quinta-feira, 26 de agosto de 2021

0 OLHO DE HÓRUS

Caros amigos leitores,

Hoje trago mais uma regra de Jordan Peterson.  Ele sempre traz exemplos da mitologia universal e o de hoje é baseado na história egípcia de Osíris, Set, Isis e Hórus.  Muitas das coisas me foram esclarecidas dessa história embora algumas características eu já conhecia.  Vamos à história.

"Osíris era o deus do Egito - ele era adorado como o herói que estabeleceu a cultura, a civilização que vivia às margens do rio Nilo.  Quando jovem, esse deus produziu uma das primeiras grandes e duráveis civilizações do globo.  Mas ele envelheceu, assim como tudo na vida e tornou-se deliberadamente "cego" às coisas de seu povo - ele começou a fechar seus olhos quando ele deveria mantê-los abertos.  Osíris parou de prestar atenção em como seu reino era governado.  Essa foi uma cegueira intencional a qual não se pode por a culpa na idade.  

A decisão de Osíris de fechar seus olhos teve um alto preço: a subjugação de seu maléfico irmão, Set.  A ideia do Estado em ter um irmão malevolente era um postulado do mundo egípcio (eu diria em qualquer cultura...). Uma vez que a hierarquia é estabelecida, abre-se uma oportunidade para que as posições de autoridade sejam usurpadas, não por aquelas pessoas que têm a competência necessária para a tarefa ou o cargo, mas por aqueles que usam a manipulação, a fraude e a compulsão para ganhar status e controle.  Eram todas essas forças contraproducentes que os egípcios tentavam conceituar na figura de Set, o inimigo da iluminação, do esclarecimento, da visão e da consciência.  Uma das maiores ambições de Set era governar o Egito, ficar no lugar do legítimo Faraó.  Por se fazer cego para as maléficas maquinações de seu irmão - por recusar-se a ver - Osíris permitiu que Set ganhasse força.  Isso foi fatal.  Set aguardou a hora adequada e surpreendeu Osíris num momento de fraqueza.  Então Set desmembrou Osíris e espalhou os seus pedaços pelo território egípcio.  Não foi (e não é) possível assassinar Osíris, o eterno impulso em direção à organização social.  Essa é uma força que não morrerá.  Mas é possível quebrá-la em várias partes - para que seja difícil agir como um todo - e isso era exatamente o que Set queria.

Osíris, deus da ordem, se desmantelou.  Isso ocorre todo o tempo na vida dos indivíduos, e igualmente na história das famílias, cidades e Estados.  As coisas se desmantelam quando casos de amor se rompem, carreiras se deterioram ou sonhos acalentados morrem;  quando o desespero, a ansiedade, a incerteza e a desesperança se manifestam no lugar da ordem.  Sob tais circunstâncias, o caos emerge.  E é por isso que a deusa Isis, rainha do submundo e esposa de Osíris, faz sua aparição quando Osíris é destruído por Set.  Isis vasculha o país em busca da essência vital de Osíris.  Ela a encontra na forma de seu falo desmembrado - o princípio frutificante - e se faz grávida dele.  O que isso quer dizer? A rainha do submundo, a rainha do caos, também é a força dos eternos recomeços.  Assim, quando a parte central de um sistema não se sustenta, uma nova possibilidade se manifesta.

Então Isis, agora grávida, retorna para o submundo e dá à luz, na hora devida, a Hórus, filho legítimo do rei perdido - e, pouco a pouco ele vai amadurecendo (algo que todos nós experimentamos durante nosso amadurecimento).  Seu atributo primário é o olho - o famoso olho egípcio - "o olho que tudo vê" - enquanto seu avatar é o falcão, o pássaro que mira com toda a precisão para capturar sua presa pois possui uma acuidade na visão sem paralelos com o reino das criaturas viventes. Hórus aliado com sua habilidade de ver, usa a sua vontade para tal.

Essa é a verdadeira coragem: a recusa em encolher-se perante as situações que aparecem, não se importando se elas se apresentam terríveis.  Hórus é o grande deus da atenção, e os egípcios determinaram, em sua estranha maneira de narrar a história - numa forma de pensamento imaginativo que se estendeu por milhares de anos - que a faculdade da atenção deveria se sobrepor a todas as outras.

Hórus diferia de Osíris, seu pai, em sua prontidão de ver. Ele vê seu tio Set, por exemplo, precisamente pelo que ele é.  Set é a pura malevolência; o mal em si mesmo.  Não obstante, próximo de sua maturidade, Hórus retorna ao reino usurpado de seu pai e confronta seu tio.  Eles entram numa batalha épica.  Durante esse confronto, Set tira um dos olhos do sobrinho corajoso.  Apesar do dano, Hórus sai vitorioso. É importante ressaltar que ele entrou na batalha voluntariamente.  Essa é uma das máximas da intervenção clínica de muitas teorias do pensamento psicológico - o confronto voluntário com a coisa temida, a coisa odiada ou o obstáculo menosprezado é curativo.  Nós nos tornamos mais fortes quando enfrentamos voluntariamente o que impede o nosso progresso.  Isso não quer dizer que devamos entrar "de cabeça" em qualquer desafio, ou "carregar uma cruz maior que aquela que possamos carregar".  

Busque a responsabilidade desta maneira: restrinja o mal; reduza o sofrimento; confronte a possibilidade que se manifesta à sua frente a cada segundo de sua vida com o desejo de fazer as coisas da melhor maneira, sem levar em conta o fardo que você carrega, e também sem se importar com a aparente crueldade e injustiça da vida.

Para finalizar a história, Hórus pega de volta o seu olho de Set derrotado e bane Set do reino.  Ele não mata Set.  Ele é eterno assim como Osíris, eterno como Isis e Hórus.  O mal que ameaça as experiências da vida é aquele que devemos sempre conviver psicologicamente e socialmente.  Em alguns momentos ele pode ser superado, banido e derrotado.  Então a paz e a harmonia prevalecem pelo tempo até que não nos esqueçamos do porque ele veio à tona. 

Bem, Hórus recupera seu olho.  Depois ele retorna ao submundo para buscar o espírito de Osíris - desmembrado, quase morto, num certo sentido - que habita o domínio caótico do submundo.  Hórus o encontra e lhe dá o olho que lhe foi retirado por Set.  Hórus acolhe seu pai, com a visão restaurada e retorna com ele para o reino, assim eles podem governar juntos.  Os egípcios insistiram que a combinação da visão, da coragem e da tradição regenerada constituem a legítima soberania do reino.  Era esta justaposição de sabedoria e juventude que compõem a essência do poder do Faraó, sua alma imortal, a fonte de sua autoridade."

A interpretação dessa história da mitologia do Egito pode conter muitas ideias.  Cada pessoa que entrar em contato com ela tenderá a ter uma visão de acordo com sua personalidade, sua vivência e até seu momento na vida.  Entre outras coisas, outros exemplos, Peterson quis nos mostrar que enfrentamos muitos desafios em nossa vida social, seja no trabalho, em família, num ambiente público.  A ideia é estarmos sempre muito atentos, com olhos abertos para as oportunidades que surgem para darmos o nosso melhor.  A cada dia, a cada momento podemos e devemos ser melhores em nossas empreitadas.  Às vezes, temos que enfrentar Set e, mesmo que ele nos tire um olho e, aparentemente nos encontrar momentaneamente sem direção, busquemos derrotá-lo, recuperar nosso olho, voltar para nosso interior e realinhar nossas partes outrora despedaçadas e assim voltar ao mundo consciente para continuar reinando até que a próxima  batalha surja.  A maturidade espiritual é conquistada desta maneira e, uma vez de posse dela, a vida se faz mais leve.

E, termino com uma frase de Peterson: "A fundamental questão do homem não é quem ele é, mas quem ele pode ser."

Boa semana!





quinta-feira, 19 de agosto de 2021

"TODOS ESTAMOS CONECTADOS"

 Caros leitores,

O texto de hoje traz uma ideia que, praticamente, todos nós já conhecemos, mas que ainda, não foi interiorizada pela grande maioria, incluindo a mim mesma.  Como já mencionei em alguns dos meus textos, durante esse período dessa crise sanitária no mundo, li, reli, assisti, debati e refleti sobre o universo e seus habitantes.  Aprendi muito sobre cultura, política, economia, arte, medicina, religião, psicologia, astronomia, história, etc.

Com base nesses novos conhecimentos e os anteriores que já tinha concluí que muitos textos, livros, documentários, filmes, palestras, debates, entrevistas aos quais entrei em contato possuem uma ideia central e única : "Todos estamos conectados".

O tema para este texto foi encontrado através dessa busca e foi provocado pelo último vídeo que assisti no YouTube - uma fala do índio da tribo Hopi dos Estados Unidos - Red Crow ("Corvo Vermelho"), cujo texto será transcrito ao final dessa postagem.

Muitas culturas e religiões espalhadas pelo globo trazem essa mensagem: "Estamos todos ligados uns com os outros."

Outro livro que traz à baila este tema o qual  estou lendo é de uma indo-americana Rajshree Patel - ela nasceu em Uganda, de família indiana criada entre a Índia Rural e a cidade de Nova York, e sempre foi contra as raízes e os costumes da Índia; trabalhava como promotora federal e depois trabalhou no Gabinete do Procurador de Los Angeles.  Num momento de sua vida, ela foi a um evento achando que era um show de música de um indiano chamado Ravi Shankar e acabou descobrindo que era um workshop de um mestre espiritual chamado Sri Sri Ravi Shankar - assim ela descobriu a cultura védica da Índia.

O livro dela em questão chama-se "Shakti" que quer dizer "força de vida", "força vital".  O livro foi-me dado pelo meu marido no meu aniversário, o qual ele, intuitivamente, achou que eu iria gostar; achei o título estranho e comecei a lê-lo.  Entre muitas ideias interessantes, no último capítulo intitulado "Está tudo conectado", ela traz o seguinte:

"É fácil esquecermos nossa interdependência e nossa interconectividade.  Na busca da individualidade e em nosso ponto de vista separatista e condicionado, esquecemos como tudo em nossa vida está conectado a alguém ou a alguma coisa.  A simples realidade é que somos dependentes uns dos outros para a nossa sobrevivência.  O simples ato de comer envolve um ecossistema inteiro.  Alguém tem que plantar a semente, alguém tem que cuidar dela, cultivar, colher, transportar, vender, comprar, cozinhar, comer e digeri-la com a ajuda de uma equipe interior de microrganismos intestinais."

"Não apenas as pessoas, mas toda a natureza está entrelaçada numa intrincada teia de interconexão.  Os mestres zen e os yogis dizem isso há séculos e, finalmente, os cientistas também reconhecem a realidade da interconectividade da vida."

"Os cientistas constataram que, quando nossa intenção e nossa atenção estão voltadas para alguma coisa, nós estamos criando essa coisa de maneira muito real.  Nossa consciência está basicamente moldando a realidade que experimentamos."

Ela cita até uma sugestão de Leonardo da Vinci: "Desenvolva seus sentidos - especialmente aprenda a ver.  Perceba que tudo está conectado a todo o resto."

Ela expande essa ideia: "Aprender a ver é exatamente o que estamos fazendo aqui.  Quando mudamos a maneira como vemos as coisas, mudamos tudo na nossa vida."

"Se pudermos ver o design maior, se pudermos entender como estamos todos conectados, encontraremos o que realmente estamos procurando: fazer parte de algo maior."

"Tudo está conectado."

"Existe uma sincronicidade, uma coerência e uma harmonia em tudo na natureza quando o homem não interfere num nível destrutivo..."

Ela finaliza o capítulo da conexão afirmando que "Nossa perspectiva é uma escolha nossa.  Aquilo em que acreditamos nós criamos."

"Quando nossa intenção é clara e nossa consciência é elevada, as estruturas moleculares se reorganizam para nos dar o que queremos."

Com uma pergunta final ela nos faz refletir: "O que você vai criar neste campo de possibilidades ilimitadas chamado "vida"?

Com todas essas ideias sobre nossa conexão com tudo e com todos, deveríamos começar a pensar melhor, para viver melhor - refiro-me a ter bons pensamentos, para ter boas palavras e boas atitudes - essa é a maneira de melhorar o teor do mundo que nos rodeia.  Ao invés de nos influenciarmo-nos com as más notícias e termos dias ruins, comecemos a vigiar nossos pensamentos, palavras e atitudes para projetar no mundo nossas melhores intenções. Dessa maneira, o mundo se renova para melhor e nós nos sentimos mais leves e equilibrados.  Essa é a parte que nos cabe.

E, para finalizar trago a tradução da mensagem do índio Hopi, Corvo Vermelho ( o vídeo em questão está em inglês):

"Profecia Hopi

O tempo evolui e chega num lugar onde ele se renova novamente.  Há uma primeira purificação no tempo e então vem o tempo da renovação.  Estamos chegando perto desse tempo agora.  Nos foi dito que veríamos a América ir e vir, e um sentido da América está morrendo de dentro sem viver as instruções em como viver na Terra.

Está chegando o tempo onde a profecia e o homem e sua inabilidade de viver na Terra de maneira espiritual chegarão numa encruzilhada de grandes problemas.

É a crença dos Hopi, é a nossa crença de que se você não estiver espiritualmente conectado com a Terra, não entender a realidade de como viver na Terra, você não sobreviverá.

Quando Colombo chegou, começou o que chamamos de a primeira grande guerra, foi a verdadeira grande guerra, quando Colombo chegou.

Porque junto com ele, veio todo mundo da Europa.  No fim da segunda grande guerra nós éramos na América, somente 800.000 - de 60 milhões para 800.000.  Então, fomos quase exterminados na América.

Tudo é espiritual.  Tudo tem um espírito.  Tudo foi trazido para você pelo Criador.  O único Criador.  Alguns o chamam Deus, alguns o chamam Buda, alguns o chamam Alah e alguns o chamam de outros nomes. Nós o chamamos de Tunkashila - Avô.

Estamos na Terra há apenas alguns invernos e depois vamos para o mundo do espírito - o mundo do espírito é real e muitos de nós acreditam que o mundo do espírito é tudo.

Mais de 95% de nosso corpo é água e para você manter-se saudável você precisa beber boa água.  Quando o primeiro europeu veio aqui, Colombo, nós podíamos beber de qualquer rio.  Se os europeus tivessem vivido da maneira índia quando eles vieram, nós ainda estaríamos bebendo água dos rios.  Porque a água é sagrada. O ar é sagrado.  

Nosso DNA é feito do mesmo DNA da árvore.  A árvore respira do que nós expiramos.  Quando a árvore expira, nós necessitamos do que a árvore expira.  Assim, nós temos um destino comum com a árvore.  Somos todos da Terra.

E quando a Terra, a água, a atmosfera estiverem corrompidas, então a Terra, ela mesma, provocará uma reação.  A mãe Terra reagirá.

Na profecia Hopi dizemos que a tempestade e o dilúvio serão imensos.  Para mim isso não é uma coisa negativa saber que ocorrerão grandes mudanças - não é negativo.  É evolução.

Quando você olha para essa evolução chegou a hora.  Nada permanece o mesmo.  Você deveria aprender a plantar alguma coisa - essa é a primeira conexão.

Você deveria tratar todas as coisas como espirituais e entender que somos uma única família."

Boa semana a todos e boa conexão...




 





 




quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O CACHORRO QUE TROCOU SUA PRESA PELO REFLEXO

Caros amigos leitores,

Hoje traremos outra fábula.  Vamos à ela:

"Se os que buscam ilusões forem chamados de loucos, os dementes então são milhões, e os sensatos, muito poucos.

Esopo exemplifica essa falta de nexo com a fábula do cão que trazia nos dentes uma presa, um bom bocado de carne.  Debruçando-se sobre um barranco, ele viu, refletida na água, a imagem da própria presa, que ele acreditou ser outra ainda maior do que aquela que ele levava.

Iludido pela imagem, larga a presa e atira-se nas águas correntes em busca da "outra".  Como o rio estava muito agitado, ele quase se afoga e, só com muito esforço e sofrimento, alcança a margem.  Obviamente, sem a presa e sem o reflexo dela.

Quantos, como o cachorro, arriscam-se por uma ilusão!"

Embora a fábula fale de uma ilusão causada por um reflexo, na vida real é o oposto: precisamos de muita reflexão para não cairmos na ilusão.  Hammed aponta como fator primordial para nossa lucidez e sanidade mental, "entregarmo-nos a longas e profundas reflexões."

Toda reflexão começa com oração, meditação para alcançar concórdia, harmonia, conciliação, lucidez e paz em nosso íntimo.  Então, que seja dedicado algum tempo em nossa rotina para esta prática.

A agitação dos afazeres diários dificulta a quietude interna, que por sua vez dificulta a reflexão.  Quando há serenidade em nosso ser, podemos ver com mais clareza e lucidez e assim, abrir espaço para a reflexão, para depois agir com capacidade e segurança, e tendo assim grande probabilidade de atingir bons resultados nas decisões do dia a dia.

Atualmente, a humanidade em geral, tem muita dificuldade de aquietar-se e criar um silêncio íntimo para reflexão.  Há muito barulho externo, cultua-se o falar, o ouvir muita música alta e de qualidade duvidosa; há muito ruído em todos os lugares - nas ruas, em lojas, restaurantes, residências, nos transportes coletivos, etc. Principalmente nas grandes metrópoles há sempre alguém se comunicando pessoalmente ou por celular em todos os lugares.  Por isso, há dificuldade de concentração e esta dificuldade por sua vez, inviabiliza a reflexão.

Como agir convenientemente diante de situações e pessoas que surgem em nosso cotidiano, se não alcançamos o equilíbrio perfeito para tal, através da quietude íntima? Então, como diferenciar aquilo que realmente tem importância das ocorrências ilusórias? Quando mantemos a serenidade, somos auto responsáveis, irradiamos paz para todas as pessoas que encontramos pela frente, facilitando desta maneira nossas relações com elas.

Para melhor compreender o tema, trarei outra história:

"Conta uma antiga história persa que, em certa ocasião, um afortunado negociante buscou seu conselheiro espiritual.  Sentia-se deprimido, atribulado, cheio de amargura, pois acreditava estar lucrando pouco com seu comércio.

- Não sei o que está acontecendo comigo.  Tenho tudo o que sempre quis, mas ainda quero mais e mais.  Por isso me sinto infeliz.

O conselheiro, que era um homem sábio, olhou-o demoradamente, mas nada lhe disse.  Tomou-o pelo braço e pediu que olhasse através dos vidros da janela e descrevesse o que via lá fora.

- Vejo árvores, casas, jardins, fontes, pessoas, crianças distraindo-se com brincadeiras.

O conselheiro então colocou o negociante diante de um espelho.

- E agora o que você vê? - perguntou-lhe.

- Eu vejo a mim mesmo - respondeu ele.

E o sábio retrucou:

- Na verdade, o que agora você vê é seu reflexo no espelho.  O vidro espelhado o impede de vislumbrar a realidade, que existe além da sua imagem.  Há muitas coisas que não nos deixam ver a realidade nem o que realmente somos: a ganância, o preconceito, o poder, as homenagens, a preocupação de ganharmos destaque, de nos considerarmos melhores do que os outros... Será que seus negócios e sua desmedida ambição não lhe permitem ver a beleza da vida tal como ela é, com as criações e as criaturas de Deus, pois você apenas tem olhos para si mesmo?"

Concluímos desta história, entre outras coisas, que a ilusão é como um espelho onde vemos unicamente a nós mesmos.  Muitas vezes não enxergamos os fatos como eles são, e sim como aparentam ser.

Em realidade, o espelho tem mesmo uma excelente relação de semelhança para definir a ilusão.  A palavra miragem vem da palavra francesa mirage que significa ser refletido. Para o dicionário Aurélio, miragem é a) "efeito óptico, frequente nos desertos, produzido pela reflexão total da luz solar na superfície comum a duas camadas de ar aquecidas diversamente, vendo-se a imagem, de ordinário, em posição invertida; esse efeito cria imagens semelhantes a lagos límpidos, onde podem se refletir árvores, plantas ou cidades longínquas; b) visão fantástica, enganosa; c) fig. ilusão sedutora, sonho."

Usando-se de metáfora, podemos dizer que miragem é tudo aquilo que se apresenta como verdadeiro, mas que na realidade é uma ilusão, alucinação, devaneio.

Por ambição, muitos, na vida social, "arriscam-se por uma ilusão, como o cachorro."

O processo pelo qual enganamos a nós mesmos, afetando o jeito de percebermos a realidade, passando a aceitar como verdadeiro o que é falso chama-se auto ilusão - através dela, não vemos as coisas tais como são.  É realmente muito difícil não termos sido enganados por nossas ilusões em algum  momento de nossas vidas.  Mas, por que isso ocorre? Há fatores psicológicos inconscientes que podem desencadear este processo.  Hammed cita alguns:

Preconceito: este é um dos fatores principais para nossos enganos e mal entendidos.  Julgamentos precipitados sempre incorrem em erro quando não se tem conhecimento profundo de uma situação ou mesmo de uma pessoa.  Em realidade, não se sabe que tipo de preconceitos cada um ainda guarda dentro de si.  Coisas simples, verdadeiras e que trazem bem estar podem ser confundidas por causa do não conhecimento ou até por causa do conceito anterior errôneo (pré-conceito) que se tem delas.

Cobiça: muitas pessoas quando cobiçam, desejam ter algo, não medem esforços, passam por cima de qualquer obstáculo ou pessoa.  Na cobiça, o que se olha é o fim em si, é o alvo, o objeto desejado e não o trajeto para alcançá-lo.  Aqui há dois fatores que obnubilam a visão: o primeiro é o objeto em si.  Será que ele é tão importante a ponto de desarmonizar o seu dia a dia? Se o objeto fosse bom, verdadeiro não deveria trazer uma calma e uma quietude íntima? O segundo fator é o meio de alcançá-lo - não se levam em consideração pessoas, circunstâncias, tempo.

Para entendermos melhor, tomemos como exemplo uma pessoa que deseja ardentemente uma coisa, por exemplo, um carro novo.  Ela vai até a loja, vê o modelo e a cor que deseja, pergunta o preço.  Se ela possui o dinheiro, ela o compra e sai da loja muito feliz.  Entretanto, na maioria das vezes, aquele que deseja ardentemente um objeto, no caso, o carro, geralmente quer comprá-lo quando não tem dinheiro - então ele junta o dinheiro e compra a posteriori, ou então o compra em parcelas/prestações, às vezes, endividando-se além da conta.  A ilusão encontra-se no aspecto prático do objeto, neste caso, o carro.  Na cobiça não se vê a realidade.  Afinal de contas, uma vez adquirido o objeto cobiçado, ocorre uma insatisfação, pois o mesmo não preenche as expectativas iniciais porque fatores ilusórios foram levados em conta antes de sua aquisição.  O carro é apenas um carro e ele deve ser encarado tal como é: um veículo de transporte que facilite a vida do ir-e-vir e que transporte coisas e pessoas; o conforto e a economia podem ser levados em consideração, mas é só isso.  Muitos fazem do carro a extensão de seu corpo e de sua vida, e cuidam dele como se fosse um filho.  Em suma, ao invés de enxergarem a realidade do objeto, acreditam numa ilusão.

Ambição: muitos, hoje em dia, afirmam que aquele que não tem ambição, não se realiza, não cresce.  Em parte, isso pode ser real, pois também dizem que aquele que não realiza seus sonhos não é feliz.  Mas, aqui cabem algumas perguntas: qual a intensidade da ambição, que tipo de desejo está por trás dela e que tipos de sonhos um indivíduo possui? Quando a ambição é desenfreada e a cobiça é avassaladora, o indivíduo não consegue manter-se sereno e a intimidade enche-se de espinhos inúteis.  Hammed, com razão, afirma que "o ganancioso não possui bens, mas é dominado por eles."  A ambição produz mais insatisfeitos por não conquistarem as coisas, do que saciados com o que possuem.

Exclusivismo: para que nos iludamos cada vez menos na vida é imperioso estudarmos muito, auto conhecermo-nos e buscarmos conhecer o mundo através de experiências práticas do cotidiano.  Então, como já foi dito em textos anteriores, abrir a mente para o novo é imprescindível.  Tentar ser exclusivista, repelindo tudo quanto é contrário à nossa opinião, é prejudicial ao crescimento pessoal.  Não estamos certos o tempo todo, o mundo não gira ao nosso redor, há outras pessoas além de nós no planeta - ser exclusivista nos isola do mundo e nos faz mergulhar nas águas da auto ilusão.

Insegurança: no geral, o indivíduo inseguro é presa fácil da auto ilusão.  Como ele possui baixa autoestima, não confia em si próprio, não se conhece, então depende da aceitação e da aprovação de outros que, muitas vezes, lhe dizem o que deve realizar e ele ilude-se sempre achando que os outros valem mais do que ele, ou até que são melhores do que ele.

Quietude Íntima: "Cada um de nós encontra resposta de acordo com o silêncio que cultivou dentro de si mesmo."  Atitudes simples como a reflexão e a meditação trazem para nosso íntimo respostas para nossas questões cotidianas.  Somente aquele que as praticam sabe do que estamos dizendo.  Outros indivíduos que ainda não as exercitam, talvez estejam vivendo suas vidas de maneira desequilibrada, confusos, angustiados.  Quando nos interiorizamos, encontramo-nos com nosso ser verdadeiro - nesse lugar, onde reina a calma, a quietude, a serenidade, existem as respostas das perguntas mais difíceis "quem sou eu, de onde eu vim e para onde eu vou." Em cada retorno dessa viagem interna, o individuo traz subsídios para enfrentar os percalços da vida, realizar suas tarefas e caminhar certeiramente em direção ao seu destino.  Nesta ida e vinda de nossa intimidade, aprendemos a discernir tudo o que nos acontece, avaliar e ponderar situações, perceber a realidade fazendo uso de nossa consciência e nosso coração.  Para dificuldades emaranhadas, a quietude íntima é o único remédio que traz alívio eficaz.

No relacionamento entre pais e filhos e/ou cônjuges pode haver momentos de auto ilusão.  Em determinadas circunstâncias, acredita-se que o outro esteja falando a  verdade, mesmo que as evidências demonstrem ser contrárias. Para abarcar o mundo lembremo-nos que o ponto de partida é o autoconhecimento - quando nos conhecemos há pouca chance de auto ilusão.

Enquanto houver ilusão, haverá incerteza, distorção da direção para a meta desejada.  Só quando houver a desilusão, por mais dura que ela pareça no momento de sua descoberta, mais estabilidade e segurança haverá no caminho a ser percorrido.

A melhor maneira para mantermo-nos vigilantes no que tange a relação ilusão/realidade é, como já foi mencionado, a prática da oração e/ou da meditação, que traz paz, harmonia interior e a consciência de saber quando agir e não agir, através da reflexão.  Quando falamos em não agir, falamos em seguir a correnteza, ao invés de ir contra ela.  Um indivíduo nada e chega muito mais rápido à margem, quando, não resistindo ao fluxo da água, permanece tranquilo, sereno e deixa-se levar pelas mãos da natureza. Não podemos controlar tudo e todos; muitas vezes, não há como resolver conflitos e dificuldades diárias racionalmente - busquemos o equilíbrio e a alegria internos para que possamos tomar as decisões necessárias que nos cabem sem lutar inutilmente contra forças ilusórias ou reais.

Hammed define não agir como observar a naturalidade e espontaneidade da vida, para tomar decisões, se utilizando da sutileza e da suavidade, ao invés da força.  Para ele, não agir não significa ociosidade, lassidão, prostração, indolência, morosidade, nem viver a vida esperando as coisas caírem do céu. A filosofia do não agir pressupõe a prática de realizar ou buscar as coisas de maneira suave, obedecendo ao movimento contínuo de algo que segue um curso natural, como foi dito, um rio, ou o crescimento de uma árvore, sem usar de ações intrusivas e bruscas.

O cultivo do nosso bem estar interno deve fazer parte de nossa vida diária, assim como o sono, a respiração e os nossos pensamentos.  Cultivando diariamente nossa intimidade, aprendemos a clarear nossas ideias e, por conseguinte, realizamos escolhas mas adequadas para nossa vida.

No corpo deste texto, foi dado o exemplo dos pais que acreditam fielmente naquilo que os filhos dizem, mesmo que os indícios indicam estarem mentindo, porque não acreditam que estes possam estar faltando com a verdade, por desejos inconscientes de terem filhos fiéis e perfeitos.  Adultos como estes pais são incapazes de ouvir a voz interior e de utilizar a percepção e o discernimento.  Então, apontam defeitos de educação nos filhos alheios, mas ignoram os defeitos dos próprios filhos.  

Hammed nos lembra que a auto ilusão não é sempre uma fraqueza moral ou uma espécie de auto desonestidade.  Muitas vezes, é como uma cegueira cognitiva - processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio; ou até, em alguns casos, de incompetência, isto é, falta de autoridade ou dos conhecimentos necessários para o julgamento de algo.

Aqueles que buscam, consciente ou inconscientemente, ilusões, sofrem muito porque quando se deparam com a realidade, censuram-se e incriminam-se anos a fio, gerando culpa que dificulta o crescimento pessoal.

Este foi um tema de difícil compreensão, mas que pode trazer muitas reflexões.

Boa semana pessoal!




  



















 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

OMISSÃO NOS RELACIONAMENTOS

Olá amigos,

A reflexão de hoje foi motivada pela terceira regra do novo livro de J.Peterson "Além da Ordem - Mais Doze Regras para a Vida": "Não esconda coisas indesejáveis na neblina", ou traduzindo para nosso português coloquial: "Não jogue sujeira para debaixo do tapete".

Essa ideia é bem conhecida - todos nós, arrisco até a dizer, sem exceção, temos alguns assuntos de que não gostamos de entrar em contato.  Entretanto, mesmo aqueles assuntos indesejáveis que evitamos podem, muitas vezes, trazer ideias sobre novas atitudes e aprendizado para situações futuras.

Peterson traz principalmente aquelas situações desconfortáveis em relacionamentos, sejam eles entre os cônjuges, parentes, amigos e até colegas de trabalho.  Pequenos incidentes que ocorrem regularmente os quais deixamos passar porque achamos desnecessário comentar, podem transformar-se em grandes monstros depois de um tempo, podendo até causar a ruptura do relacionamento.

Para melhor elucidação do tema, trarei alguns exemplos.

O primeiro exemplo é do próprio Peterson.  Sua sogra costumava preparar o almoço de seu marido - ele trabalhava como corretor de imóveis e vinha almoçar todos os dias em casa.  Ela sempre fazia uma sopa e um sanduíche.  Um dia, sem aviso prévio, ele gritou com sua esposa: "Por que sempre comemos nesses pratos pequenos? Eu detesto comer nesses pratinhos minúsculos."

Ela sempre servia o sanduíche num prato pequeno, desses de bolo, ao invés de um prato regular para comida.  Ela o servia nesses pratos pequenos há, aproximadamente, vinte anos e ele nunca falou nada.  Ela nunca imaginou que ele detestasse comer nesse tipo de prato.

Essa história pode parecer hilária e sem importância, mas num relacionamento, isso, depois de um tempo, pode se tornar um tormento, principalmente para a pessoa que se cala e de uma hora para outra, resolve "chutar o pau da barraca".

O segundo exemplo é de uma paciente de Peterson. 

Ela o procurou por conta de uma situação de trabalho.  Ela era uma contadora e estava pensando em abrir seu próprio escritório e sair de uma grande corporação na qual trabalhava.  A transação, no decorrer das sessões, ocorreu sem problemas, mas ela continuava insatisfeita.  Em realidade, o seu problema principal era o casamento.

Ela descreveu seu marido como uma pessoa extraordinariamente autocentrada e ao mesmo tempo, preocupada em como era vista pelas outras pessoas.  Apesar do narcisismo de seu marido (ao menos do ponto de vista dela), ele era escravo das opiniões de todas as pessoas que ele encontrava - exceto os membros de sua própria família. Ele também bebia muito - um hábito que exagerava suas características de temperamento.

A paciente de Jordan Peterson não mais se sentia confortável em sua própria casa. Ela não sentia que havia alguma coisa dela dentro do apartamento que ela compartilhava com o marido (eles não tinham filhos).  Toda a mobília da casa, a qual ela descreveu como ostensiva, desconfortável, tinha sido escolhida pelo marido.

Ele colecionava pinturas, quadros e objetos das décadas de sessenta e setenta (arte pop) dos quais ela não apreciava. As paredes da casa eram cheias desses itens que ele passou durante muitos anos procurando em galerias de arte, e frequentemente, ela, nessas visitas às galerias, ficava do lado de fora, esperando no carro.  

Acostumada com essa rotina, ela nem se dava conta do que realmente gostava.  Disse que gostava da casa com menos objetos, ou até disse isso por conta do excesso de coisas dele.  Como ela não sabia realmente do que gostava e até do que não gostava, era difícil expor suas opiniões.

Com certeza, ela não se sentia bem em ser uma estranha em sua própria casa.  Por esse motivo quase não recebia visitas e, embora esse parecesse um problema menor para ela, o mesmo contribuiu para que ela se sentisse isolada.

Com o tempo, a casa ficava cada vez mais lotada de coisas do marido e cada vez mais seu casamento tinha menos coisas dela mesma.  Apesar disso, ela nunca declarou guerra; nunca teve um ataque genuíno de raiva; nunca diretamente confrontou o fato que ela odiava sua casa e a sua submissão aos gostos do seu marido. Ao invés disso ela permitiu que isso continuasse acontecendo sem falar nada - ela achava que não devia discutir sobre essas coisas triviais.  Ela acreditava que, se iniciasse uma discussão, arriscava incluir todas as coisas que eram problemáticas em seu casamento.  Ela não queria isso.  Então ela permanecia calada - embora se sentisse ressentida e cronicamente reprimida.

Em realidade, os objetos de arte pop não eram simples objetos materiais.  Eles eram itens importantes de informação a respeito do casamento dela e com certeza foi visto e sentido desta maneira por ela.  Cada objeto de arte foi uma realização concreta de vitória para ele e uma derrota para ela.

Assim, após 30 anos de casamento, sem surpresa para ninguém, o casal se separou. Jordan Peterson acredita que o marido ficou com toda a mobília e os objetos de arte.

Aqui, Peterson dá um pequeno conselho - cada discordância trivial ou crônica sobre comida, pratos, faxina, responsabilidade pelas finanças, etc. será cada vez mais aumentada, até você ou vocês como casal, discutirem a situação.  Talvez, você pense que é melhor evitar o confronto e continuar "flutuando" em aparente, mas falsa paz.  Não se iluda: a cada dia que passa, o que te incomoda começa a incomodar absurdamente e chega o dia da explosão.  Entretanto, se sempre há diálogo e cada um pode dizer o que gosta, o que não gosta, o que incomoda, o outro pode até mudar ou adaptar seu comportamento e pode ter a oportunidade de ser alertado sobre o que incomodava o outro - talvez ele nem percebesse.  Essa é uma boa maneira de trazer harmonia para um casamento, ou outro tipo de relacionamento.

Não finja que você é feliz numa situação a qual você não é.  Há sempre uma solução razoável que, em princípio, pode ser negociada.  E se não puder ser negociada, discuta sobe ela - coloque seu ponto de vista e ouça o ponto de vista do outro.  Não acredite que as coisas são triviais, mesmo que sejam os pratos do almoço ou os móveis da casa. A vida se repete no cotidiano e seria bom que as repetições do dia a dia fossem harmônicas.

Nesses exemplos podemos notar o "pecado" da omissão num relacionamento - se omito o que penso, o outro não tem como avaliar se estou ou não gostando da vida de relação que levo com ele.  Acredito que, regulamente, deveríamos conversar sobre o que gostamos ou não gostamos ou o que nos move para frente.  O outro não é adivinho.  Uma boa conversa faz parte de um relacionamento saudável - essa, nos auxilia a caminharmos todos numa mesma direção em crescimento pessoal contínuo.

E você? Tem alguma história de omissão para compartilhar?

Boa semana!

 

 

 


 

"EU TENHO UM SONHO..."

Olá leitores, Os meus sonhos não são tão grandiosos quanto o sonho de Martin Luther King em seu discurso. Os meus sonhos são voltados ao meu...