Caros amigos,
Hoje é dia de mais uma fábula. Vamos à ela.
"Contam que certa raposa astuta, quase morta de fome, sem eira nem beira, andando à caça de manhã, passou por uma parreira carregada de cachos de uva bem maduros, todos pendentes na grade que oferecia suporte à videira.
Mas eles estavam altos demais e a raposa não podia alcançá-los. De bom grado ela os trituraria, mas sem lhes poder tocar disse:
- Estão verdes... já vi que são azedas e duras. Só os cães podem pegá-las.
E foi embora a raposa, deixando para trás os cachos de uva, madurinhos e doces, prontos para quem por ali passasse e pudesse alcançá-los."
Essa fábula de La Fontaine é bastante conhecida e muitas vezes mencionada em situações do dia a dia quando fazemos uso de uma mentira para aplacar uma angústia interna.
Na história, num primeiro momento, a raposa avista um alimento que pode saciar sua fome, depois faz várias tentativas para alcançar as uvas (objeto de seu desejo). Quando, exausta, percebe que não irá conseguir alcançá-las, uma atmosfera de incapacidade começa a delinear-se em sua mente.
No início, a busca pelo alimento estava ligada ao seu "estado físico" (o saciar a fome como necessidade biológica), entretanto, depois do ocorrido (suas infrutíferas tentativas de alcançar as uvas), ela começa a sentir algo diferente - frustração. Então, ela pensa, reflete sobre o seu fracasso, percebe que não pode realizar tudo o que deseja, é um ser limitado, mas não quer ser considerada falida ou derrotada. Nesse momento, também percorre pelo seu íntimo um sentimento de desestima e rejeição a si mesma, percebe a sua pequenez perante a realidade dos fatos da vida. E, pensa: "Que futuro me espera daí em diante?" Como fazer uso da razão para aceitar a si e aos fatos sem contradizer a realidade? Se fizer isto estará sendo incoerente, estará em jogo a falta de nexo ou de lógica...
Nesse momento, ocorre o inesperado: ela conta uma mentira para si mesma, engana si própria. "Estão verdes... já vi que são azedas e duras. Só os cães podem pegá-las." Como seu sistema mental não podia aceitar a derrota, o fracasso, ele precisou adaptar-se de maneira "positiva" à dura e frustrante realidade; a raposa deu a si uma vantagem e mentiu para si mesma. Sua conclusão sobre a condição das uvas não condiz com a realidade, entretanto salva a estrutura íntima da raposa.
Então, ela parte dali, em busca de outro tipo de alimento, com sua angústia interna aplacada, não dá continuidade a seus pensamentos e sentimentos internos (que ela considera negativos - fracasso, derrota) e desiste da crise existencial que poderia provocar reflexões e mudanças em sua vida.
O mecanismo do qual ela faz uso é o da racionalização. Este mecanismo de defesa permite a negação dos reais motivos de uma situação, escondendo as sensações desagradáveis que vivenciamos com justificativas equivalentes ou histórias semelhantes.
A racionalização é o processo de encontrar motivos aceitáveis para pensamentos e ações inaceitáveis. Esse termo foi criado por Freud. William James, outro teórico da psicologia fala de sentimento de racionalidade. "A racionalização envolve o processo de desejo e a procura da razão para justificar um ato cometido por outras razões, na maioria das vezes, irracionais. O Sentimento de racionalidade é a carga emocional que emerge do relacionamento com uma ideia antes que nos mobilizemos para aceitá-la ou não". (Teorias da Personalidade - James Fadiman, Robert Frager, 1976).
Lembremo-nos de que todo mecanismo de defesa do ego possui duas características comuns:
a) Nega, falsifica ou distorce a realidade;
b) Opera inconscientemente, ou seja, a pessoa não tem consciência do que está ocorrendo. (Teorias da Personalidade, C.S.Hall e G. Lindzey, 1973).
Assim como a raposa, nós também buscamos acalmar nosso íntimo com falsas razões que consideramos "boas razões"; criamos "explicações" para justificar nossos fracassos e frustrações.
Um dos bons exemplos de racionalização é a maledicência onde a desculpa é a de que todos fazem isso e pior, os outros também falam mal de nós, então... A racionalização está na afirmação de que quando falamos dos defeitos alheios estamos apenas analisando suas personalidades como se conhecêssemos suas vidas na íntegra e melhor, com se fôssemos profundos conhecedores da psicologia humana. A desculpa da "análise" da personalidade humana, para alguns, é impedir que se cometam os mesmos erros. Em verdade, desvalorizamos ou difamamos as pessoas para nos sentirmos melhores, mais eficientes, mais superiores ou capazes perante os outros. Esta é a verdadeira intenção inconsciente dos maledicentes. O que deve ser realmente analisado e observado nesta situação é de que em muitas circunstâncias, temos exatamente as mesmas qualidades negativas que observamos nos outros - é a famosa projeção, relatada num texto anterior.
Em sã consciência, quem pode realmente emitir julgamentos sobre alguém? Como apontar ciscos nos olhos dos outros com uma trave nos próprios olhos? Como se pode atirar pedras quando se está carregado de "pecados" (imperfeições)?
Será que quando falamos mal ou bem de uma pessoa, esta não recebe os eflúvios das vibrações de nossas palavras, sentimentos ou pensamentos? Cientificamente a sintonia, as vibrações à distância já foram estudadas. Assim, se forem palavras de crítica destrutiva, esta pessoa não sentir-se-ia mal? Não sentiria ela um mal estar, uma leve indisposição, uma tontura, ou como diria Luke Skywalker de "Guerra nas Estrelas", um abalo na força?
E se forem palavras de crítica construtiva, palavras positivas, ela também não sentiria as vibrações de amor, de caridade, de benevolência e portanto, sentir-se-ia bem, com disposição e uma sensação de paz e bem estar? O pensamento é vida e neste caso tanto o falar quanto o pensar tem o mesmo peso, pois são vibrações.
São facetas da maledicência: a denúncia caluniosa, a crítica mordaz, o comentário malicioso, o falar mal, a interpretação pejorativa, o julgamento falso, a suspeita comprometedora. Atualmente é difícil não cair nas malhas deste desvio moral, mas tratemos de nos esforçar em ampliar os recursos da caridade para com o nosso próximo e mantenhamo-nos silentes quando não pudermos valorizar, pela palavra, ato ou pensamento, as ações no bem que podemos realizar, porque o mal não merece comentário em tempo algum.
Agora, falemos um pouco mais sobre a Frustração. No dicionário Aurélio, Frustração é o estado de quem, por ausência de um objeto ou por um obstáculo externo ou interno, é privado da satisfação dum desejo ou necessidade. A ideia inicial é compreendermos que tipo de desejos ou necessidades que não são satisfeitos. Hammed vai mais fundo nesta questão e afirma que quando estabelecemos altos padrões e metas existenciais elevadas ao mais algo grau, mas não estamos preparados para aceitar serenamente resultados que não vão de encontro imediato ao objetivo desejado, sentimo-nos frustrados, e nesta frustração nossa autoestima se rebaixa e podemos apresentar depressão, tristeza, raiva. Então, sentimo-nos impotentes - essa é a única realidade; os outros sentimentos que nos acometem são exatamente fruto de nossa não aceitação da realidade.
Para identificarmos melhor a sensação de frustração, ilustremos com dois exemplos.
Um milionário de Nova York toma conhecimento de um leilão de arte em Londres. Ele pretende adquirir um quadro que lhe traz muito bem estar e satisfação quando o admira. Quando vai tomar o avião para Londres, cai uma nevasca, o aeroporto é fechado, ele é impossibilitado de ir ao leilão e o quadro é adquirido por outro comprador. Então o milionário, embora tendo todas as condições para satisfazer seu desejo, é bloqueado por um problema climático, e sente-se frustrado.
No segundo exemplo, tomemos uma mulher de 25 anos, solteira que está interessada num rapaz que conheceu superficialmente numa festa. Numa festa seguinte em que é convidada, ele aparece lá com uma namorada. Então, ela, que tinha o desejo de começar um relacionamento com ele, sente-se frustrada de não ter o seu desejo realizado.
Com estes dois exemplos descritos façamos uma projeção futura e imaginemos que tipos de atitudes posteriores poderiam advir dessas duas situações frustrantes.
No primeiro caso, se ele não aceitasse com serenidade a perda do objeto desejado, no caso, o quadro, ele poderia tentar encontrar o comprador para adquiri-lo a qualquer preço, afinal de contas, ele é um milionário, mas ele poderia incorrer numa nova frustração. E, se caso ainda não aceitasse que o comprador não o venderia por nenhum valor, sua raiva em não conseguir o quadro poderia levá-lo a atitudes irracionais - dá para imaginar que tipo de atitudes!
No segundo caso, ela poderia desestruturar, com atos estratégicos, o casal de namorados para tentar ficar com ele. Imaginemos que ela o consiga, mas descobre que ele não está interessado nela - ele não gosta dela do mesmo modo que ela gosta dele. Nesse sentido, a frustração seria imensa e se, principalmente, ela não aceitasse este fato com serenidade, poderia continuar tentando seduzi-lo de todas as maneiras possíveis. Em não aceitando o fato, a realidade da vida, perderia a oportunidade de crescer e evoluir. Ficaria parada, estagnada.
A frustração nada mais é do que outra faceta do orgulho, pois só fica frustrado aquele que não aceita os percalços da vida com compreensão, serenidade e raciocínio. É bom, saudável e correto lutarmos por nossos objetivos na vida; o que não é saudável é não aceitarmos com serenidade aquilo que não podemos mudar. A oração da serenidade, muito usada nas reuniões de compulsivos (alcoólatras, neuróticos, toxicômanos, etc.) se ajusta perfeitamente a essa situação: "Senhor, concedei-nos a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para aceitar aquelas que podemos, e sabedoria para distinguir umas das outras."
E assim, como já foi dito antes, a racionalização é um mecanismo de defesa do ego quando uma pessoa apresenta uma explicação com lógica e consistência ou até eticamente aceitável para uma ação, sentimento ou atitude que lhe causa sofrimento moral e com a qual ela não consegue lidar ou aceitar. Essa explicação disfarça os reais motivos tornando o inaceitável mais aceitável. Ilustremos novamente com os dois exemplos anteriores.
No caso do milionário, ele poderia dizer que o quadro não valia todo aquele dinheiro ou até que o quadro tinha um defeito na pintura.
No caso da moça apaixonada, ela poderia maldizer o rapaz dando-lhe características negativas, tais como "ele não era honesto, se vestia mal, tinha dentes feios, falava com a boca cheia de comida, etc."
Nosso crescimento como indivíduos no contexto social pressupõe melhorarmos nosso caráter. Para melhorarmos nosso caráter devemos, antes de qualquer coisa, reconhecer nossos erros, nossos defeitos, sermos honestos com nós próprios. Quando usamos da racionalização, usamos também a inteligência para negar a verdade, mentimos para nós mesmos e, portanto, somos desonestos com nós próprios. Se mentimos para nós mesmos, é fácil mentirmos para os outros também. Se há a mentira em jogo, há uma ruptura em nosso caráter. E, havendo esta ruptura há a dificuldade da expansão da consciência, que por sua vez causa uma desestruturação da nossa individualidade como ser humano.
Para expandirmos nossa consciência devemos integrar todos os conhecimentos adquiridos até o presente para além dos limites conhecidos. E essa expansão traz experiências transformadoras, radicais (às vezes) e intensas no indivíduo no que diz respeito à sua visão de mundo e à sua forma de viver.
Mas para que ela ocorra, o indivíduo deve decidir-se por realizá-la, deve usar de sua vontade para iniciar o processo. A expansão da consciência o leva ao crescimento pessoal, social e espiritual e mais que tudo, ao despertar dos potenciais inconscientes, tais como capacidades inatas, aptidões e conduzi-lo à sabedoria almejada.
Moral da história: uma desculpa, um julgamento inadequado pode ser uma forma de compensar nossos fracassos, e ao mesmo tempo trazer certo consolo para nosso ego ferido - mas, analisando realisticamente a situação, este "consolo" é a trave que colocamos em nossos olhos quando não queremos aceitar não somente nossos erros e más escolhas, mas também aquelas situações que não podem ser modificadas por nossa vontade, onde "ego ferido" é simplesmente nosso orgulho.
As racionalizações são usadas para compensar uma frustração. É comum encontrar indivíduos que agem como a raposa: quando não conseguem, alcançar seus objetivos, acusam as circunstâncias, denigrem os projetos e desta forma diminuem a gravidade de seu insucesso.
Boas reflexões e boa semana!
Até!
Infelizmente muitas pessoas ainda se utilizam do ataque como a melhor defesa.
ResponderExcluirMenosprezam aquilo que não conseguem para não lidarem com suas frustrações.
Infelizmente mesmo. Hoje isso é cada vez mais comum. Bem, tentemos fazer a nossa parte lembrando dessa característica para não incutir nesse erro. Grata por seu comentário Viviane.
ExcluirUma outra 'moral da história' desta fábula é "quem desdenha, quer comprar". Quanto a ser atingido por emanações negativas, acredito que é possível acontecer se o destinatário em questão descuidar da oração e vigilância.
ResponderExcluirGrata pelo comentário. Concordo.
ResponderExcluirFantástico Sonia. Só observarmos ao nosso redor (e especialmente em nós mesmos) essas facetas tão sutis, nos tornando sabotares de nós mesmos. Além disso, penso que boa parte das pessoas ainda não provou uma determinada "satisfação" que podemos atingir ao nos olharmos no espelho e nos descobrirmos. Certamente que o primeiro passo nos dará frustrações e dores, porém, ao avançar nesse conhecimento mais profundo do que somos, chegaremos a um pouco de aceitarmos e melhorarmos nossa condição. E quando isso ocorre, atingimos um Prazer de Viver (pelo menos naquele item) que nos dá uma sensação e uma emoção jamais sentida antes. Abraços!
ResponderExcluirCom certeza Eduardo. A palavra mágica para o bem estar é a aceitação das coisas como aparecem.
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