocado" seu tornozelo e seu fêmur, conheceram outro fisioterapeuta e este conseguiu resolver o problema da adaptação das próteses e da dor praticamente para sempre.  Hoje ela é casada, tem um canal no YouTube e tem uma filha.

O capítulo foi resumido da melhor maneira possível para não ser tão longo; a ideia do título parece enigmática, mas vamos refletir juntos.

Antes disso, ele começa esse capítulo explicando que tem um cachorro da raça que ele chamou de Esquimó Americano e pela descrição é o que nós conhecemos por Akita.  Ele achou que, pelo título, muitos leitores, amantes de cães, poderiam ficar chateados, entretanto a ideia da regra se aplica mesmo a gatos.

Ele explica: "cães são como pessoas.  Eles são amigáveis e aliados dos seres humanos; são sociáveis, domesticados e entendem de hierarquia; são felizes (dependendo das pessoas que cuidam deles, eles podem tornar-se tristes...). Eles retribuem a atenção que recebem com lealdade, admiração e amor.  Cães são ótimos."

"Gatos, entretanto, são criaturas únicas.  São apenas semi-domesticados.  Eles não aprendem truques (hoje, alguns até aprendem). Eles são amigáveis de acordo com seus próprios termos.  Cães foram cativados, mas gatos tomaram a decisão de não o serem. Eles parecem desejar interagir com as pessoas por algumas estranhas razões que só eles conhecem. Para mim, gatos são a manifestação da natureza, do Ser, em sua mais pura forma."

Quando ele menciona que assim que você encontrar um gato na rua você deveria acariciá-lo é apenas uma das ideias para, por alguns momentos, você interagir com uma criatura da natureza que não seja um ser humano (por exemplo, plantas, flores, árvores, pássaros, besouros, qualquer outro animal, um lago, o mar, o vento, um rio, etc.) e poder relaxar por alguns instantes e lembrar-se de que a vida não é só sofrimento e problemas - ela tem seu lado mágico, belo, espiritual. E um gato, para ele, para mim e para algumas pessoas faz isso muito bem.  Você se encanta com ele e percebe que o mundo é extraordinário.´

Antes de comprar esse livro, eu já conhecia Jordan Peterson e quando olhei o título das regras no índice, apaixonei-me por esta última regra, porque sempre fiz isso - ao ver um gato, seja aonde for, paro para me comunicar com ele, acaricio-o - raros gatos fogem de mim - talvez eles saibam que eu os admiro muito. Eu encontro gatos em todos os lugares, ou será que são eles que me encontram? E quando os vejo fico muito feliz e quando consigo acariciá-los meu dia fica muito mais completo e feliz.  Para mim, são criaturas angelicais.

Em 2018, meu marido e eu estivemos na Escócia e fomos visitar a Capela Rosslyn (ela aparece no filme de Dan Brown, com Tom Hanks, "O Código Da Vinci").  É uma capela gótica, extraordinária, construída em 1446; você pode ficar horas lá dentro olhando todas as esculturas nas paredes, nas escadas e nos pilares.  Bem, lá dentro, num dos bancos havia um gato preto deitado.  Fui até ele e fizemos amizade.  Então o pessoal da capela contou que ele vinha todas as tardes passear pela capela durante alguns anos embora a família que o adotara morava longe.  De tanto ele vir, a família resolveu mudar-se para perto da capela e hoje ele passa a maior parte do tempo lá.  

Assim, Peterson nos relata de seus problemas e aflições que teve com sua filha e nos encoraja a percebermos que existem pequenas coisas que podem fazer com que nos sintamos melhores apesar de tudo.  Ele relata que todas as vezes que vê um gato na rua e pára para acariciá-lo é como um desses momentos mágicos, uma dessas raras oportunidades de perceber o divino no mundo.  Vale lembrar que gatos "sentem" as pessoas.  Se eles te "aprovam" eles permitem que você os toque.

"Acaricie um gato ao encontrar um na rua."

Caro leitor, qual é o seu item da natureza que o faz relaxar, parar e se encontrar quando em meio às atribulações do dia a dia? Conte para nós.

Boa semana a todos!









quarta-feira, 19 de maio de 2021

A RÃ E O BOI

Caros leitores,

Eis a fábula:

Uma rã vê um boi que lhe parece muito belo por causa do seu porte avantajado.

Ao se ver tão pequena, pois o seu tamanho correspondia ao de um ovo, a rã, invejosa, começa a alargar-se, a inchar-se e a esforçar-se para igualar-se em grandeza física ao boi.

E, dirigindo-se a outra rã, perguntou-lhe:

- Olhe bem, minha irmã! Já aumentei o bastante?

-  Absolutamente não - respondeu a companheira.

- E agora? - insiste a invejosa. - Já estou parecida com ele?

- De maneira alguma - confirmou a outra.

A rã estufou mais um pouco e perguntou novamente:

- E agora, então? Como estou?

- Você nem sequer chega perto dele.

A rã idiota inchou-se tanto que estourou.

O mundo está cheio de pessoas insatisfeitas.

Todo burguês quer construir um palácio.

Qualquer principezinho tem embaixadores.

Todo marquês quer ter pajens como o rei os tem.

Ao dar uma primeira olhada nesta história constatamos que se trata da inveja.  A rã gostaria de ser tão grande quanto o boi.  Ela tem noção de uma parte da realidade porque percebe que é menor do que o boi, mas o considera mais belo porque ele é maior.  Ela acha que maior é melhor.  Quando invejamos o outro declaramos aos outros e a nós mesmos sermos inferiores a ele.  A inveja, entre outras coisas indica mediocridade [medíocre (dicionário Aurélio): sem relevo, comum, ordinário], pois ela não suporta os atributos, condições e qualidades alheias.

Hammed nos lembra de que existem muitas expressões metafóricas usadas quando nos referimos à inveja: doer-se de inveja, a inveja dói, contaminado pela febre da inveja, cego de inveja, a inveja queima ou envenena. No âmbito social existem muitas rãs que se "arrebentam" de inveja.

A inveja é um sentimento que nos impede de crescer, pois estamos sempre nos comparando com os outros e não percebemos o que temos de realizar por nós mesmos.  Entretanto, ela não está associada sempre a um objeto.  O invejoso pode sentir-se mal por causa da diferença de status de outra pessoa.  Ele acha que o culpado pelo seu estado de espírito negativo é o sucesso do outro.  Ele não analisa o porquê do seu próprio fracasso, para poder obter sucesso numa próxima empreitada.  Sua atenção está totalmente voltada para o outro e na sua tristeza em não poder ser como ele.

Para podermos amadurecer é necessário apreciarmos o que somos, conhecermo-nos com nossos defeitos e nossas potencialidades.  Na inveja, há supervalorização do outro e a subestimação de tudo o que temos, conquistamos, e de tudo o que somos.  Mas é preciso ser o que se é. Não é nos colocarmos a nós ou aos outros num pedestal, nem nos rebaixarmos ou rebaixarmos os outros na condição de capachos.

Perceber a inveja no outro é fácil, mas percebê-la em si próprio é difícil.  Esta é a função do autoconhecimento.  Prestemos atenção à sensação da inveja em nós, porque ela nos indica um desejo reprimido, uma disposição inconsciente, pois o invejoso não conhece o seu potencial e dá prioridade ao crescimento alheio em detrimento do seu próprio crescimento.  Ele censura e aponta as supostas falhas dos outros, distraindo a sua própria mente do necessário desenvolvimento de suas potencialidades interiores. Ao invés de se esforçar para crescer e progredir, ele denigre os outros para compensar sua indolência e ociosidade.

Como Hammed pontua "invejar não é somente querer ter o que o outro possui, é também tentar impedir que ele tenha aquilo que conquistou." Então, em verdade, além do invejoso não crescer com essa atitude, ele também tenta impedir o crescimento do outro.

Na história, o boi não toma conhecimento da existência da rã, que está a admirá-lo, e muito menos nota quanto ela "arrebenta".  Mas isso acontece com os animais irracionais.  Agora, voltemos para nós, os homens, dotados de razão.  A pessoa que é objeto de inveja também tem uma percepção.  Se esta percepção é inconsciente ela sente-se mal na presença desta pessoa, e mesmo que a pessoa não esteja com ela, à distância, se o invejoso fala dela ou pensa nela com sentimento de inveja, ela também sente mal estar.  Se esta percepção for consciente, a pessoa, alvo da inveja, pode construir um escudo de luz à sua volta para sua proteção, se não for possível afastar-se do invejoso.

Na psicologia, o sentimento de inferioridade que existe dentro do invejoso é o resultado do conflito entre o "eu ideal" e o "eu real", entre o que o indivíduo gostaria de ser e o que ele realmente é; entre o que o indivíduo faz ou sente e o que ele gostaria de fazer ou sentir.

Na inveja há a tentativa de privar o outro daquilo que lhe dá prazer; é querer destruir no outro aquilo que ele tem de bom, porque não se tem igual.

Felizmente, pode-se transformar a inveja em admiração - e essa mudança é benéfica para ambas as criaturas.  Ao invés de querer ter ou ser o que o outro tem ou é, tenta-se encará-lo como um objetivo ou padrão a ser seguido.  Então, neste caso, a atenção voltada ao outro serve como modelo a ser seguido para caminhar mais acertadamente em direção à maturidade; na realidade, a admiração é sinal de amadurecimento.

Entretanto, este olhar atento para o outro deverá vir juntamente com uma análise criteriosa do que o outro é ou do que ele tem.  Senão acabamos "copiando" sentimentos, emoções, ações não condizentes com a nossa realidade ou até negativas.  Para exemplificar, imaginemos um palestrante com grande capacidade de oratória, mas que em muitas circunstâncias demonstra muita vaidade, e uma pessoa na plateia que o acha sensacional e que gostaria de ser como ele.  Será que ela não estaria querendo "copiar" a vaidade? Será que ela já não é vaidosa e por isso o "admira" e quer copiá-lo? Será que ela tem potencial e capacidade para também realizar uma palestra? Se não tem, o que é melhor: aceitar o que se é ou tentar "copiar" uma "fraude"? Chamaríamos este "olhar" de admiração ou de inveja?

Para compreender melhor a arte de admirar, todas essas reflexões devem ser realizadas.

Popularmente falando, o complexo de superioridade e o de inferioridade é a mesma coisa.  Pois, quando o indivíduo reconhece que é mais fraco que outro ou sente-se inadequado numa determinada situação ou com determinada(s) pessoa(s), na tentativa de eliminar esses sentimentos desagradáveis ele mostra superioridade.  As pessoas que se sentem inferiores quase sempre partem para uma busca inglória, ou seja, comparam-se com outros indivíduos que não tem nada a ver com elas e travam uma competição interminável para serem como eles.  Assim como diz o texto "O mundo está cheio de pessoas insatisfeitas.  Todo burguês quer construir um palácio.  Qualquer principezinho tem embaixadores.  Todo marquês quer ter pajens como o rei os tem."

Na vida atual isto ainda é mais difícil.  Há uma comparação interminável e diria, até diária.  A grande maioria acha que deve estar em evidência em todos os lugares a todo o momento.  Bom exemplo disto é o "Big Brother Brasil".  Aquele que não pode participar do programa, pelo menos participa "virtualmente" votando na saída dos participantes do mesmo.  No dia-a-dia há "mini BBBs", onde aquele que não se sobressai sente-se um inseto, um ser inferior.  Na realidade, nem todos têm a popularidade em sua personalidade.  Muitos são bons para trabalhar "atrás dos bastidores" e saem-se muito bem quando aceitam esta condição.  Como exemplo temos os cozinheiros, recolhedores de lixo/lixeiros (muito importantes para uma cidade), organizadores de eventos, médicos, dentistas, psicólogos (estes três últimos, logicamente, refiro-me aos não-famosos), empregadas domésticas e assim por diante.  Nem por isto, estes fazem um trabalho menos valoroso.  O que a maioria das pessoas hoje não entende é que para estar em evidência, é necessário conhecer e gostar muito bem do seu trabalho para não incorrer em erros grosseiros e graves.

Então Hammed completa que certas "rãs" na vida social, por sentirem-se inferiores, reagem frente ao mundo exterior com ares de superioridade, acreditando serem muito mais importantes do que realidade são.  Sendo consideradas por muitos como ridículas.

Assim, a inveja tende a trazer rebeldia, pois há um inconformismo frente à lei natural, assim como uma suposição irreal à respeito de nossa condição pessoal quando nós achamos que somos "pessoas muito especiais".  Ao invés disso, deveríamos compreender que podemos e devemos compartilhar com todos a diversidade da existência; pois é esta compreensão que nos trará bons relacionamentos, sensação de bem estar e completude na vida.

Atualmente, olhando para o âmbito social, fica fácil de compreendermos a inveja, creio eu.  Que possamos fazer boas reflexões sobre nós mesmos e o mundo que nos cerca.

Boa semana a todos!















 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

O SKATE COMO FORMA DE APRENDIZADO

Caros leitores, 

A décima primeira regra de Jordan Peterson é "Não incomode as crianças quando elas estiverem andando de skate."

O enunciado é estranho, entretanto chamativo e nos faz pensar em como isso pode se transformar em uma regra para a vida.

Bem, no início do capítulo, para entrar no tema, ele começa explicando que perto de uma das entradas do campus da faculdade onde ele leciona no Canadá, há sempre um grupo de jovens com skate - eles fazem acrobacias pelas escadas e pavimentos da área e até usam os corrimões de ferro para realizarem suas, vamos assim dizer, reviravoltas no ar - muitas vezes, a chegada ao solo não é tão bem sucedida - alguns caem de pé, mas outros têm quedas mais desajeitadas.  Muitos adultos acham todos esses movimentos muito perigosos, entretanto essa é uma das possibilidades dos jovens prepararem-se para a vida adulta, ou melhor para buscarem serem melhores naquilo que fazem, pois mesmo caindo feio e se machucando, eles voltam e realizam a manobra novamente.

Com essa introdução, Peterson nos traz a ideia de que a vida tem desafios e obstáculos a transpor e que precisamos buscar nossas próprias estratégias, sair do lugar comum, entendermos que somos únicos e que nosso caminho, na maioria das vezes, é diferente daquele que nossos pais trilharam.

Assim, ele vai discorrendo sobre vários assuntos e dentre eles achei muito pertinente a sua ideia da super proteção de certos pais em relação à vida dos filhos.

A ideia do skate é boa, pois é uma prática perigosa, mas ao meu ver tão "perigosa" quanto o futebol, o vôlei, a natação, e muitos outros esportes.  Inicialmente, entendo que os esportes apareceram para exercitar o corpo, mantê-lo em forma - paulatinamente eles se transformaram em atividades competitivas.  Infelizmente hoje em dia, os esportes são praticamente pura competição - a maioria das pessoas só se interessam em ganhar - ao ganhador tudo, os louros da vitória; ao perdedor, nada - o fracasso, a derrota, a menos valia.  Quando um esporte é levado muito a sério ele envolve dinheiro, jogo, apostas, rixas, brigas - o ego se infla e a impressão que temos é que na vida de algumas pessoas só isso que importa, tanto para praticantes quanto para quem assiste - algumas vezes é até caso de vida ou morte.

Voltemos ao skate - embora hoje ele também tenha campeonatos - a ideia primordial e mesmo nos dias atuais é uma maneira da criançada/moçada buscar o expertise numa atividade - a ideia que Peterson traz, na qual concordo, é a de que o jovem está exercitando não só seu corpo e buscando realizar manobras mais arriscadas, mas também aprendendo a convivência em grupo numa atividade que tira um pouco a mira/o controle dos adultos sobre eles.

Hoje, já muitos pais mais jovens até já conseguem participar dessa atividade com os filhos; entretanto isso ainda é raro - é uma prática dos jovens - é onde eles podem buscar sua auto estima, pois, em minha opinião, não é competitiva ao extremo - cada um realiza a acrobacia, a manobra/evolução como consegue e todas elas são valorizadas - pelo menos é como eu vejo.

Com esse "gancho" do skate, Peterson atenta para o detalhe da super proteção dos pais - no caso aqueles que acham um absurdo, ou extremamente perigoso praticar o skate na rua, calçadas, parques, praças - essa é uma das maneiras modernas dos adolescentes irem "contra" o sistema.  Ao meu ver, faz parte do processo da adolescência em direção à maturidade (embora muitos nunca a atinjam - vemos hoje muitos "adolescentes" de 50 anos), e é uma atividade saudável - um ritual de passagem.

Pais super protetores transformam os filhos em eternos dependentes na vida - não se arriscam, não saem de seus ninhos, têm dificuldades nos relacionamentos, não crescem mesmo, não têm ideias próprias, em suma, não vivem.  Acabam vivendo a vida que outros prepararam para eles e que muitas vezes, nem é isso que eles queriam.  Existem muitos adultos hoje frustrados por esse motivo.

Também pode formar um adulto ressentido, com raiva de tudo a toda hora e muitas vezes sem motivo aparente - é que nos recônditos do inconsciente se encontra a frustração por não tem tido a oportunidade de buscar suas próprias atividades.  Outras vezes, crianças super protegidas podem se tornar pessoas que tem dificuldade de dizer não e onde outras pessoas se aproveitam delas.  Felizmente, isso tem cura - "conheça-te a ti mesmo" (como dizia a inscrição na entrada o oráculo de Delfos na Grécia Antiga), descubra suas características que não te fazem bem e  transforme-as - mude seu comportamento.

A família é o primeiro grupo no qual o indivíduo se insere - ela deve ser a base sólida onde o indivíduo finca o pé e dá um impulso para a frente - para a sua vida individual.  A família deve ser o porto seguro que podemos voltar sempre que necessitarmos de reabastecimento.  Como diz Peterson, "muita proteção devasta o desenvolvimento da alma."

Atualmente, vivemos tempos difíceis, bem o sei - drogas, criminalidade, sequestros, maldades muitas.  Como eu disse, o primeiro grupo de toda pessoa é a família e o segundo é a escola - a instrução é onde nós aprendemos não somente as matérias que nos são oferecidas, mas também a convivência em grupo, as regras sociais, o civismo (acho que esse item é confundido hoje com militarismo), (no dicionário Aurélio, Civismo: Devoção ao interesse público) e a civilidade (no dic. Aurélio Civilidade: Conjunto de formalidades observadas entre si pelos cidadãos em sinal de respeito mútuo e consideração; polidez, urbanidade, cortesia).

Infelizmente, a escola não tem realizado sua função adequadamente - dependendo do professor, o aluno sai da escola do mesmo jeito que entrou, sem conhecimento de nenhuma disciplina escolar e muitas vezes sem noção nenhuma do que ele foi fazer lá.  Mas, se ele teve e continua tendo uma base familiar, ele aproveitará melhor o que puder aprender na escola.

Outra característica positiva do skate, no meu entender, é o exercício da agressividade - na tentativa, nem sempre exitosa, de suas difíceis evoluções no skate, o jovem coloca sua agressividade nas manobras de maneira natural - nesta atividade há poucas brigas, pois não é um "esporte" grupal e cada um deve cuidar de realizar suas acrobacias da melhor maneira possível.

Através dessa regra, aprendi a observar os jovens sob outro ângulo e entendi que todos nós estamos tentando ser melhores e mais felizes no dia a dia e que cada um deveria realizar o que veio realizar e não preencher sonhos alheios.

Qual foi sua reflexão a partir dessa regra?

Boa semana!











 


 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

O CORVO E A RAPOSA

 Caros leitores, 

Eis a fábula:

"No alto de uma árvore, um corvo segurava no bico um pedaço de carne.

Uma raposa, atraída pelo cheiro, aproxima-se e lhe dirige a palavra:

- Ei! Bom dia, senhor corvo! Como o senhor está lindo! Como é bela a sua plumagem! Se o seu canto for tão bonito quanto ela, sinceramente, o senhor é a fênix dos convidados destas florestas.

E para mostrar sua "melodiosa" voz, ele abre o grande bico e deixa cair a presa.

A raposa se apodera da carne e diz ao corvo:

- Meu bom senhor, aprenda que todo adulador vive à custa de quem o escuta.

Esta lição vale, sem dúvida, pela carne que agora comerei.

O corvo, envergonhado e aborrecido, jurou embora um pouco tarde, que nunca mais se deixaria levar por elogios."

A história do corvo e da raposa trata, em primeira instância, da adulação.

Hammed dá o título de "teia" da adulação.  Paremos um instante e reflitamos a respeito da palavra teia. O que é uma teia? Segundo o dicionário Aurélio é "aquilo que prende, enreda, emaranha". Na realidade aquele que é adulado pelos outros e que supervaloriza essa adulação fica preso, enredado, emaranhado ao objeto que o adula.  É como um magnetismo.  Enquanto o outro o adula, bajula com segundas intenções, este cresce em sua vaidade e orgulho, achando-se mais importante do que na realidade é.

Meditemos e analisemos este indivíduo, objeto da adulação: pessoa imatura afetiva, emocional, psicológica e espiritualmente falando.  Ele não se conhece e acredita fielmente em todos os elogios que dirigem a ele, principalmente os exagerados e exacerbados.

Aliados ao elogio, a lisonja, está a sedução.  Aliás, Hammed afirma que na "arte da adulação", usa-se o elogio, a lisonja como instrumento da sedução (dic. Aurélio, "sedução: atração, encanto, fascínio").

Para Hammed, "a função primordial da lisonja é evidenciar qualidades que não existem". Então, será que a sedução e seus instrumentos, a lisonja, são usadas para enganar? Sim e não.  Pensemos.  Quantas vezes, no afã de agradar, de nos fazermos benquistos, ou até de desejarmos que outras pessoas simplesmente gostem de nós, usamos do elogio?  Dependendo do tipo e intensidade do mesmo, este pode provocar no outro uma reação de grande prazer, uma sensação de deslumbramento, encanto e fascínio.  Mas será que estas reações e sensações são reais? Claro está que existem indivíduos imunes a estes tipos de elogio - mas, convenhamos - são raros.

Entretanto, existe outro detalhe que Hammed fez bem em ressaltar - as inúmeras táticas de sedução: "pequenas expressões e entonações especiais ao se movimentar o corpo, mãos e braços", a pronúncia de uma frase fugaz aparentemente sem intenção.

Analisemos os dois lados da adulação: o corvo e a raposa.

Na análise da raposa deve-se observar o seu grau de intencionalidade e na análise do corvo, observemos seu grau de suscetibilidade, pois na grande maioria das vezes ele é o ponto crucial para que o sedutor (a raposa) consiga seu intento, pois ele já deve ter em seu íntimo uma predisposição para aceitar essa influência e se deixar "contaminar pela adulação".

Então, se você é o corvo, você ainda é um indivíduo imaturo, como já foi dito anteriormente, mas o que fazer para não dar ouvidos à raposa?

Em primeiro lugar aceitar que ou sua autoestima está baixa ou você é daqueles que acredita ser melhor do que é e então, quando há elogio exacerbado por parte dos outros, eles estarão reconhecendo (sic!) sua "superioridade".  Tanto no primeiro caso (falta de auto aprovação na vida pessoal, como chama Hammed) como no segundo caso (orgulho) você estará vivendo uma ilusão.  Tanto no primeiro caso (baixa autoestima) quanto no segundo (orgulho) você questiona o valor do seu desempenho e busca como maneira de compensação, provar sua importância por meio de louvor e apoio.  Como você carece de autovalorização, sua sensação de pequenez e impotência é atenuada por manifestações de enaltecimento.

Como num passe de mágica, você atrai muitas raposas.  Algumas vezes, você até percebe esse animais bonitos, dóceis, sedutores ao seu redor, mas não sabe o que fazer para livrar-se deles.  Nesta "parceria" existe o que Hammed chamou de "retroalimentação de atitudes íntimas" ou como eu chamaria em termos mais vulgares "compatibilidade de neuras".  Em verdade, a raposa, também, como num passe de mágica, percebe, fareja de longe o corvo inseguro e, principalmente quando o corvo tem algo de que ela deseja, ela usa de seus artifícios para enredá-lo.

Bem, caro corvo, há de trabalhar sua autoestima, buscar reconhecer seus pontos fracos, tratando de enaltecer seus reais pontos fortes. Não aceite subornos de quem quer que seja pra sentir-se importante na vida.  Se, caro corvo, és nascido no Brasil, todo cuidado é pouco.  Afinal de contas, se não és "espero"(a raposa) és "otário" (o corvo).

Agora, vejamos o outro lado: o que fazer se você é a raposa? Nesta condição, você não é melhor que o corvo.  Embora você, por sincronicidade ou melhor dizendo, magnetismo, você percebe o corvo e sabe que poderá tirar vantagens.  Primeiro você analisa o que pode "tirar" desse corvo.  Depois, você se aproxima, usa a lisonja, aquela "expressão acentuada que emoldura reais ou fictícias qualidades, ações ou intenções, desejos". Você "sabe" que esse corvo é submisso à vontade de outrem ou é dependente da opinião alheia.  Então usa as táticas de sedução já descritas anteriormente.

Na realidade, cara raposa, você também tem baixa autoestima e também possui uma vaidade intrínseca. Se você fosse segura do que quer e confiante na sua aptidão para chegar onde quer, não haveria necessidade de ludibriar ninguém para consegui-lo.  O seu orgulho está em achar-se mais esperta que o corvo, melhor, mais especial.  E a sua vaidade está em poder dizer mais tarde para outros ou até para si própria: "Eu enganei fulano, tirei dele o que quis e ele nem percebeu.  Como ele é trouxa!"

Se você é uma raposa, o que fazer para não aproveitar-se da ingenuidade dos outros? 

Em primeiro lugar, aceitar seus limites, buscar suas potencialidades e agir direta e objetivamente na realização de seus sonhos e desejos.  A manipulação através da adulação só é usada pelos fracos, pelos covardes que carecem de coragem para agir em nome da verdade.  O adulador não tem certeza de conseguir o que quer; ele também é imaturo porque ele quer porque quer - não compreende que se ele lutar em nome da verdade e não conseguir o seu intento, é porque não era para conseguir - aquilo não era verdadeiro, não era para ser seu.  Há uma tênue linha entre o que se quer o que se pode conseguir.  Só a razão pode auxiliar aquele que quer alguma coisa e fazê-lo refletir se ela é compatível ou não com a situação do momento ou até se ela é útil ou não.

Então ser "raposa" também não ajuda na evolução, no crescimento, no bem estar pessoal? Ser "raposa" não é melhor do que ser "corvo"? Não.  Ambos animais são facetas de uma mesma moeda.  Tanto o corvo como a raposa são inseguros, orgulhosos, vaidosos e vivem no mundo da ilusão.  A realidade é uma só: a verdade. Para quem conhece a verdade não há insegurança, há a humildade do reconhecimento do que se sabe e do que não se sabe e não há vaidade porque todos moramos no mesmo planeta e somos todos seres humanos.

Lembremo-nos de que o amadurecimento, para muitas pessoas, leva tempo, mas que o estudo faz esse tempo diminuir.  Como não sabemos o nosso nível de amadurecimento, convém estudarmos não somente sobre a vida e sua filosofia, mas também o estudo, a análise de nosso próprio comportamento afim de podermos avaliar quando agimos como corvos e quando agimos como raposas.  Hammed nos alerta que o "ser amadurecido impõe respeito, e não cede diante da adulação."

Não confundir adulação com admiração - são conceitos divergentes: o que admira não adula; o que adula não admira.  A adulação é uma porta larga para o favoritismo e a vaidade, mas uma porta quase fechada para indivíduos dotados de autoconfiança.  O vaidoso procura o êxito diante do mundo porque crê que não o possui dentro de si mesmo.

Assim, o autoconhecimento pode ser o instrumento para definir a sua finalidade no mundo.  Aquele que "desenvolve sua individualidade não cria ilusões, pois tem as próprias razões e discernimento diante da vida."

E então, você se encaixa mais como corvo ou como raposa? Ou melhor, você não pertence a nenhuma dessas categorias? Ou conhece algum corvo ou raposa? Compartilhe conosco suas reflexões pessoais.

Até semana que vem!

 








"EU TENHO UM SONHO..."

Olá leitores, Os meus sonhos não são tão grandiosos quanto o sonho de Martin Luther King em seu discurso. Os meus sonhos são voltados ao meu...