Caros leitores,
Hoje trago para vocês a análise da última fábula do livro de Hammed "La Fontaine e o Comportamento Humano".
Vamos à ela então.
"O cavalo não era doméstico outrora.
Houve um tempo em que os homens se alimentavam só de frutos. Nessa época viviam nas florestas os cavalos, jumentos, burros, mulas, todos livres correndo pelos campos.
Não havia, como agora, arado, selas, selins, cadeirinhas, carruagens, arreios, nem também tantos banquetes, casamentos, festins.
Foi quando o cavalo teve uma discussão com um cervo extremamente lépido e, não havendo um modo de alcançá-lo, foi, pois, o cavalo implorar o auxílio do homem.
O homem meteu-lhe um freio, nas costas uma sela e, saltando-lhe ao dorso, somente lhe deu descanso quando matou o infeliz cervo.
Isso feito, eis que o cavalo agradece ao benfeitor e diz-lhe:
- Obrigado! Agora te apeia e leva o que caçaste. Estou muito agradecido por tão distinto favor. Vou voltar à floresta, onde vivo. Adeus, adeus, meu senhor!
Não - respondeu-lhe o homem. - Não irás retornar, pois agora o teu lar será este aqui, junto comigo! Tu não padecerás de fome ou frio e terás uma manjedoura abarrotada de feno.
- De que vale a fortuna se a liberdade é perdida! Assim, viu-se o cavalo privado do maior bem desta vida. E quando volta, a estrebaria já estava construída.
Ali terminou seus dias sempre arrastando o grilhão. Não teria sido melhor que houvesse dado o perdão de tão leve ofensa ao pobre veado?
O mesquinho prazer de se vingar não compensou pagar o alto preço da perda do direito de ir e vir."
Nesta fábula podemos refletir sobre os sentimentos, as emoções e a razão. E, nesta reflexão podemos notar que o cavalo perdeu seu mais precioso bem por causa de sua emoção descontrolada - raiva - e de seu sentimento de vingança.
Através da análise das fábulas, definimos padrões de pensamento e comportamento que trazem infelicidade e desarmonia para nossas vidas. Através de uma autoanálise, cada um de nós, num exercício de autoconhecimento, pode se auto ajudar quando percebe em si mesmo alguns desses sentimentos desarmonizadores de sua existência.
A meu ver, a primeira etapa deve começar pela observação de si próprio nas diferentes situações diárias. No cotidiano podemos perceber várias nuances de nossa personalidade, tanto positivas quanto negativas. Há que ser duro neste julgamento para estabelecer critérios mais realistas para as mudanças. Nesta fase, a ideia ainda não é fazer modificações. De minha parte, acho mais fácil colocar tudo no papel para uma análise futura com uma visualização mais fácil para a etapa da prática, ou seja, das mudanças propriamente ditas.
Observemos nesta fase como nossas emoções atrapalham a harmonia de um local, como nossa comoção em relação a um fato faz com que, muitas vezes, todas as pessoas envolvidas se sintam perturbadas, desorientadas.
Na fábula em questão, se o cavalo usasse sua razão predizendo consequências saberia que um dia ele também poderia errar e neste erro necessitar do perdão, então, ele, depois desta reflexão, ao invés da vingança, faria uso do perdão.
O cavalo fez uso apenas de suas emoções e, movido por elas, não conseguindo realizar seu intento sozinho - o de se vingar do cervo - buscou a ajuda do homem que ele julgava mais ágil do que ele para esta tarefa. Agindo baseado na raiva e na vingança, ele também demonstrou certa ingenuidade - sentimento que faz parte das pessoas que não usam a razão e o bom senso; traduz também, a meu ver, imaturidade.
Cada fábula apresentada é muito rica em ideias e esta não é diferente. Podemos divagar também sobre a ideia de querer castigar a outrem - quem nos concedeu a prerrogativa de castigar alguém por um ato que nós consideramos "errado"?
Hammed nos lembra que o ser lúcido, consciente não subjuga outros, não concorda com o autoritarismo. Só aquele que não sabe sentir-se como um indivíduo quer dominar o outro.
Só nos sentimos ofendidos, indignados, humilhados quando, dentro de nosso íntimo, temos sentimentos de inferioridade/superioridade (orgulho), egoísmo, baixa autoestima. Quando temos noção da vida real não há motivos para revanche, vingança - quando percebemos que todos nós estamos nesta vida para crescer, evoluir, aprimorarmo-nos, estaremos invulneráveis às ofensas, agressões, maus tratos.
Como moral da história, podemos concluir que nosso mundo só diz respeito a nós mesmos. Somos nós que escolhemos nossa conduta, como iremos nos comportar. Não permitamos que as emoções e sentimentos desorganizadores ditem nosso caminho. A vingança, o ódio, o orgulho não devem nos seduzir e conduzir nossos atos e palavras.
Alertemo-nos a respeito das circunstâncias que esses sentimentos aparecem: a expectativa através de uma promessa; a culpa através de uma "insinuação"; a ira através de um ataque; a fofoca através de uma calúnia; a paixão através de uma sedução; a soberba através de uma adulação; o medo através de uma chantagem.
Para minorar estes sentimentos desequilibrantes dentro de nós, não devemos nos aliar a ninguém com a finalidade da vingança, pois este tipo de cumplicidade gera dependência que pode aprisionar-nos por tempo indeterminado a esta tramoia.
Boa reflexão e boa semana!
Até!
Auto-vigilância👍
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