Caros amigos leitores,
Hoje trago mais uma regra de Jordan Peterson. Ele sempre traz exemplos da mitologia universal e o de hoje é baseado na história egípcia de Osíris, Set, Isis e Hórus. Muitas das coisas me foram esclarecidas dessa história embora algumas características eu já conhecia. Vamos à história.
"Osíris era o deus do Egito - ele era adorado como o herói que estabeleceu a cultura, a civilização que vivia às margens do rio Nilo. Quando jovem, esse deus produziu uma das primeiras grandes e duráveis civilizações do globo. Mas ele envelheceu, assim como tudo na vida e tornou-se deliberadamente "cego" às coisas de seu povo - ele começou a fechar seus olhos quando ele deveria mantê-los abertos. Osíris parou de prestar atenção em como seu reino era governado. Essa foi uma cegueira intencional a qual não se pode por a culpa na idade.
A decisão de Osíris de fechar seus olhos teve um alto preço: a subjugação de seu maléfico irmão, Set. A ideia do Estado em ter um irmão malevolente era um postulado do mundo egípcio (eu diria em qualquer cultura...). Uma vez que a hierarquia é estabelecida, abre-se uma oportunidade para que as posições de autoridade sejam usurpadas, não por aquelas pessoas que têm a competência necessária para a tarefa ou o cargo, mas por aqueles que usam a manipulação, a fraude e a compulsão para ganhar status e controle. Eram todas essas forças contraproducentes que os egípcios tentavam conceituar na figura de Set, o inimigo da iluminação, do esclarecimento, da visão e da consciência. Uma das maiores ambições de Set era governar o Egito, ficar no lugar do legítimo Faraó. Por se fazer cego para as maléficas maquinações de seu irmão - por recusar-se a ver - Osíris permitiu que Set ganhasse força. Isso foi fatal. Set aguardou a hora adequada e surpreendeu Osíris num momento de fraqueza. Então Set desmembrou Osíris e espalhou os seus pedaços pelo território egípcio. Não foi (e não é) possível assassinar Osíris, o eterno impulso em direção à organização social. Essa é uma força que não morrerá. Mas é possível quebrá-la em várias partes - para que seja difícil agir como um todo - e isso era exatamente o que Set queria.
Osíris, deus da ordem, se desmantelou. Isso ocorre todo o tempo na vida dos indivíduos, e igualmente na história das famílias, cidades e Estados. As coisas se desmantelam quando casos de amor se rompem, carreiras se deterioram ou sonhos acalentados morrem; quando o desespero, a ansiedade, a incerteza e a desesperança se manifestam no lugar da ordem. Sob tais circunstâncias, o caos emerge. E é por isso que a deusa Isis, rainha do submundo e esposa de Osíris, faz sua aparição quando Osíris é destruído por Set. Isis vasculha o país em busca da essência vital de Osíris. Ela a encontra na forma de seu falo desmembrado - o princípio frutificante - e se faz grávida dele. O que isso quer dizer? A rainha do submundo, a rainha do caos, também é a força dos eternos recomeços. Assim, quando a parte central de um sistema não se sustenta, uma nova possibilidade se manifesta.
Então Isis, agora grávida, retorna para o submundo e dá à luz, na hora devida, a Hórus, filho legítimo do rei perdido - e, pouco a pouco ele vai amadurecendo (algo que todos nós experimentamos durante nosso amadurecimento). Seu atributo primário é o olho - o famoso olho egípcio - "o olho que tudo vê" - enquanto seu avatar é o falcão, o pássaro que mira com toda a precisão para capturar sua presa pois possui uma acuidade na visão sem paralelos com o reino das criaturas viventes. Hórus aliado com sua habilidade de ver, usa a sua vontade para tal.
Essa é a verdadeira coragem: a recusa em encolher-se perante as situações que aparecem, não se importando se elas se apresentam terríveis. Hórus é o grande deus da atenção, e os egípcios determinaram, em sua estranha maneira de narrar a história - numa forma de pensamento imaginativo que se estendeu por milhares de anos - que a faculdade da atenção deveria se sobrepor a todas as outras.
Hórus diferia de Osíris, seu pai, em sua prontidão de ver. Ele vê seu tio Set, por exemplo, precisamente pelo que ele é. Set é a pura malevolência; o mal em si mesmo. Não obstante, próximo de sua maturidade, Hórus retorna ao reino usurpado de seu pai e confronta seu tio. Eles entram numa batalha épica. Durante esse confronto, Set tira um dos olhos do sobrinho corajoso. Apesar do dano, Hórus sai vitorioso. É importante ressaltar que ele entrou na batalha voluntariamente. Essa é uma das máximas da intervenção clínica de muitas teorias do pensamento psicológico - o confronto voluntário com a coisa temida, a coisa odiada ou o obstáculo menosprezado é curativo. Nós nos tornamos mais fortes quando enfrentamos voluntariamente o que impede o nosso progresso. Isso não quer dizer que devamos entrar "de cabeça" em qualquer desafio, ou "carregar uma cruz maior que aquela que possamos carregar".
Busque a responsabilidade desta maneira: restrinja o mal; reduza o sofrimento; confronte a possibilidade que se manifesta à sua frente a cada segundo de sua vida com o desejo de fazer as coisas da melhor maneira, sem levar em conta o fardo que você carrega, e também sem se importar com a aparente crueldade e injustiça da vida.
Para finalizar a história, Hórus pega de volta o seu olho de Set derrotado e bane Set do reino. Ele não mata Set. Ele é eterno assim como Osíris, eterno como Isis e Hórus. O mal que ameaça as experiências da vida é aquele que devemos sempre conviver psicologicamente e socialmente. Em alguns momentos ele pode ser superado, banido e derrotado. Então a paz e a harmonia prevalecem pelo tempo até que não nos esqueçamos do porque ele veio à tona.
Bem, Hórus recupera seu olho. Depois ele retorna ao submundo para buscar o espírito de Osíris - desmembrado, quase morto, num certo sentido - que habita o domínio caótico do submundo. Hórus o encontra e lhe dá o olho que lhe foi retirado por Set. Hórus acolhe seu pai, com a visão restaurada e retorna com ele para o reino, assim eles podem governar juntos. Os egípcios insistiram que a combinação da visão, da coragem e da tradição regenerada constituem a legítima soberania do reino. Era esta justaposição de sabedoria e juventude que compõem a essência do poder do Faraó, sua alma imortal, a fonte de sua autoridade."
A interpretação dessa história da mitologia do Egito pode conter muitas ideias. Cada pessoa que entrar em contato com ela tenderá a ter uma visão de acordo com sua personalidade, sua vivência e até seu momento na vida. Entre outras coisas, outros exemplos, Peterson quis nos mostrar que enfrentamos muitos desafios em nossa vida social, seja no trabalho, em família, num ambiente público. A ideia é estarmos sempre muito atentos, com olhos abertos para as oportunidades que surgem para darmos o nosso melhor. A cada dia, a cada momento podemos e devemos ser melhores em nossas empreitadas. Às vezes, temos que enfrentar Set e, mesmo que ele nos tire um olho e, aparentemente nos encontrar momentaneamente sem direção, busquemos derrotá-lo, recuperar nosso olho, voltar para nosso interior e realinhar nossas partes outrora despedaçadas e assim voltar ao mundo consciente para continuar reinando até que a próxima batalha surja. A maturidade espiritual é conquistada desta maneira e, uma vez de posse dela, a vida se faz mais leve.
E, termino com uma frase de Peterson: "A fundamental questão do homem não é quem ele é, mas quem ele pode ser."
Boa semana!