Olá leitores,
Em nossa vida, nosso conteúdo interno se construiu, num primeiro momento, através de noções e conceitos ditados por nosso pais, parentes, professores e todas as pessoas que se relacionaram conosco na infância. Entrementes, este conteúdo continua sendo transformado dia a dia, conforme vamos estudando, vivendo a vida e assim cambiamos defeitos em virtudes para sermos mais felizes, atraindo para nós uma paz de espírito.
Durante toda a nossa vida de relação internalizamos histórias, críticas, tradições, aplausos, experiências, hábitos e costumes que constituem nosso caráter. Também incorporamos sentimentos de honestidade, flexibilidade, independência, afetividade, assim como sentimentos de medo, de culpa, de condenação, de insegurança, em primeiro lugar com nossos familiares, depois com os professores, dirigentes religiosos, políticos, filantrópicos, ou seja, com todos aqueles que em nossa vida detiveram destaque ou certa autoridade.
Toda nossa personalidade está baseada em como apreendemos e trabalhamos tudo o que nos vêm de fora e nos influencia. Quanto mais inconscientes, mais dificuldade de compreender e interagir com o meio. E, ao contrário, obviamente, se sei quem eu sou, se conheço razoavelmente meus defeitos e qualidades, ou seja, se sou consciente, minha interação com o meio externo se dá de maneira mais eficiente, harmônica e pacífica. Naturalmente, também neste quesito preciso usar de minha boa vontade para realizar esta interação.
Durante nossa fase de aprendizagem, podemos ter vivido como pessoas excessivamente injustas, preconceituosas, rígidas e inflexíveis as quais nos levaram a reprimir ou até desprezar nossos impulsos, vocações, tendências e inclinações, e, por vezes, julgando nossos sentimentos como ilógicos ou irracionais, podemos ter nos tornado prisioneiros de grande sentimento de "inadequação íntima". Neste caso, podemos, como maneira de compensar nossa sensação de fraqueza interior ou baixa estima - desenvolver o papel de defensor da justiça e da verdade absolutas, escondendo desse modo, nosso desajuste íntimo, aparentando segurança, determinação e força, liderando outros com muito rigor e repreensão.
Ao longo do tempo, por causa deste sentimento de incompetência, aqueles que tiveram esses modelos no decorrer do aprendizado, se autodenominam "donos da verdade". Auto enganam-se e fixam-se na única ideia de como as coisas deveriam ser. Esses indivíduos chamam isso de boa fé ou até de idealismo, mas , em verdade querem somente compensar sua fragilidade ou instabilidade pessoal.
Cuidemos para que não nos recusemos a aceitar a vulnerabilidade e a incerteza como parte de nós. Talvez não tenhamos conseguido lidar com as repreensões e condenações assimiladas em outros momentos e possamos estar encobrindo nossa autoconsciência com uma postura de prudência exagerada, severidade e intolerância sem medidas. Não tenhamos medo de errar. Muitos dos nossos acertos de hoje foram aprendidos através de nossos erros de ontem. Aprendemos muito com os erros dos outros, entretanto quando nós erramos nosso aprendizado se solidifica, simplesmente porque ainda muitos de nós temos dificuldade de nos colocarmos no lugar do outro. Quando erramos é porque não sabemos como fazer melhor. Ninguém, de propósito, quer ser infeliz; por isso, ninguém escolhe o pior.
O texto de hoje é sobre a tolerância versus intolerância, mas reflitamos também um pouco sobre a paciência, a flexibilidade-rigidez, a humildade-orgulho, o complexo de superioridade e o autoritarismo para chegarmos na compaixão.
A intolerância anda de mãos dadas com a rigidez, o orgulho, o complexo de superioridade e o autoritarismo. O intolerante perde muito no aprendizado que a vida oferece porque ele acha que conhece todas as regras do mundo e acha que todas as pessoas devem obedecê-las - ele não vê que nem todas as pessoas enxergam o mundo como ele. Ele perde também oportunidade de abarcar ideias novas e com elas novos caminhos que podem levar ao bem estar. "Atrás de todo excesso ou rigidez se encontra a não aceitação da naturalidade da vida, fora e dentro de nós mesmos." (Hammed).
Nossa saúde mental e psicológica se deve à nossa adaptação ao meio externo - nossa bagagem interior deve se adequar às coisas que nos acontecem no dia a dia - quanto maior nossa capacidade de adequação maior nossa evolução e menor nosso sofrimento. Por isso, abandonar a rigidez mental é fator primordial para o crescimento interior. Nesse quesito vale lembrar que a ideia aqui não é comprar/aceitar as ideias dos outros como se fossem suas. Cada um de nós deve manter seus valores desde que eles tragam bem estar a nós e ao nosso entorno.
Pessoas com atitudes exageradas significam o contrário do que parece. Por exemplo, o autoritário é uma pessoa que se sente rebaixada, sem autoridade própria, com problemas de baixa estima (aí podemos incluir os invejosos, os que têm complexo de superioridade, enfim, os orgulhosos).
Ser flexível não é não ter personalidade própria ou ser considerado "volúvel"; é apenas ser mais acessível à compreensão das coisas e pessoas.
Praticamente todas as nossas imperfeições têm como base o orgulho, e a intolerância não deixa de ser uma das faces do mesmo - quando somos intolerantes para as atitudes dos outros é porque queremos controlar suas vidas, ditando regras de como eles deveriam viver e esta compulsão de querer controlar a vida alheia é fruto de nosso orgulho. Se deixarmos os outros pensarem por nós e determinarem o que devemos escolher, teremos muita dificuldade em amadurecer. Então não façamos aos outros o que não quereríamos que eles fizessem conosco. Simples, não?
Para iniciarmos nossa guerra contra nosso orgulho, temos que vencer pequenas batalhas contra a intolerância, a rigidez, o autoritarismo, entre outros. Cada um de nós necessita saber quais são suas imperfeições mais graves - aquelas que nos impedem o crescimento mais contínuo - para então travar uma luta contra elas. E, para lutar contra imperfeições, é mais fácil tentar conquistar virtudes. No caso em questão, conquistemos a paciência, a humildade e a compaixão.
A humildade está relacionada com a gentileza, a lucidez, a simplicidade, a graciosidade e a distinção; tem a ver com a forma de comportamento íntimo e não com a ausência ou presença de bens materiais, como se acredita erroneamente.
Assim, ter compaixão é ter uma compreensão maior das fragilidades do ser humano - é nos tornarmos mais realistas, menos exigentes e mais flexíveis com as dificuldades dos outros. Quanto mais compaixão tivermos pelos outros, mais nossa visão de mundo se alargará.
A conquista da paciência, da humildade e da compaixão nos auxilia a lidarmos com a intolerância, a inflexibilidade, o autoritarismo e o medo de errar.
E, finalmente, a compaixão é:
- Admitir que os outros pensem, ajam, sintam diferentemente de nós;
- Compreender essas pessoas com respeito e bondade;
- Admitir e perdoar as faltas dos outros;
- Nunca esquecer que o desenvolvimento de qualquer pessoa ocorre a partir do potencial interno dela.
A evolução acarreta em nós uma alquimia espiritual, pois é das cinzas da intolerância que irá nascer a fênix da compaixão, trazendo para nós o entendimento de que ela, a evolução, sempre acontece. Há de se ter paciência e confiança na Vida Providencial.
Boa reflexão e mais que tudo, força de vontade para mudar o que precisa ser mudado em sua vida.
Até!