Caros leitores amigos,
Neste setembro, o livro de nosso Clube de Leitura foi uma obra escrita em 1937 de George Orwell (mesmo autor de "1984"), "O Caminho para Wigan Pier". Este livro me foi indicado há muitos anos atrás por Jordan B. Peterson, psicólogo canadense, o qual tenho admiração e respeito. Porém de início, foi difícil de entender o porquê ele tivesse colocado em sua lista de sugestões de leitura, este livro. Ao quase término da leitura ainda não tinha ficado muito claro para mim a sua sugestão. Então, relendo os três últimos capítulos, creio ter ficado mais claro.
Todo psicólogo anseia, em regra, que seus pacientes, ou até a sociedade como um todo, se for psicólogo social, acordem para a realidade de suas vidas, como individualidades dentro de um contexto planetário. Pelo menos era uma das minhas utopias em atendimento terapêutico. Eu coloco o verbo no passado, pois era um desejo, uma meta muito grandiosa e de difícil alcance.
O livro nos dá muitas ideias excelentes para nossa reflexão como seres sociais e ouso dizer, seres planetários. Obviamente vivemos dentro de um contexto social e nos diz o bom senso que devemos seguir certas regras para uma convivência pacífica e salutar.
Uma das características que me chamou a atenção no livro foi que a sociedade inglesa de 1936 vivia uma convivência pacífica, entretanto longe de ser considerada salutar, não apenas como um ajuntamento de pessoas, as quais podemos chamar de povo, como também como individualidades.
Orwell traz um retrato da época em que era jornalista numa Inglaterra mergulhada numa industrialização brutal ( "a Revolução Industrial iniciou-se na Inglaterra no século XVIII, no final desse século, para ser mais preciso com a transição para novos processos de produção e o desenvolvimento da máquina à vapor" Wikipédia).
Ele, de início, no livro traz sua experiência vivendo numa pensão, enquanto fazia uma reportagem sobre a cidade e o povo de lá. O local é ruim, com pouca higiene, a qual é descrita em detalhes por ele. Ao ler esse capítulo não dá vontade de continuar lendo.
Depois ele vai viver a experiência dos mineiros de carvão, onde descreve a vida sub-humana deles. Ao ler esses relatos sobre a vida dentro da minas, não imaginei que a vida deles fosse tão miserável ("Os Miseráveis" de Victor Hugo são "piadas" perto da experiência desses mineiros).
Durante o transcorrer da leitura, Orwell não só descreve o que vê e experiencia, como também dá sua opinião - ele critica abertamente o sistema industrial e o capitalismo que o leitor, pelo menos eu, tem a impressão de que ele é um comunista. Todavia, nos últimos três ou quatro capítulos você compreende, pelo menos eu compreendi, que o sistema de governo que ele acha ideal não existe, ainda, em nosso planeta.
Num dado momento no livro, ele nos conta que o governo estava para construir um pier/porto em Wigan, entretanto esse nunca foi construído - daí o título da obra ser "o caminho para Wigan Pier" - o caminho para um local inexistente.
Em realidade, Orwell é a favor do socialismo, mas não o socialismo de esquerda, aquele que se "disfarça" de comunismo. O socialismo que ele prega, como já mencionei anteriormente, não existe, na minha opinião, em nenhuma sociedade do planeta. Ele afirma: "Temos que lutar pela justiça e pela liberdade, e o socialismo realmente significa justiça e liberdade, quando se retira dele os absurdos.". Em outro trecho ele diz: "A tarefa do indivíduo pensante, portanto, não é rejeitar o socialismo, e sim tomar a decisão de humanizá-lo."
Eu entendo que o mundo foi "contaminado" pela ideia de um socialismo/comunismo/marxismo onde tolhe-se a liberdade dos indivíduos de poderem ser o que quiserem e onde o povo precisa ser e caminhar uniformemente, e onde todos devem pensar da mesma maneira. A idéia de Orwell é justiça e liberdade e por isso eu concluí que o sistema de governo que ele prega não existe e que ele usa a palavra socialismo por não ter encontrado outra melhor. Há que ler a obra para compreendê-la em sua íntegra. Não é um livro de ficção como o foram seus dois livros mais conhecidos "1984" e "A Revolução dos Bichos" - este é um livro onde ele conta algumas de suas experiências e suas opiniões sobre a sociedade da época. Apesar de ser um livro da primeira metade do século XX, arrisco dizer que é atualíssimo. Eu sugiro sua leitura.
Como reflexão final deixo uma afirmação dele no último capítulo que demonstra sua atualidade: "A civilização da máquina está aqui. E só pode ser criticada internamente, pois todos nós estamos dentro dela." Lembrou da Matrix?
Boa reflexão e boa semana!
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