terça-feira, 22 de março de 2022

"O PEQUENO PRÍNCIPE"

Caros amigos leitores,

Este ano, em meu consultório resolvi começar um Clube de Leitura.  Em recentes pesquisas científicas e baseado no livro de Maryanne Wolf "O Cérebro no Mundo Digital", descobriu-se a respeito da importância da leitura para a evolução mental e criativa do ser humano.  Em seu livro, essa neurocientista americana versa exatamente sobre essa descoberta - do poder da leitura profunda e de textos desafiadores.  Para ela, "a leitura profunda, contínua, é vital para desenvolver novamente a atenção, perdida através dos dispositivos digitais, e manter o pensamento crítico e a empatia por outras pessoas."

Assim já tivemos a primeira reunião sobre o livro do mês de março, o primeiro da lista - "O Pequeno Príncipe" - resolvi então trazer a vocês algumas ideias sobre o mesmo discutidas na ocasião.

"O Pequeno Príncipe" de Antoine de Saint-Exupéry foi escrito em 1940 e devolve a cada leitor o mistério da infância.  Aqueles que já o leram sabem o valor da história - ela é cheia de frases bem colocadas e nos faz pensar em nossa criança interior.  Difícil catalogá-lo: Livro infantil? Aventura? Ficção científica? Fantasia?  Na ficha do livro está catalogado como Fábula/Ficção Francesa.

O autor conta que queria ter se tornado pintor (as aquarelas no livro são de sua autoria), mas ao invés disso tornou-se aviador.  Fiquei a imaginar se ele teria deixado de sonhar... Entretanto, quando voava podia vislumbrar terras e mares distantes, outras culturas...

O personagem do aviador na história (provavelmente o próprio autor do livro) acaba pousando num deserto por conta de uma falha no motor do avião e nesse local encontra o pequeno príncipe com quem tem grandes diálogos.

Impossível não se enternecer com o pequeno príncipe perdido no deserto vindo de uma estrela distante.  Como toda criança é cheio de perguntas.

O deserto nos reporta ao inconsciente onde podemos ter uma "conversa" com nossa criança interior - é um local de meditação - recordemo-nos de Jesus...  

O carneiro fala da inocência - essa característica tão importante e tão pura que a grande maioria das crianças possui.

O príncipe "possui" uma flor e cuida dela com todo o zelo - ao se despedir dela entristece-se e no decorrer da história sempre pensa nela e  em como ela estaria se sentindo - sozinha talvez...Na discussão do grupo concluímos que a flor seria nossa alma - única, bonita, especial - tem perfume e cor, mas também tem espinhos - é preciso cuidar dela com carinho e zelo.

O livro é repleto de símbolos e talvez seja esse um dos motivos por ter sido tão lido no mundo todo.  Cada um de nós o percebe de uma maneira diferente, porém todos que o leem acabam se emocionando e realmente indo de encontro à vida espiritual.

Nas viagens pelos diversos planetas/asteroides que o pequeno príncipe realiza, o autor nos remete a vários símbolos e reflexões.

No primeiro planeta/asteroide ele encontrou um rei que menciona duas frases de impacto da história: "É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar"; "É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros".

O segundo planeta era habitado por um vaidoso.  A conclusão do príncipe após encontrá-lo: "Os vaidosos só ouvem os elogios."

No terceiro planeta encontra um bêbado que bebia porque queria esquecer que tinha vergonha de beber.

O quarto planeta era habitado por um empresário que possuía as estrelas e passava o dia a contá-las.

O quinto planeta era ocupado por um acendedor de lampiões - de acordo com o príncipe/o autor da história, o acendedor de lampiões era o único que não se ocupava de outra coisa que não fosse ele próprio - mas ele iluminava o caminho para os outros.

O sexto planeta era habitado pelo geógrafo - este deixou o príncipe pensativo e triste pois ele disse que as flores são efêmeras e não são anotadas num livro de geografia - então ele se recordou de sua flor. Ficou triste também por se dar conta de que possuía em seu asteroide apenas uma flor e três vulcões (e quem de nós não tem ternura, mas também não tem explosões de raiva de vez em quando...)

O sétimo planeta foi a Terra onde ele andou por muitos países; encontrou uma cobra no deserto que lhe disse uma frase intrigante: "Aquele que eu toco, eu o devolvo à terra de onde veio - mas tu és puro e vens de uma estrela..." Foi nesse deserto que ele encontrou o aviador.

Na minha opinião, a parte que é mais significativa é o seu encontro com a raposa - ele entende o poder de cativar e ser cativado por alguém e também a importância da criação de laços.  É nessa parte do livro que existem as frases mais usadas no mundo e são aquelas que nos trazem mais reflexões.  São elas:

"A gente só conhece bem as coisas que cativou."

"Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz."

"Só se vê bem com o coração.  O essencial é invisível aos olhos."

"Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas."

Ao final, o autor finalmente se reconcilia com o seu eu interior/sua criança interior e cresce, amadurece - e o Pequeno Príncipe volta em espírito, para sua estrela após o encontro fatal com a cobra.

A cada mês discutiremos um livro no clube - aqueles que residirem em Curitiba e quiserem participar do Clube de Leitura é só avisar-me com antecedência - é aberto a quem quiser, desde que venha à reunião com o livro do mês lido.  Abaixo colocarei a lista do ano, caso alguém tenha interesse em ler... A cada mês trarei uma breve resenha sobre a discussão do livro lido.

1. Março: "O Pequeno Príncipe" - Antoine de Saint-Exupéry

2. Abril: "A Letra Escarlate" - Nathaniel Hawthorne

3. Maio: "O Signo dos Quatro" - Arthur Conan Doyle

4. Junho: "Esaú e Jacó" - Machado de Assis

5. Agosto: "A Volta do Parafuso" - Henry James

6. Setembro: "A Cidade e as Serras" - Eça de Queiroz

7. Outubro: "O Processo" - Franz Kafka

8. Novembro: "A Arte da Guerra" - Sun Tzu

Obs. Os meses não listados são meses de férias.

Boa Semana!









 

quarta-feira, 16 de março de 2022

IR E VIR

Caros amigos leitores,

Ultimamente muito se tem pensado sobre a liberdade de ir e vir que outrora tínhamos no meio social.  Com a pandemia ficou claro que nunca a tivemos - havia a ilusão de nos acharmos livres de tudo e de todos.  É certo que dependemos uns dos outros em muitas circunstâncias da vida, entretanto essas "circunstâncias" obedeciam à nossa livre vontade ou à nossa necessidade.

Por exemplo, se tenho fome, tenho a necessidade de me alimentar, então se moro numa casa, compro alimentos e os preparo; se não os quero preparar vou até um restaurante e me alimento;  se não moro numa casa e não tenho os meios para comprar os alimentos posso tentar contar com a ajuda de alguém para suprir essa necessidade básica - assim creio ter exemplificado a liberdade de ir e vir no quesito necessidade.

Durante a pandemia essa liberdade nos foi tirada por aqueles que acreditavam que deveriam nos proteger de nós mesmos e nos proteger uns dos outros e então, esses também  nos convenceram de que nossos corpos não nos pertenciam e que nós não saberíamos como nos proteger sem a ajuda deles. O argumento era que não havia hospitais suficientes para cuidar de toda a população caso fôssemos livres para circular aonde nos aprouvéssemos.  Assim a solução era deixar todos trancafiados em suas moradias (e quem não as tivesse?) e caso alguém contraísse a temida enfermidade não "poderia" tomar nenhum medicamento e ficaria isolado em casa.

Em toda essa história pregressa há controvérsias.  Cada pessoa ainda tem a liberdade de acreditar no que quiser.  Mas o fato concreto é que perdeu-se a liberdade e a "capacidade" de ir e vir.

A capacidade de ir e vir é uma conquista de indivíduos libertos de suas paixões, que sabem que sua caminhada em direção aos seus objetivos dependem exclusivamente de suas responsabilidades perante si próprios e ao mundo. Paixões aqui incluem todos os nossos sentimentos que nos aprisionam às já mencionadas "circunstâncias" - tais como a inveja, a raiva, o orgulho, o egoísmo. Ao refletirmos sobre cada um desses sentimentos conseguimos compreender como eles nos "tiram" a liberdade de ir e vir.  Reflitamos juntos sobre eles.

Se invejo um objeto que uma pessoa possui irei pautar minha vida, momentaneamente ou não, em direção a obter esse objeto e, dependendo do tamanho desse objeto dispenderei muito tempo nessa empreitada ao invés de caminhar em direção aos meus objetivos mais nobres.  Claro está que algumas vezes posso invejar a característica de uma pessoa que considero positiva e posso vir a tentar copiá-la para fazer dela uma característica minha.  Mas será que estarei cumprindo o meu "destino" ou ao contrário, por não me aceitar como sou, transformar-me-ei numa cópia malfeita dessa pessoa?

A raiva me leva a perder meus objetivos fazendo com que eu busque vingança; o orgulho me faz galgar locais muito altos com perigo de queda desastrosa; o egoísmo me fecha no meu mundo íntimo criando dificuldades para o meu crescimento pessoal, emocional e até espiritual.

O poder, a dominação, a necessidade de controle também são algemas de vida. Aquele que é livre não necessita dominar os outros - a liberdade é um sentimento oposto à vontade de controlar e possuir.  Muitos acreditam que só serão reconhecidos por seus valores internos, quando dominam os outros.  Isso denota falsa liderança, insegurança e falso conhecimento do mundo e de si mesmos.

Carl Gustav Jung, o psicólogo suíço, disse em seu livro "Psicologia do Inconsciente": "Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor."

Quando conseguirmos nos libertar dessas "paixões" conseguiremos caminhar, ir e vir com mais leveza.

Aqueles que nos aprisionaram por medo, incerteza, excesso de controle e poder, não imaginaram que muitos de nós, prisioneiros de suas atitudes, acabassem refletindo sobre a liberdade de ir e vir - foi uma oportunidade valiosa para mudarmos nossos comportamentos de agora em diante.

Aqueles que não conseguiram refletir sobre isso ainda estão prisioneiros.  Mas outros resolveram mudar de rumo em direção aos seus objetivos maiores.

Já pensaram nisso?

Boa semana!







terça-feira, 8 de março de 2022

INGENUIDADE X MALÍCIA

Caros amigos leitores,

Quando lemos a definição de ingenuidade no dicionário podemos dizer que este modo de ser das pessoas é bom, pois o dicionário enuncia que essas pessoas são movidas por sentimentos de inocência e pureza.  Entretanto, essas duas qualidades são também atribuídas, mais precisamente às crianças.  Aquele indivíduo que quer realizar transformações no intuito de ser feliz e evoluir não pode se dar ao luxo de ser inocente - a inocência aqui denota imaturidade pessoal e porque também  não dizer, imaturidade espiritual.

O ingênuo quase sempre só vê qualidades, quase nunca vê defeitos.  Não se pode atingir a felicidade acreditando com facilidade em qualquer pessoa ou coisa.  O indivíduo maduro espiritualmente sabe que na vida existem obstáculos, sabe que dentro de si mesmo possui desvios de conduta e potenciais para transformá-los; o indivíduo maduro espiritualmente conta com a proteção divina e age de acordo com suas leis.

No dicionário Aurélio, Malícia é: 1. Tendência para o mal; má índole; 2. Esperteza, vivacidade; 3. Sagacidade, astúcia; 4. Intenção Maldosa.

O indivíduo malicioso deprecia e ludibria os outros por vias indiretas.  No  texto anterior, sobre o cavalo que quis se vingar do cervo, o homem foi malicioso, pois já ajudou o cavalo com a intenção de aprisioná-lo, pois quando ele retornou com o cavalo preso, "a estrebaria já estava construída."

O malicioso sempre conta com o ingênuo.  São duas características complementares.  Entretanto onde não existe o ingênuo, o malicioso não tem como agir.  Quando o ingênuo deixa de sê-lo, estará ajudando não só a si próprio, mas também ao malicioso, pois este também deverá mudar sua conduta para continuar relacionando-se com o primeiro, se assim o quiser.  O ingênuo que se transforma dá uma oportunidade ao malicioso de também se transformar.  Nesta transformação todos saem ganhando pontos a caminho da evolução e de seus objetivos mais nobres.

Pensemos nisso!

Boa semana!




quarta-feira, 2 de março de 2022

O CAVALO QUE QUIS SE VINGAR DO CERVO

Caros leitores,

Hoje trago para vocês a análise da última fábula do livro de Hammed "La Fontaine e o Comportamento Humano".

Vamos à ela então.

"O cavalo não era doméstico outrora.

Houve um tempo em que os homens se alimentavam só de frutos.  Nessa época viviam nas florestas os cavalos, jumentos, burros, mulas, todos livres correndo pelos campos.

Não havia, como agora, arado, selas, selins, cadeirinhas, carruagens, arreios, nem também tantos banquetes, casamentos, festins.

Foi quando o cavalo teve uma discussão com um cervo extremamente lépido e, não havendo um modo de alcançá-lo, foi, pois, o cavalo implorar o auxílio do homem.

O homem meteu-lhe um freio, nas costas uma sela e, saltando-lhe ao dorso, somente lhe deu descanso quando matou o infeliz cervo.

Isso feito, eis que o cavalo agradece ao benfeitor e diz-lhe:

- Obrigado! Agora te apeia e leva o que caçaste.  Estou muito agradecido por tão distinto favor.  Vou voltar à floresta, onde vivo.  Adeus, adeus, meu senhor!

Não - respondeu-lhe o homem. - Não irás retornar, pois agora o teu lar será este aqui, junto comigo! Tu não padecerás de fome ou frio e terás uma manjedoura abarrotada de feno.

- De que vale a fortuna se a liberdade é perdida! Assim, viu-se o cavalo privado do maior bem desta vida.  E quando volta, a estrebaria já estava construída.

Ali terminou seus dias sempre arrastando o grilhão.  Não teria sido melhor que houvesse dado o perdão de tão leve ofensa ao pobre veado?

O mesquinho prazer de se vingar não compensou pagar o alto preço da perda do direito de ir e vir."

Nesta fábula podemos refletir sobre os sentimentos, as emoções e a razão.  E, nesta reflexão podemos notar que o cavalo perdeu seu mais precioso bem por causa de sua emoção descontrolada - raiva - e de seu sentimento de vingança.

Através da análise das fábulas, definimos padrões de pensamento e comportamento que trazem infelicidade e desarmonia para nossas vidas.  Através de uma autoanálise, cada um de nós, num exercício de autoconhecimento, pode se auto ajudar quando percebe em si mesmo alguns desses sentimentos desarmonizadores de sua existência.

A meu ver, a primeira etapa deve começar pela observação de si próprio nas diferentes situações diárias.  No cotidiano podemos perceber várias nuances de nossa personalidade, tanto positivas quanto negativas.  Há que ser duro neste julgamento para estabelecer critérios mais realistas para as mudanças.  Nesta fase, a ideia ainda não é fazer modificações.  De minha parte, acho mais fácil colocar tudo no papel para uma análise futura com uma visualização mais fácil para a etapa da prática, ou seja, das mudanças propriamente ditas.

Observemos nesta fase como nossas emoções atrapalham a harmonia de um local, como nossa comoção em relação a um fato faz com que, muitas vezes, todas as pessoas envolvidas se sintam perturbadas, desorientadas.

Na fábula em questão, se o cavalo usasse sua razão predizendo consequências saberia que um dia ele também poderia errar e neste erro necessitar do perdão, então, ele, depois desta reflexão, ao invés da vingança, faria uso do perdão.

O cavalo fez uso apenas de suas emoções e, movido por elas, não conseguindo realizar seu intento sozinho - o de se vingar do cervo - buscou a ajuda do homem que ele julgava mais ágil do que ele para esta tarefa.  Agindo baseado na raiva e na vingança, ele também demonstrou certa ingenuidade - sentimento que faz parte das pessoas que não usam a razão e o bom senso; traduz também, a meu ver, imaturidade.

Cada fábula apresentada é muito rica em ideias e esta não é diferente.  Podemos divagar também sobre a ideia de querer castigar a outrem - quem nos concedeu a prerrogativa de castigar alguém por um ato que nós consideramos "errado"?

Hammed nos lembra que o ser lúcido, consciente não subjuga outros, não concorda com o autoritarismo.  Só aquele que não sabe sentir-se como um indivíduo quer dominar o outro.

Só nos sentimos ofendidos, indignados, humilhados quando, dentro de nosso íntimo, temos sentimentos de inferioridade/superioridade (orgulho), egoísmo, baixa autoestima.  Quando temos noção da vida real não há motivos para revanche, vingança - quando percebemos que todos nós estamos nesta vida para crescer, evoluir, aprimorarmo-nos, estaremos invulneráveis às ofensas, agressões, maus tratos.

Como moral da história, podemos concluir que nosso mundo só diz respeito a nós mesmos.  Somos nós que escolhemos nossa conduta, como iremos nos comportar.  Não permitamos que as emoções e sentimentos desorganizadores ditem nosso caminho.  A vingança, o ódio, o orgulho não devem nos seduzir e conduzir nossos atos e palavras.

Alertemo-nos a respeito das circunstâncias que esses sentimentos aparecem: a expectativa através de uma promessa; a culpa através de uma "insinuação"; a ira através de um ataque; a fofoca através de uma calúnia; a paixão através de uma sedução; a soberba através de uma adulação; o medo através de uma chantagem.  

Para minorar estes sentimentos desequilibrantes dentro de nós, não devemos nos aliar a ninguém com a finalidade da vingança, pois este tipo de cumplicidade gera dependência que pode aprisionar-nos por tempo indeterminado a esta tramoia.

Boa reflexão e boa semana!

Até!








 

"EU TENHO UM SONHO..."

Olá leitores, Os meus sonhos não são tão grandiosos quanto o sonho de Martin Luther King em seu discurso. Os meus sonhos são voltados ao meu...