Olá leitores,
O livro deste mês de nosso Clube de Leitura foi "O Livreiro de Cabul" escrito em 2002 pela jornalista norueguesa Asne Seierstad.
Para escrever sobre a família Khan e o livreiro de Cabul, Sultan Kahn, a autora foi morar na casa dele após a queda do Talibã em 2001, dois meses após o advento da destruição das duas torres gêmeas em Nova York - EUA em 11.09.2001. Ela pediu licença ao livreiro para poder escrever o livro. Com seu relato pudemos conhecer um pouco sobre a vida doméstica de uma família afegã e de quebra como funcionava (acredito que ainda funciona assim, pois parece que depois que os Estados Unidos saíram de lá, o Talibã voltou...) a realidade do Afeganistão nesse período.
O livro/o relato parece de um lugar surreal; quase inacreditável que uma cultura, uma sociedade viva dessa maneira e onde praticamente não se enxerga uma luz no fim do túnel, ou seja, é impossível a evolução numa sociedade dessa.
Não somente o uso da burca para as mulheres, mas outras rotinas nos deixaram estupefatas, como por exemplo, comer com as mãos, no chão, sobre um tapete. Ficamos imaginando a sujeira desse tapete, embora usassem pratos, a falta de higiene. Como é possível no século XXI ainda existirem pessoas que comem como animais (aliás alguns animais são mais limpos que muitos humanos...) Sem contar que o corpo, a coluna, as pernas devem sofrer nessa posição para se alimentar.
Bem, o livro, obviamente também fala dos livros que o Talibã queimou em 1999, os livros do livreiro. O regime do Talibã chegou ao poder no Afeganistão em 1996.
Há um capítulo na obra chamado "O Paraíso Negado" onde estão listados os 16 decretos do Talibã quando de sua subida ao poder, transmitidos pela rádio Sharia. Apenas os listarei, sem comentá-los:
1. Proibido às mulheres andarem descobertas; 2. Proibição contra a música; 3. É proibido barbear-se; 4. Oração obrigatória; 5. Proibido criar pombos e promover rinhas de aves; 6. Erradicação das drogas e de seus usuários; 7. Proibido soltar pipas; 8. Proibido reproduzir imagens; 9. Proibidos os jogos de azar; 10. Proibido usar cortes de cabelo no estilo americano ou inglês; 11. Proibidos os empréstimos a juros, taxa de câmbio e de transações; 12. Proibido lavar roupa à margem dos rios; 13. Música e dança são proibidas em festas de casamento; 14. Proibido tocar tambor; 15. Proibido a alfaiates costurar roupas femininas, ou tirar medidas das mulheres; 16. Proibida a prática da bruxaria.
Entretanto no decorrer da leitura, descobrimos outros "decretos": É proibido se apaixonar - punível com a morte (para as mulheres principalmente, como de costume - parece que a mulher só serve para parir - desde que seja filho homem, cozinhar, "limpar" a casa). Elas cantam sobre o amor (canto suicida) às escondidas. Aliás, as mulheres são maltratadas por delitos simples.
Outros detalhes surreais: na casa de Sultan Kahn não há armários, só caixas e cada pessoa tem a sua caixa com suas roupas e seus objetos pessoais; não há água encanada - tudo foi destruído por mísseis na guerra.
Ao final, a escritora sai da casa deles por causa das brigas e das desuniões familiares.
O livro trouxe muitas informações grotescas, parecem irreais, sobre a vida sob o regime do Talibã, entretanto gostei de ter lido. Nem todo planeta vive da mesma maneira e essa cultura do Poder, da bota sobre a cabeça de outro ser humano, é simplesmente a maldade em toda sua manifestação. Embora também vivamos atualmente sob um regime de exceções, ainda conseguimos respirar e visualizar uma tênue luz no fim do túnel.
Eu recomendo a leitura para aqueles que acham que a grama do vizinho é mais verde - muitas vezes ela não é.
Boa reflexão!
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