Olá leitores,
Este mês nosso Clube de Leitura discutiu o livro do colombiano, Gabriel García Márquez, conhecido como Gabo, "Relato de um Náufrago".
Em realidade, nem é um livro ficcional - como Gabo também era jornalista, esse relato é praticamente uma reportagem de um fato que ocorreu em 1955, e foi publicado em série no Diário de Bogotá, El Espectador.
O livro conta a história de Luís Alejandro Velasco, único sobrevivente de um acidente ocorrido com um destroier da marinha colombiana, durante uma tormenta no Mar do Caribe, onde oito membros da tripulação caíram no mar. Velasco se separou dos outros no acidente e conseguiu permanecer num bote salva-vidas (no livro está balsa) durante 10 dias até ser encontrado descordado, quase morto numa praia deserta do norte da Colômbia.
Durante esses 10 dias ele quase não comeu - tentou comer uma gaivota que tinha conseguido capturar, mas não teve coragem de comê-la; também comeu parte de um peixe que ele também conseguiu pescar, mas jogou o resto ao mar para os tubarões e também comeu uma raiz/uma alga que encontrou num dado momento no fundo do bote - como o bote virou em um dia e ele conseguiu desvirá-lo, a tal da raiz deve ter entrado no bote neste momento.
Ele também não bebeu - quer dizer, bebeu um pouco da água do mar em alguns momentos, mas ficou com a garganta irritada por causa do sal.
Durante sua estada no mar por esses dias, teve "visões" de colegas que poderiam também estar no bote com ele - mas manteve a esperança e a fé de que iria ser resgatado, com breves momentos de desilusão.
Ao ser encontrado na praia, foi levado a um hospital naval, onde só foi permitido falar com jornalistas do regime. Nessa época, a Colômbia vivia sob a ditadura folclórica de Gustavo Rojas Pinilla.
Em realidade, ao conversar com um jornalista disfarçado de médico, este descobriu que não acontecera tormenta alguma e sim um acidente: o navio levava uma carga de contrabando e ele adernou devido a força dos ventos no mar agitado, a carga (geladeiras, televisores e máquinas de lavar) soltou-se e arrastou para o mar os oito marinheiros.
"A revelação do que verdadeiramente sucedera converteu-se, imediatamente, em denúncia política. O país foi tomado de grande alvoroço que custou a glória e a carreira do náufrago e valeu um exílio para o repórter."
Gabo comenta na introdução do livro escrito em fevereiro de 1970:
"Apesar das pressões, das ameaças e das mais sedutoras tentativas de suborno, Luís Alexandre Velasco não desmentiu uma linha sequer da história. Teve que abandonar a marinha, o único trabalho que sabia fazer, e se precipitou no esquecimento da vida comum. Em menos de dois anos caiu a ditadura e a Colômbia ficou à mercê de outros regimes melhor vestidos mas não muito mais justos, enquanto eu começava em Paris este exílio errante e um pouco nostálgico que tanto se parece também com uma balsa à deriva. Nunca mais ouviu-se falar do náufrago solitário, até que, há uns meses, um jornalista perdido encontrou-o atrás de uma mesa em uma empresa de ônibus. Vi essa foto: aumentou de peso e de idade e nota-se que a vida o marcou, mas deixou nele a aura serena do herói que teve a coragem de dinamitar a própria estátua."
"Eu não voltara a ler este relato nestes 15 anos. Parece-me bastante digno de ser publicado, mas não consigo entender a utilidade de sua publicação. Causa-me depressão a ideia de que aos editores não interessa tanto o mérito do texto como o nome que o assina, que, para desgosto meu, é o de um escritor da moda."
Para o náufrago, o seu heroísmo consistiu em não se deixar morrer.
Boa semana!
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