quinta-feira, 26 de agosto de 2021

0 OLHO DE HÓRUS

Caros amigos leitores,

Hoje trago mais uma regra de Jordan Peterson.  Ele sempre traz exemplos da mitologia universal e o de hoje é baseado na história egípcia de Osíris, Set, Isis e Hórus.  Muitas das coisas me foram esclarecidas dessa história embora algumas características eu já conhecia.  Vamos à história.

"Osíris era o deus do Egito - ele era adorado como o herói que estabeleceu a cultura, a civilização que vivia às margens do rio Nilo.  Quando jovem, esse deus produziu uma das primeiras grandes e duráveis civilizações do globo.  Mas ele envelheceu, assim como tudo na vida e tornou-se deliberadamente "cego" às coisas de seu povo - ele começou a fechar seus olhos quando ele deveria mantê-los abertos.  Osíris parou de prestar atenção em como seu reino era governado.  Essa foi uma cegueira intencional a qual não se pode por a culpa na idade.  

A decisão de Osíris de fechar seus olhos teve um alto preço: a subjugação de seu maléfico irmão, Set.  A ideia do Estado em ter um irmão malevolente era um postulado do mundo egípcio (eu diria em qualquer cultura...). Uma vez que a hierarquia é estabelecida, abre-se uma oportunidade para que as posições de autoridade sejam usurpadas, não por aquelas pessoas que têm a competência necessária para a tarefa ou o cargo, mas por aqueles que usam a manipulação, a fraude e a compulsão para ganhar status e controle.  Eram todas essas forças contraproducentes que os egípcios tentavam conceituar na figura de Set, o inimigo da iluminação, do esclarecimento, da visão e da consciência.  Uma das maiores ambições de Set era governar o Egito, ficar no lugar do legítimo Faraó.  Por se fazer cego para as maléficas maquinações de seu irmão - por recusar-se a ver - Osíris permitiu que Set ganhasse força.  Isso foi fatal.  Set aguardou a hora adequada e surpreendeu Osíris num momento de fraqueza.  Então Set desmembrou Osíris e espalhou os seus pedaços pelo território egípcio.  Não foi (e não é) possível assassinar Osíris, o eterno impulso em direção à organização social.  Essa é uma força que não morrerá.  Mas é possível quebrá-la em várias partes - para que seja difícil agir como um todo - e isso era exatamente o que Set queria.

Osíris, deus da ordem, se desmantelou.  Isso ocorre todo o tempo na vida dos indivíduos, e igualmente na história das famílias, cidades e Estados.  As coisas se desmantelam quando casos de amor se rompem, carreiras se deterioram ou sonhos acalentados morrem;  quando o desespero, a ansiedade, a incerteza e a desesperança se manifestam no lugar da ordem.  Sob tais circunstâncias, o caos emerge.  E é por isso que a deusa Isis, rainha do submundo e esposa de Osíris, faz sua aparição quando Osíris é destruído por Set.  Isis vasculha o país em busca da essência vital de Osíris.  Ela a encontra na forma de seu falo desmembrado - o princípio frutificante - e se faz grávida dele.  O que isso quer dizer? A rainha do submundo, a rainha do caos, também é a força dos eternos recomeços.  Assim, quando a parte central de um sistema não se sustenta, uma nova possibilidade se manifesta.

Então Isis, agora grávida, retorna para o submundo e dá à luz, na hora devida, a Hórus, filho legítimo do rei perdido - e, pouco a pouco ele vai amadurecendo (algo que todos nós experimentamos durante nosso amadurecimento).  Seu atributo primário é o olho - o famoso olho egípcio - "o olho que tudo vê" - enquanto seu avatar é o falcão, o pássaro que mira com toda a precisão para capturar sua presa pois possui uma acuidade na visão sem paralelos com o reino das criaturas viventes. Hórus aliado com sua habilidade de ver, usa a sua vontade para tal.

Essa é a verdadeira coragem: a recusa em encolher-se perante as situações que aparecem, não se importando se elas se apresentam terríveis.  Hórus é o grande deus da atenção, e os egípcios determinaram, em sua estranha maneira de narrar a história - numa forma de pensamento imaginativo que se estendeu por milhares de anos - que a faculdade da atenção deveria se sobrepor a todas as outras.

Hórus diferia de Osíris, seu pai, em sua prontidão de ver. Ele vê seu tio Set, por exemplo, precisamente pelo que ele é.  Set é a pura malevolência; o mal em si mesmo.  Não obstante, próximo de sua maturidade, Hórus retorna ao reino usurpado de seu pai e confronta seu tio.  Eles entram numa batalha épica.  Durante esse confronto, Set tira um dos olhos do sobrinho corajoso.  Apesar do dano, Hórus sai vitorioso. É importante ressaltar que ele entrou na batalha voluntariamente.  Essa é uma das máximas da intervenção clínica de muitas teorias do pensamento psicológico - o confronto voluntário com a coisa temida, a coisa odiada ou o obstáculo menosprezado é curativo.  Nós nos tornamos mais fortes quando enfrentamos voluntariamente o que impede o nosso progresso.  Isso não quer dizer que devamos entrar "de cabeça" em qualquer desafio, ou "carregar uma cruz maior que aquela que possamos carregar".  

Busque a responsabilidade desta maneira: restrinja o mal; reduza o sofrimento; confronte a possibilidade que se manifesta à sua frente a cada segundo de sua vida com o desejo de fazer as coisas da melhor maneira, sem levar em conta o fardo que você carrega, e também sem se importar com a aparente crueldade e injustiça da vida.

Para finalizar a história, Hórus pega de volta o seu olho de Set derrotado e bane Set do reino.  Ele não mata Set.  Ele é eterno assim como Osíris, eterno como Isis e Hórus.  O mal que ameaça as experiências da vida é aquele que devemos sempre conviver psicologicamente e socialmente.  Em alguns momentos ele pode ser superado, banido e derrotado.  Então a paz e a harmonia prevalecem pelo tempo até que não nos esqueçamos do porque ele veio à tona. 

Bem, Hórus recupera seu olho.  Depois ele retorna ao submundo para buscar o espírito de Osíris - desmembrado, quase morto, num certo sentido - que habita o domínio caótico do submundo.  Hórus o encontra e lhe dá o olho que lhe foi retirado por Set.  Hórus acolhe seu pai, com a visão restaurada e retorna com ele para o reino, assim eles podem governar juntos.  Os egípcios insistiram que a combinação da visão, da coragem e da tradição regenerada constituem a legítima soberania do reino.  Era esta justaposição de sabedoria e juventude que compõem a essência do poder do Faraó, sua alma imortal, a fonte de sua autoridade."

A interpretação dessa história da mitologia do Egito pode conter muitas ideias.  Cada pessoa que entrar em contato com ela tenderá a ter uma visão de acordo com sua personalidade, sua vivência e até seu momento na vida.  Entre outras coisas, outros exemplos, Peterson quis nos mostrar que enfrentamos muitos desafios em nossa vida social, seja no trabalho, em família, num ambiente público.  A ideia é estarmos sempre muito atentos, com olhos abertos para as oportunidades que surgem para darmos o nosso melhor.  A cada dia, a cada momento podemos e devemos ser melhores em nossas empreitadas.  Às vezes, temos que enfrentar Set e, mesmo que ele nos tire um olho e, aparentemente nos encontrar momentaneamente sem direção, busquemos derrotá-lo, recuperar nosso olho, voltar para nosso interior e realinhar nossas partes outrora despedaçadas e assim voltar ao mundo consciente para continuar reinando até que a próxima  batalha surja.  A maturidade espiritual é conquistada desta maneira e, uma vez de posse dela, a vida se faz mais leve.

E, termino com uma frase de Peterson: "A fundamental questão do homem não é quem ele é, mas quem ele pode ser."

Boa semana!





2 comentários:

  1. Texto apropriado de como lido comigo e os que me cercam nesta pandemia. Também a fase conturbada que atravessa nosso país.🇧🇷

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    1. Não foi proposital, mas foi providencial. A cada semana tenho sido inspirada a escrever um texto que ajuda muitos a refletirem não só sobre suas vidas mas tbm sobre a situação do país e até do planeta. O mês que vem o blog completa um ano...

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