segunda-feira, 3 de maio de 2021

O CORVO E A RAPOSA

 Caros leitores, 

Eis a fábula:

"No alto de uma árvore, um corvo segurava no bico um pedaço de carne.

Uma raposa, atraída pelo cheiro, aproxima-se e lhe dirige a palavra:

- Ei! Bom dia, senhor corvo! Como o senhor está lindo! Como é bela a sua plumagem! Se o seu canto for tão bonito quanto ela, sinceramente, o senhor é a fênix dos convidados destas florestas.

E para mostrar sua "melodiosa" voz, ele abre o grande bico e deixa cair a presa.

A raposa se apodera da carne e diz ao corvo:

- Meu bom senhor, aprenda que todo adulador vive à custa de quem o escuta.

Esta lição vale, sem dúvida, pela carne que agora comerei.

O corvo, envergonhado e aborrecido, jurou embora um pouco tarde, que nunca mais se deixaria levar por elogios."

A história do corvo e da raposa trata, em primeira instância, da adulação.

Hammed dá o título de "teia" da adulação.  Paremos um instante e reflitamos a respeito da palavra teia. O que é uma teia? Segundo o dicionário Aurélio é "aquilo que prende, enreda, emaranha". Na realidade aquele que é adulado pelos outros e que supervaloriza essa adulação fica preso, enredado, emaranhado ao objeto que o adula.  É como um magnetismo.  Enquanto o outro o adula, bajula com segundas intenções, este cresce em sua vaidade e orgulho, achando-se mais importante do que na realidade é.

Meditemos e analisemos este indivíduo, objeto da adulação: pessoa imatura afetiva, emocional, psicológica e espiritualmente falando.  Ele não se conhece e acredita fielmente em todos os elogios que dirigem a ele, principalmente os exagerados e exacerbados.

Aliados ao elogio, a lisonja, está a sedução.  Aliás, Hammed afirma que na "arte da adulação", usa-se o elogio, a lisonja como instrumento da sedução (dic. Aurélio, "sedução: atração, encanto, fascínio").

Para Hammed, "a função primordial da lisonja é evidenciar qualidades que não existem". Então, será que a sedução e seus instrumentos, a lisonja, são usadas para enganar? Sim e não.  Pensemos.  Quantas vezes, no afã de agradar, de nos fazermos benquistos, ou até de desejarmos que outras pessoas simplesmente gostem de nós, usamos do elogio?  Dependendo do tipo e intensidade do mesmo, este pode provocar no outro uma reação de grande prazer, uma sensação de deslumbramento, encanto e fascínio.  Mas será que estas reações e sensações são reais? Claro está que existem indivíduos imunes a estes tipos de elogio - mas, convenhamos - são raros.

Entretanto, existe outro detalhe que Hammed fez bem em ressaltar - as inúmeras táticas de sedução: "pequenas expressões e entonações especiais ao se movimentar o corpo, mãos e braços", a pronúncia de uma frase fugaz aparentemente sem intenção.

Analisemos os dois lados da adulação: o corvo e a raposa.

Na análise da raposa deve-se observar o seu grau de intencionalidade e na análise do corvo, observemos seu grau de suscetibilidade, pois na grande maioria das vezes ele é o ponto crucial para que o sedutor (a raposa) consiga seu intento, pois ele já deve ter em seu íntimo uma predisposição para aceitar essa influência e se deixar "contaminar pela adulação".

Então, se você é o corvo, você ainda é um indivíduo imaturo, como já foi dito anteriormente, mas o que fazer para não dar ouvidos à raposa?

Em primeiro lugar aceitar que ou sua autoestima está baixa ou você é daqueles que acredita ser melhor do que é e então, quando há elogio exacerbado por parte dos outros, eles estarão reconhecendo (sic!) sua "superioridade".  Tanto no primeiro caso (falta de auto aprovação na vida pessoal, como chama Hammed) como no segundo caso (orgulho) você estará vivendo uma ilusão.  Tanto no primeiro caso (baixa autoestima) quanto no segundo (orgulho) você questiona o valor do seu desempenho e busca como maneira de compensação, provar sua importância por meio de louvor e apoio.  Como você carece de autovalorização, sua sensação de pequenez e impotência é atenuada por manifestações de enaltecimento.

Como num passe de mágica, você atrai muitas raposas.  Algumas vezes, você até percebe esse animais bonitos, dóceis, sedutores ao seu redor, mas não sabe o que fazer para livrar-se deles.  Nesta "parceria" existe o que Hammed chamou de "retroalimentação de atitudes íntimas" ou como eu chamaria em termos mais vulgares "compatibilidade de neuras".  Em verdade, a raposa, também, como num passe de mágica, percebe, fareja de longe o corvo inseguro e, principalmente quando o corvo tem algo de que ela deseja, ela usa de seus artifícios para enredá-lo.

Bem, caro corvo, há de trabalhar sua autoestima, buscar reconhecer seus pontos fracos, tratando de enaltecer seus reais pontos fortes. Não aceite subornos de quem quer que seja pra sentir-se importante na vida.  Se, caro corvo, és nascido no Brasil, todo cuidado é pouco.  Afinal de contas, se não és "espero"(a raposa) és "otário" (o corvo).

Agora, vejamos o outro lado: o que fazer se você é a raposa? Nesta condição, você não é melhor que o corvo.  Embora você, por sincronicidade ou melhor dizendo, magnetismo, você percebe o corvo e sabe que poderá tirar vantagens.  Primeiro você analisa o que pode "tirar" desse corvo.  Depois, você se aproxima, usa a lisonja, aquela "expressão acentuada que emoldura reais ou fictícias qualidades, ações ou intenções, desejos". Você "sabe" que esse corvo é submisso à vontade de outrem ou é dependente da opinião alheia.  Então usa as táticas de sedução já descritas anteriormente.

Na realidade, cara raposa, você também tem baixa autoestima e também possui uma vaidade intrínseca. Se você fosse segura do que quer e confiante na sua aptidão para chegar onde quer, não haveria necessidade de ludibriar ninguém para consegui-lo.  O seu orgulho está em achar-se mais esperta que o corvo, melhor, mais especial.  E a sua vaidade está em poder dizer mais tarde para outros ou até para si própria: "Eu enganei fulano, tirei dele o que quis e ele nem percebeu.  Como ele é trouxa!"

Se você é uma raposa, o que fazer para não aproveitar-se da ingenuidade dos outros? 

Em primeiro lugar, aceitar seus limites, buscar suas potencialidades e agir direta e objetivamente na realização de seus sonhos e desejos.  A manipulação através da adulação só é usada pelos fracos, pelos covardes que carecem de coragem para agir em nome da verdade.  O adulador não tem certeza de conseguir o que quer; ele também é imaturo porque ele quer porque quer - não compreende que se ele lutar em nome da verdade e não conseguir o seu intento, é porque não era para conseguir - aquilo não era verdadeiro, não era para ser seu.  Há uma tênue linha entre o que se quer o que se pode conseguir.  Só a razão pode auxiliar aquele que quer alguma coisa e fazê-lo refletir se ela é compatível ou não com a situação do momento ou até se ela é útil ou não.

Então ser "raposa" também não ajuda na evolução, no crescimento, no bem estar pessoal? Ser "raposa" não é melhor do que ser "corvo"? Não.  Ambos animais são facetas de uma mesma moeda.  Tanto o corvo como a raposa são inseguros, orgulhosos, vaidosos e vivem no mundo da ilusão.  A realidade é uma só: a verdade. Para quem conhece a verdade não há insegurança, há a humildade do reconhecimento do que se sabe e do que não se sabe e não há vaidade porque todos moramos no mesmo planeta e somos todos seres humanos.

Lembremo-nos de que o amadurecimento, para muitas pessoas, leva tempo, mas que o estudo faz esse tempo diminuir.  Como não sabemos o nosso nível de amadurecimento, convém estudarmos não somente sobre a vida e sua filosofia, mas também o estudo, a análise de nosso próprio comportamento afim de podermos avaliar quando agimos como corvos e quando agimos como raposas.  Hammed nos alerta que o "ser amadurecido impõe respeito, e não cede diante da adulação."

Não confundir adulação com admiração - são conceitos divergentes: o que admira não adula; o que adula não admira.  A adulação é uma porta larga para o favoritismo e a vaidade, mas uma porta quase fechada para indivíduos dotados de autoconfiança.  O vaidoso procura o êxito diante do mundo porque crê que não o possui dentro de si mesmo.

Assim, o autoconhecimento pode ser o instrumento para definir a sua finalidade no mundo.  Aquele que "desenvolve sua individualidade não cria ilusões, pois tem as próprias razões e discernimento diante da vida."

E então, você se encaixa mais como corvo ou como raposa? Ou melhor, você não pertence a nenhuma dessas categorias? Ou conhece algum corvo ou raposa? Compartilhe conosco suas reflexões pessoais.

Até semana que vem!

 








2 comentários:

  1. Quanto ainda sou ingênua!... elogios? Me questiono se os mereço. Sempre que possível, auxilio no anonimato. Somente minha consciência é minha juíza. Traços de ambos os animais da fábula.

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    1. Todos nós merecemos elogios vez ou outra. Há que se refletir com que intenção são feitos.

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