quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

PORQUE A BELEZA IMPORTA

Caros leitores amigos,

No decorrer de minha vida, através dos anos de observação do mundo, das pessoas, das cidades, das casas, do meio ambiente, da sociedade enfim, tenho me questionado sobre o valor da beleza.  Então, como por uma sincronicidade do destino, onde sabemos que nada é por acaso, tenho me deparado com essa temática - em livros, palestras, conversas.

Como já mencionei, através da observação do meio social me deparei com a feiúra do mesmo. Há muito lixo pelas ruas (será que é só na cidade em que resido?). Bem, já viajei para outras cidades de outros países e isso, pelo menos antes da pandemia, não era marcante.  Desde o início do "Fique em casa" (meu marido e eu não aderimos) notei que o lixo nas ruas aumentou bastante, assim como a feiúra das casas, as quais também têm muito lixo em frente (restos de "poda" de árvores [coloquei "poda" entre aspas porque em realidade são árvores cortadas - isso aumentou bastante também], restos de materiais de construção, tais como areia, pedra, tijolos [a reforma da casa já acabou mas as sobras não são retiradas na maioria dos casos - e é incrível, ninguém rouba e eles, os restos, são levados pelo vento e pela chuva {quando chove, o que tem sido raro}], sacos de lixo (os moradores assim que "produzem" o lixo, o mesmo é colocado na frente de casa ou nas lixeiras [quando elas existem] imediatamente [às vezes coloca-se o lixo no sábado pela manhã e o caminhão da coleta só irá passar na segunda feira à noite - no bairro em que moro; assim são muitos saquinhos de lixo em frente às casas - isso é o que chamo de feiúra).

Outro item que tem me chamado a atenção é o vestuário - roupas inadequadas e corpos não compatíveis para certos tipos de roupa - entendo que hoje todos querem (e eles acreditam que devem) chamar a atenção à qualquer custo - me vem à mente as tais calças jeans rasgadas (antes era só no joelho; hoje é em toda sua extensão - já vi um rapaz com o rasgo na bunda onde podíamos ver sua cueca...), os shorts extremamente curtos numa cidade que nem litorânea é.  Sei que alguns de vocês poderão pensar "ela é idosa, de outra geração, pudica..." Não é caso de pudor, é apenas mau gosto e total deselegância.

Outra característica que foge totalmente aos padrões de beleza e harmonia é a música.  A cada dia é uma martelada no ouvido, onde o famoso ritmo "bate-estaca" causa até dor de estômago (os carros com som em volume altíssimo voltaram com força total - parece que para essas pessoas é como se nada tivesse mudado em seus íntimos - acho que precisam de umas três pandemias para acordarem...).

Outra dissonância que me ocorre no dia-a-dia no quesito som são os alarmes (de carro, de moto, nas casas, nas lojas e empresas) - geralmente o alarme dispara quando passa uma borboleta por perto... os ladrões nunca fazem disparar um alarme - acredito que sabem como fazer para que alarme não toque; outro detalhe - fulano vai viajar ou se ausenta por um tempo - então o tal alarme começa a tocar e não há Cristo que o desligue - a polícia não "pode" fazer nada... outra feiúra no mundo.

Esses casos de falta de beleza não creio serem prerrogativas exclusivas do Brasil - creio ser global.

Um dos livros que me chamou a atenção para esse tema foi o livro "Manual de Sobrevivência do Conservador no Século XXI" de Daniel Lopez.  Esse livro "tem por objetivo oferecer ao leitor instrumentos conceituais que lhe sirvam para compreender e contestar narrativas que a mídia pinta como verdades, principalmente as relacionadas à política em geral, à educação, à cultura e às artes como um todo." (trecho da apresentação do livro).

Não entrarei em muitos detalhes, mas Lopez me mostrou e provou com fatos a decadência da arte que vem ocorrendo após Leonardo da Vinci (século XVI), por exemplo. Na pintura, nessa época a arte buscava imitar, na maneira mais perfeita possível, a realidade.  Isso foi sendo mudado - no decorrer dos séculos, tivemos, na pintura, por exemplo, Jackson Pollock que "pintava" com um balde furado cheio de tinta onde a tela ficava no chão e os respingos de tinta transformavam-se em arte abstrata; outro integrante dessa arte foi Pablo Picasso "que começou a desconstruir as formas e a mostrar um objeto sob vários pontos de vista ao mesmo tempo."

Através da leitura do livro de Lopez comecei a observar realmente a falta de beleza em outras coisas, como já mencionei.

Jordan B. Peterson em sua oitava regra, também fala da importância da beleza para nosso cotidiano.  Desde o seu segundo livro (esse, ao qual me refiro, é o terceiro) ele ficou conhecido por encorajar as pessoas, principalmente os jovens, a limparem e arrumarem seus quartos.  Nessa regra, ele sugere que cada pessoa deve tentar transformar um cômodo de sua casa (pelo menos um) num lugar mais bonito/belo possível.

Ele explica, "transformar alguma coisa em beleza é difícil, mas é extremamente compensador.  Se você aprender a fazer alguma coisa em sua vida verdadeiramente bonita - uma única coisa - então você já estabeleceu contato com a beleza - deste ponto em diante você poderá expandir esse relacionamento para outros elementos de sua vida e do mundo.  Este é um convite para o divino." "Você considerará outras pessoas mais inteligentemente e completamente.  Você cuidará de você mesmo mais efetivamente."

Esse texto de hoje pode ter parecido a vocês bastante pessimista, deprimido, como se eu somente visse esse lado ruim da vida.  Mas não, apenas quis apontar a todos para olharem para o outro lado da vida - o da beleza.  E para que todos nós pudéssemos "construir" beleza ao nosso redor.

Peterson continua - "nós vivemos pela beleza, pela literatura, pela arte - não conseguimos viver sem alguma conexão com o divino - e a beleza é divina."

Ele vai além e eu concordo plenamente com ele:  "A beleza pode nos ajudar a apreciar a beleza de ser e nos motivar a buscar a gratidão quando, ao contrário, estivermos propícios a um ressentimento destrutivo."

Eu tive a oportunidade e o privilégio de ir à Galeria Nacional de Londres e pude observar os quadros dos grandes pintores de outros séculos - é um banho de arte para qualquer um - essa história de que alguém não vai porque não entende de arte não existe.  Basta olhar, imaginar, perceber, colocar a alma nessa visita e você terá estado um tempo em frente ao divino. O mesmo ocorre num teatro ouvindo uma orquestra sinfônica tocando um clássico.  É simplesmente irresistível - nesse quesito qualquer orquestra vale - todas, em minha opinião, são magistrais...

Peterson acredita que "os artistas são pessoas que estão no limiar de transformação do desconhecido para o conhecimento." "Os artistas ensinam pessoas a ver."

"A beleza te leva de volta ao o que você perdeu.  A beleza o relembra daquilo que permanece para sempre imune ao cinismo.  A beleza o relembra que há um pequeno e um grande valor nas coisas.  Muitas coisas fazem sua vida valer a pena: amor, coragem, gratidão, trabalho, amizade, verdade, graça, esperança, virtude e responsabilidade.  Mas a beleza está entre uma das maiores coisas."

Hoje termino o texto com o primeiro parágrafo do prefácio do livro de Roger Scruton, "Beleza", o qual ainda estou para ler: "A beleza pode ser reconfortante, perturbadora, sagrada e profana; pode revigorar, encantar, inspirar, atemorizar.  Ela pode nos influenciar de inúmeras formas.  Não obstante, jamais é vista com indiferença: exige nossa atenção; fala-nos diretamente, como a voz de um amigo íntimo.  Se há alguém indiferente à beleza, sem dúvida, é porque não a percebe."

Boa reflexão!

Feliz Natal!





 

 


  

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O CARVALHO E O CANIÇO

Caros leitores,

Esta semana traremos mais uma fábula.

"Um carvalho, de bom coração, porém superficial em seus julgamentos, uma vez que acreditava na superioridade da aparência e desconhecia os valores verdadeiros ocultos na essência, olhando a fragilidade do caniço e dele se compadecendo, assim falou:

- A natureza foi injusta com você.  Frágil como é, um passarinho é uma carga pesada para suas forças.  E o mais fraco dos ventos o obriga a inclinar-se e vergar a fronte.  Ainda se tivesse nascido à sombra de minha ramagem e fosse mais alto, eu poderia servir de escudo para você e protegê-lo das tempestades que o ameaçam.  Devo acrescentar que o admiro pela maneira como aceita, sem reclamar, a sua pequenez e a sua debilidade.

O caniço agradeceu a compaixão e a bondade do carvalho e replicou: Não se preocupe com a minha suposta fragilidade.  Você se engana com ela.  Por trás dessa aparência delicada existe, em essência, uma força que me faz ser forte e autossuficiente.  Eu sou flexível.  Eu me curvo, se preciso for, mas não quebro.  Na verdade, os ventos são mais perigosos para você do que para mim.

Mal terminou de proferir essas palavras, no final do horizonte forma-se um terrível vendaval que, furioso e implacável, fustiga tudo que lhe aparece pela frente.  E o carvalho e o caniço são alvos de seus açoites.

A árvore enfrenta o vento forte e tenta a todo custo manter-se em pé; a cana dobra, inclina a fronte.

O forte, que se julgava alto como as montanhas do Cáucaso e capaz de suportar os violentos temporais, não resiste.  E o vento fica mais violento e arranca aquele cuja cabeça era vizinha do céu e cujos pés tocavam o império dos mortos."

Comumente, vislumbramos, em cada fábula de La Fontaine uma ideia principal e a analisamos à luz da psicologia no que tange o comportamento humano.

Aqui, a ideia central que Hammed nos traz é a da flexibilidade.  As pessoas flexíveis conseguem muitas coisas porque não oferecem resistência - em contrapartida, lembremo-nos de que as coisas duras quebram com mais facilidade, e, com as pessoas essa regra não é diferente.

Hammed nos traz como exemplo de flexibilidade, a água.  Para os chineses, ela é o mais poderoso dos elementos porque, entre outras qualidades, tem o mais alto grau de "não-resistência".  Em circunstâncias atípicas, a água tem o poder de desgastar uma rocha e arrasar tudo o que encontrar pela frente pela sua força.  Por outro lado, frente a um obstáculo, uma pedra, por exemplo, a contorna e ao contrário, não fica irritadiça e se preciso for ela também pode se comprimir.

Assim como é o fluxo da correnteza que traz vida a um rio, é o movimento e o dinamismo de nossa personalidade que traz vivacidade a nossa existência.  Nossa personalidade, nosso comportamento é dinâmico quando somos flexíveis, abertos a novas ideias - quando nos movimentamos para frente, com a cabeça altiva não perdendo de vista a meta a ser alcançada.

Então, compreendamos que a vida é movimento, é transformação, é ciclo e é mutabilidade.  Se observarmos os grandes vultos da humanidade, perceberemos que os mais fortes são os mais maleáveis, abertos a mudanças e a novas informações.

Há duas fábulas anteriores falamos da essência de cada ser - falamos da importância de conhecermos nossa essência e partirmos dela para realizarmos modificações. Como somos membros do Universo em contínuo crescimento, aprendamos a nos adaptar e a nos ajustar a uma visão de mundo onde a transformação de nossa personalidade é a meta a ser alcançada e para tanto, há de reciclar pensamentos, crenças, ideias, fazer novas interpretações das circunstâncias e das ocorrências do dia-a-dia ao nosso derredor.  Não podemos deixar tudo cair no automático.  O homem automatizado não pensa, não reflete, não analisa e, portanto, não evolui.

Se não há liberdade para questionar a si e ao mundo, não há ética (no dicionário Aurélio, ética é o estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e o mal, relativamente a determinada sociedade, ou de modo absoluto). Quando o homem questiona, ele busca conhecer algo diferente - e esse novo conhecimento pode alavancá-lo para frente e para cima.  Quando ele expande a sua consciência, sua qualidade de vida cresce, e ele caminha mais facilmente até o seu objetivo.

Muitas vezes, a maneira rígida de pensar ilude o "homem carvalho" (como chama Hammed, "de bom coração, porém superficial em seus julgamentos"). Ele acredita possuir uma força indestrutível - mas frente às tempestades existenciais ele tomba ("...tenta a todo custo manter-se em pé;(...) se julgava alto como as montanhas do Cáucaso e capaz de suportar os violentos temporais, não resiste.  E o vento fica mais violento e arranca aquele cuja cabeça era vizinha do céu(...)".

Ao contrário do que muitos pensam, só teremos vigor e firmeza, quando mantivermos a flexibilidade do "caniço" - quando pudermos refazer e reformular planos, admitir novas opiniões, buscar o novo sem temores.  A cada passo adiante quando abraçamos o novo trazemos estímulos à nossa vida que, por sua vez, nos trazem energias que nos alimentam e fortalecem o espírito.

No universo, há o que Hammed chamou de "ritmicidade cósmica" onde há um fluir permanente que mantém tudo em perfeita ordem.

Muitos cientistas falam do caos porque para eles, quando há algo que não podem controlar, a eles, parece haver confusão e desordem.  Mas, em verdade, não há o caos.  Em tudo há harmonia.  Em cada situação há um propósito que para nós ainda é desconhecido - mas para o Criador tudo tem um objetivo, um ciclo em completa ordem.  Tudo está de acordo com os desígnios do Alto.  A dureza, a inflexibilidade vem exatamente dessa tentativa de controlar o mundo.

Perante novas situações, há de se ter novos comportamentos.  Se uma situação exige uma mudança de opinião, de ideia, de pensamento e nós nos mantemos arrogantes e reticentes à mudança, nossa vida torna-se infeliz, amarga e pior que tudo, estagnada.  Isso não quer dizer que devemos jogar no lixo nossas convicções internas a respeito de certos assuntos, mas que devemos ser flexíveis para repensar pontos de vista, raciocinar e refletir sobre outras possibilidades.  Não nos achemos fracos por mudarmos nosso modo de sentir, pensar e agir diante das coisas e pessoas.  Sem errar não há produção de conhecimento do que é bom e do que é ruim.  Sem este conhecimento não há crescimento espiritual e sem este crescimento a humanidade não estaria neste estágio de evolução.

Há de se ter coragem, humildade e força de vontade para perceber que os desacertos fazem parte desse processo de vida e que eles nos auxiliam a raciocinar.  Livremo-nos das culpas, das queixas, dos ataques de irritação, da frustração, da agressividade - essas características só servem para nos atrasar a marcha e para trazer à nossa existência um teor vibratório negativo.

Se permanecemos inflexíveis perante circunstâncias que requerem mudança, seremos como o carvalho perante as intempéries - tomba "a árvore que enfrenta o vento forte e tenta a todo custo manter-se em pé; a cana dobra, inclina a fronte" e permanece sã e salva.

Boa semana!

















 

sábado, 11 de dezembro de 2021

UMA VISÃO DA FORÇA DO TRABALHO

Caros leitores,

Jordan B. Peterson sempre me faz refletir sobre vários assuntos, principalmente sobre nossos comportamentos do cotidiano - muitas vezes esses comportamentos se fazem imperceptíveis pela maioria das pessoas e, embora pareçam até insignificantes trazem consequências em nosso caminhar.

Na sétima regra de seu terceiro livro "Além da Ordem - Mais Doze Regras para a Vida", ele discorre sobre a importância do trabalho e da responsabilidade. 

Pare ele, trabalhar com afinco em qualquer atividade traz grandes benefícios para nossa personalidade.  Muitos fatores contribuem para a realização de uma atividade/tarefa/trabalho bem feito: a responsabilidade, a concentração, o compromisso com a função, a direção.

"A disciplina que habilita a concentração em uma coisa começa cedo na vida." Jordan afirma que " uma criança deve ser suficientemente organizada para ser "atraente" para seus coleguinhas lá pelos seus quatro anos de idade senão corre o risco de cair num ostracismo permanente." Entretanto aqui também pode ocorrer o contrário - "uma criança com um medo terrível de desobedecer ou até blindada de cada oportunidade de desobedecer não é uma criança disciplinada, mas sim abusada."

"Dessa maneira," ele continua, "o apelo que diz que a moralidade é ao mesmo tempo necessária e inevitável, não é sinal de totalitarismo - é a mera observação que os valores básicos e primitivos devem estar contemplados sob estruturas socialmente organizadas para que a paz e a harmonia existam e se mantenham."

Nessa regra, Peterson lança mão dos dez mandamentos da lei de Moisés, afirmando que vale a pena pensar e refletir sobre eles como um conjunto mínimo de regras para uma sociedade estável. Eu acredito que se todas as pessoas trabalhassem com responsabilidade, seriedade cumprindo no mínimo as leis mosaicas, essas leis que regem praticamente o planeta inteiro com poucas exceções, a harmonia e o bem estar seriam o consenso geral de toda a raça humana.

Assim, para ele, a moralidade, a tradição, fazer o bem devem estar presentes em qualquer tipo de trabalho. Como essa sétima regra versa principalmente sobre a força do trabalho, Peterson afirma que "se você trabalhar com afinco em uma tarefa determinada, você se transformará, sentirá um bem estar interno, em suma , tornar-se-á um cidadão do bem."

Muitas vezes, não trabalhamos naquilo que gostamos, que desejamos - muitas vezes, trabalha-se para o próprio sustento, entretanto, se fizermos esse trabalho com dedicação, com responsabilidade, nos sentiremos bem, satisfeitos e até felizes... Peterson não fala apenas de nossa profissão, de nosso trabalho remunerado - mas de qualquer tarefa que realizamos, como por exemplo, a faxina de casa, a lavagem do carro, consertar alto quebrado, varrer a calçada, etc.

Ao pé da letra, a regra que ele traz é: "Trabalhe com todo o afinco que você conseguir em, ao menos, uma coisa e veja o que acontece."

Vocês já pensaram nessa ideia e nessa possibilidade na execução de tarefas?

Boa reflexão!

Até semana que vem.



sábado, 4 de dezembro de 2021

MÁSCARA

Caros amigos leitores,

Para aproveitar a ideia da postagem anterior, do gaio e do pavão, e, como está na última moda usarmos máscara para qualquer evento, hoje trarei o significado de máscara na psicologia.

Carl Gustav Jung, um psicólogo suíço, contemporâneo de Freud, definiu claramente o que é a máscara e o seu uso.  Ele "emprestou" o termo persona do latim (daí advém os termos "pessoa" e "personagem") - era a máscara que o ator de teatro usava para representar vários papéis no período medieval (a palavra "máscara" vem do italiano maschera).

Jung conceitua persona como o "eu" (frequentemente os aspectos ideais de nós mesmos, ou o que julgamos ideais) que apresentamos ao mundo exterior.  Ou melhor, " a persona é aquilo que na realidade não somos, mas aquilo que tanto nós como os outros pensamos que somos."

A persona, a máscara é usada nas relações interpessoais, entretanto ela tem um "prazo de validade" - quando o indivíduo se aproxima da velhice, da terceira idade, ela tende a cair, num processo natural da existência.  Em casos raros, ela pode permanecer com o indivíduo até o fim de sua vida, mas são casos patológicos.  Em outros casos, também patológicos, a máscara pode aderir ao indivíduo de tal maneira que ele reconhece só um papel.  Por exemplo, quando um médico acredita ter somente o papel de médico, e é médico em todas as situações de sua vida e não exerce os papéis de marido, pai, colega de trabalho, cidadão, etc.

Bem, seguindo o curso natural, na velhice a máscara cai e o indivíduo se mostra como ele é.  Por isso temos velhos bons e generosos e velhos chatos e ranzinzas - na realidade já eram assim na mocidade, mas a máscara usada encobria a verdadeira personalidade.

A persona ou máscara é usada para as relações interpessoais e quando o indivíduo é consciente disso, ela é saudável e muitas vezes desejável - pois imaginem uma pessoa que fala tudo o que pensa para qualquer um, em qualquer lugar - ela não seria considerada grosseira, mal educada? O ser que é direto, objetivo, necessita também aprender a usar de diplomacia, boas maneiras para se relacionar e colocar seu ponto de vista - senão ele criará discórdia, desarmonia.  A razão, neste caso, deve ser usada para medir consequências dos atos.

Então, será que nesta época de máscaras muitos estão escondendo alguma coisa, ou ao contrário, tudo, apesar da máscara, está sendo descoberto? Reflitamos nas situações atuais em que muitas pessoas estão tentando esconder algumas de suas características, mas que, na minha opinião, o tiro está saindo pela culatra, porque hoje tudo está transparente... 

Boa semana!



sábado, 27 de novembro de 2021

O GAIO E O PAVÃO

Caros amigos leitores,

Hoje postarei mais uma fábula.  Antes disso vamos a uma definição: Gaio: ave da família dos corvídeos do tamanho aproximado de uma pomba e de plumagem marrom-avermelhada, com asas e caudas negras.

"Um gaio apoderou das penas que um pavão trocara.  Colocou-as em seu corpo e acreditando ser uma bela ave, foi exibir-se entre os outros pavões.

Reconhecido, ei-lo enxotado a bicadas e empurrões violentos.  Depenado pelos pavões, ele foge entre vaia estrondosa, corrido, por ludibriar; leva o corpo em carne viva.

Buscando asilo e refúgio entre os gaios, seus iguais, foi repelido a assobios e gargalhadas.

Gaios bípedes eu conheço que não são imaginários; eles usurpam penas alheias e se chamam plagiários.

Mas, cala-te, boca! Não é do meu feitio apontar os impostores! Entre os pavões são notórios os gaios que se apoderam do que não lhes pertence."

No dicionário Aurélio, plágio é ato ou efeito de plagiar; plagiar é imitar obra alheia; assinar ou apresentar como seu, trabalho artístico ou científico de outrem.  Entretanto, na área da psicologia, plágio pode também ser interpretado como uma atitude íntima inconsciente.  Muitas vezes "querer ser ou parecer o outro", como diz Hammed, pode ser uma característica inconsciente de um indivíduo que tem dificuldade de se autoconhecer, ou até de se aceitar tal como é, então ele imita outros modelos que lhe parecem mais aprazíveis ou até aprovados como bons pelo meio social.

Muitas vezes esses tipos de atitudes são sutis, quase imperceptíveis, onde a intenção do indivíduo não é explícita - nem para ele nem para os que o rodeiam.

Na fábula, o gaio adorna-se com as penas do pavão, porque estas lhe parecem mais belas e as suas penas verdadeiras não têm graça, não chamam a atenção e ele, desta maneira, com as penas alheias, acredita valer mais, ter mais credibilidade e aceitação - mas quando o embuste é descoberto, ele não é aceito nem pelos pavões (é enxotado a bicadas e empurrões violentos), nem pelos gaios (foi repelido a assobios e gargalhadas).

Aquele que observa de longe pode achar que as "penas do pavão" são pura "fantasia", mas em muitas circunstâncias, é mais do que isso - é uma defesa do ego fraco que, temporariamente, preenche uma necessidade ilusória para desejos íntimos não efetivados.  O próprio inconsciente cria uma substituição para a satisfação que ele acredita para suprir a realidade, mas em verdade, apenas a mascara. Quanto mais inconsciente de si e do mundo, mais fácil  se torna criar esse mundo paralelo ilusório.

Quanto mais ele se conhece, menos necessidade de subterfúgios, mais rápido ele se livra de suas imperfeições, mais paz de espírito para si próprio em qualquer instante de sua vida.

Como sempre, todas as imperfeições que o homem possui têm como origem o orgulho e o egoísmo.  Nesta fábula, as coisas não são diferentes.  Podemos até perceber também aqui, a vaidade (com as plumas do pavão ele se sente mais bonito), a inveja (quer ser como o pavão, mas também não percebe que há desvantagens em ser pavão - arrastar as penas pesadas ao caminhar e estar sempre num galho mais alto para ter mais conforto, quando está contido num zoológico, por exemplo).  A ilusão dele também se encontra no fato de ele acreditar que todos gostam do pavão - nunca lhe passou pela cabeça que talvez muitos possam admirá-lo por sua plumagem marrom-avermelhada e suas asas e caudas negras.

Quando uma pessoa se veste com a personalidade de outra quer ocultar sua própria personalidade; talvez por não aceitá-la como foi dito anteriormente, ou até para alterar uma característica ou manter em segredo uma realidade que ele quer acobertar.

Apesar da globalização, ou até por causa dela, a humanidade tem deixado transparecer claramente seus preconceitos.  Quanto mais inconsciente um indivíduo, mais preconceituoso, com mais probabilidade de imitar atitudes alheias que são consideradas aceitas pelo meio social em que ele vive, com mais dificuldade de andar pelas suas próprias pernas, e, portanto, com mais dificuldade de crescer - este indivíduo sofre mais porque não se conhece e, portanto não sabe o que gosta e o que não gosta, tem dificuldade de aceitar o novo, perde oportunidades de aprendizado, é superficial em sua existência pois tem limites em sua capacidade de interiorizar-se.  Em suma, o indivíduo que não se conhece, erra muito. Mas ele recebe a todo momento oportunidades para conhecer a si e ao mundo, e só não as aproveita na medida em que mantém em sua personalidade, o orgulho e o egoísmo que embotam sua razão e o fazem cego para a realidade.

Quanto mais inconsciente, mais sofrimento.  O indivíduo consciente, por outro lado, compreende que está onde está porque necessita aprender certas lições, tem tolerância e paciência para aguardar a ordem dos acontecimentos, é calmo, tranquilo porque tem fé em Deus, conhece seus potenciais, avalia com critério suas limitações e faz acordo com elas - aproveita as oportunidades para crescer, tornar-se mais forte, mais resiliente; se passa por tribulações e necessidades compreende que tudo é uma questão de tempo e que nenhum sofrimento é eterno, que ele tem um propósito; quando ele o compreende o sofrimento cessa.  O indivíduo consciente constrói sua própria personalidade, sua identidade pessoal, sem necessidade de imitar outros, faz análises de si e do mundo com mais profundidade.  O indivíduo consciente erra menos; é um indivíduo mais prático, eficiente, vivaz, otimista, com grandes possibilidades de caminhar na vida com mais paz interior.  Sua própria autenticidade traz para si um mundo positivo, fazendo com que seu bem estar se espalhe por onde quer que esteja.

Bem, voltemos à nossa fábula - ela nos traz mais reflexões.

Quando admiramos uma pessoa por suas características positivas, existe uma tendência natural a imitá-la.  Isso é saudável, principalmente quando conhecemos o resultado positivo de tal imitação e, também quando incorporamos tal atitude à nossa personalidade.

Também é saudável quando tentamos esconder partes negativas de nossa personalidade, aquelas que ainda não conseguimos modificar.

Mas, quando em ambos os casos - imitação de atitudes e ocultação de nossas atitudes menos felizes - há um excesso dessas duas atitudes, esses processos psíquicos podem se tornar sintomas neuróticos e em casos extremos, indicam psicopatias (psicopatia: estado mental patológico caracterizado por desvios, sobretudo caracterológicos, que acarretam comportamentos antissociais).

De volta à nossa fábula, há homens com comportamentos semelhantes aos dos "gaios" - são indivíduos que vivem situações ilusórias, fantasiosas, vestindo-se com a peculiaridade dos outros e transformando-se total ou parcialmente, irrealisticamente, no modelo copiado.  Aqui o indivíduo vivencia o imaginário, e ao mesmo tempo, dissimula uma falta interna, de modo consciente ou não.  Quando o faz de maneira consciente é porque não aceita suas próprias características, talvez por "vergonha" (outra palavra, aceita socialmente para "orgulho") da mesma não causar impacto positivo nos demais.

Um dos grandes obstáculos ao crescimento é a ilusão.  Aqueles que esperam total aceitação de suas ideias na Terra, ou que pretendem agradar a tudo e a todos vivem numa ilusão.  Todos somos diferentes, em diferentes degraus de evolução, com ideias diferentes.

Hammed nos traz uma verdade incontestável - "só se vive de fato a partir da própria realidade". Por fora, pode-se até viver acomodando-se às circunstâncias, contemporizando com todos; mas, por dentro, só podemos escutar o Deus que há em nós.

Em psicologia, a árvore é o símbolo do homem.  Em muitos testes psicológicos, pede-se ao indivíduo que desenhe uma árvore e ele tem sua personalidade analisada de acordo com o desenho da árvore.

Hammed também traz à baila, a árvore como modelo de homem.  Embora as árvores sejam admiradas pela sua aparência exterior: caule, copa frondosa, folhagens verdejantes ou ramos mirrados, exuberância ou não das flores, fragrância suave ou aroma desagradável - sua importância maior está nos frutos - em sua serventia, em sua capacidade de produzi-los - e isso ocorre igualmente com o homem - "por seus frutos os conhecereis..."

Na vida, todos são importantes: os "gaios" e os "pavões" - cada um é chamado a trabalhar e cooperar de acordo com sua singularidade, suas características de personalidade.

Um indivíduo consciente, lúcido e desperto olhará para seu semelhante de maneira intensa - não analisará o outro pelo que o outro parece ser, olhando apenas a parte exterior; mas observará sua aparência interior - analisará sua capacidade de realização e colaboração no bem comum e analisará suas habilidades de expressão no âmbito social, algum propósito de que todos possam se beneficiar.

O indivíduo mais feliz é aquele que vive dentro da realidade, contentando-se com o que é, com o que tem, é aquele que tem consciência do que é no agora, no presente; é aquele que vive o hoje, sem idealizações e expectativas; é aquele que vive a partir de sua essência; que não se submete às convenções confusas do meio social.

Quando o indivíduo vive a partir de sua essência, atinge mais facilmente seus objetivos íntimos e cumpre melhor suas metas de vida.  Crenças negativas não nos permitem que desenvolvamos de maneira saudável nossa criatividade.

A vida de cada um de nós é singular - então todos nós temos uma vida valorosa e útil. Acredito que estamos aqui para viver experiências em direção à nossa felicidade e bem estar.  Basta nos autoconhecermos e fazermos as escolhas de acordo com esse conhecimento.

Boa semana!







 







 







  

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

NÃO FAÇA O QUE VOCE DETESTA

Caros amigos leitores,

A quinta regra do novo livro de Jordan Peterson "Além da Ordem - Mais Doze Regras para a Vida" trouxe-me muitas reflexões e lembranças do meu passado, onde eu era diferente em muitos aspectos do que sou hoje.  Creio que quando vamos atingindo certa idade podemos olhar para trás e perceber atitudes equivocadas e circunstâncias difíceis que vivemos, as quais nos ajudaram a amadurecer.  Essa regra "Não faça o que você detesta/odeia" me fez rever muitas coisas que realizei, mas que não gostei, ou até que odiava, mas o fiz por motivos diversos - revendo-as concluo que hoje não as repetiria.  Mas como eu já mencionei, elas me auxiliaram no meu crescimento.  E, hoje não sou mais a mesma pessoa, digo emocional, psicológica e até espiritualmente - amadureci e o que eu pensava sobre certas coisas no passado, hoje eu penso diferente.

A maioria de nós, vez ou outra, faz coisas de que não gosta.  Aqui não me refiro a tarefas do lar, por exemplo.  Mulheres em geral tem mais tendência a fazer o que não gostam - no lar - passar e lavar roupa, cozinhar, limpar a casa, etc.  Por exemplo, eu lavo e passo roupa com prazer, mas não curto cozinhar (meu marido é que cozinha), entretanto, algumas vezes preciso fazê-lo.  Com relação às tarefas do lar cada pessoa tem suas preferências.

Mas a regra de Peterson diz respeito à situações mais graves do que tarefas domésticas.  Ele se refere àquelas situações que enfrentamos e nos vemos fazendo coisas que trazem consequências funestas para nossa alma, e que nos arrependemos, mas que acabamos fazendo porque acreditávamos que era a única coisa a ser feita naquele momento.  E, depois de um tempo, colhemos o arrependimento e só nos livramos dele e da culpa se pudermos analisar e concluir que fizemos o que fizemos para ter um segundo ganho na ocasião.

A ideia aqui não é nos culparmos, mas nos perdoarmos e "prometermos" para nós mesmos que não iremos repetir a dose no futuro.  Quanto maior o arrependimento, mas fácil não repetir o comportamento.

Jordan Peterson trouxe um exemplo bizarro - tentarei resumi-lo.

A situação ocorreu com uma de suas pacientes (ele pediu licença à ela para reproduzir a história em seu livro) numa ocorrência em seu trabalho.  Ela trabalhava numa empresa, na parte administrativa e ela ia apresentar, numa reunião, o seu projeto.  Ela resolveu usar um flip-chart (bloco de papel com cavalete onde se viram as páginas já escritas) ao invés do power point/data show do computador.  E então a situação difícil deu início.  Uma pessoa começou dizendo que não se deve usar o tal do flip-chart porque a palavra flip-chart tinha uma conotação preconceituosa.  (A palavra flip é uma menção à pessoa que nasceu nas Filipinas - filipino. Chart quer dizer bloco).  Nem sabia disso e Peterson também não soube dizer o motivo de se usar essa palavra para se referir a um bloco de papel.  Em suma, na empresa dessa sua paciente, começou uma discussão interminável sobre uso de certas palavras que deveria ser abolida.  Bem, conhecemos bem de perto essa temática - palavras como preto, negro, denegrir, escuro, pardo, japonês, chinês, etc...

Ela, que não acredita e nem segue o tal do "politicamente correto" (tampouco Peterson ou eu mesma), sentiu-se violentando a si própria, por ter que discutir algo tão superficial, perdendo um tempo precioso com pessoas agressivas em suas colocações e sentiu o desejo de pedir demissão da empresa.

Assim a regra "Não faça o que você detesta/odeia" encaixa-se aqui.  Ela não estava mais sentindo-se confortável de trabalhar num ambiente onde não poderia expressar-se livremente.

A pergunta que ela se faz e eu a endosso: "Este é um caso onde se deve dar um "basta"? Aonde iremos parar? Se uma pequena minoria de pessoas, hipoteticamente, achar algumas palavras de cunho ofensivo, o que faremos? Continuaremos a banir palavras infinitamente?"

Sua paciente desejava muito escapar da situação (quem não iria querer?).

"Esses tipos de discussões dão às pessoas um sentido superficial de se estar sendo bom, nobre, compassivo, caridoso e sábio.  Assim, se alguém discorda desses pontos de vista, como essa pessoa poderá juntar-se à discussão sem ser considerada racista, má, de visão estreita, rigorosa?"

Então, muitas ideias vieram à mente dela. Em realidade, ela precisava dizer "não" para essa situação mas outras ideias surgiram: 

"Eu posso ser despedida". Jordan concorda que essa é uma possibilidade, então  diz à ela para "se preparar para procurar outro local para trabalhar (ou para se preparar para falar com seu chefe com um argumento bem preparado e articulado).  Não se deve presumir que deixando seu emprego será necessariamente para pior." Muitas vezes, ao contrário, encontra-se uma função melhor em outra empresa.

"Tenho receio de mudar para outra empresa." Então Peterson reflete: "Claro que você tem medo, mas comparado com o quê? Prefere continuar num trabalho onde você se torna mais fraca, mais amarga e mais suscetível à pressão ou tirania com o passar dos anos?  Há poucas escolhas na vida onde não haja risco de nenhum lado e é sempre necessário comparar os riscos de continuar e os riscos de se mudar para outro local."

O exemplo da situação da paciente de Jordan Peterson parece banal, mas a impressão que fica é que na vida real, em algumas circunstâncias passamos por cima de situações que não nos fazem bem e não agimos, não refletimos porque achamos que não temos escolha.  Porém, sempre temos escolha.  O problema é que nos acomodamos a certas condições que não nos fazem bem e "fingimos" que está tudo bem.  Mas com o passar do tempo percebemos que estamos sofrendo naquela condição porque temos medo de mudar, de "virar a mesa".  O que não percebemos é que, exatamente, se mudarmos, daremos um impulso para frente e acabaremos nos deparando com uma situação prazerosa que nos auxiliará no nosso crescimento.  Às vezes, precisamos agir com coragem e determinação no resgate de nossa autoestima.  E quando conseguimos, voilà! - uma sensação de liberdade invade o nosso íntimo.

Assim, reflitamos sobre essa regra "Não faça o que você detesta/odeia."

Boa semana!












 

sábado, 13 de novembro de 2021

O BURRO QUE LEVAVA RELÍQUIAS

Caros leitores,

Hoje trago mais uma fábula. Ei-la:

"Um burro, carregando a estátua de um santo e outras relíquias, caminhava pelas ruas da cidade.  E por onde passava as pessoas entoavam hinos e queimavam incensos.  Paravam para vê-lo e fixavam em sua direção olhares de admiração.  Alguns até se ajoelhavam.

Imaginando que todas as honrarias eram para ele, o burro, cheio de orgulho, marchava soberbamente diante do povo.  E até fazia paradas estratégicas quando percebia que a multidão exultava.

Alguém que por ali passava, observando a pose do animal, adivinha o que lhe passa na cabeça e diz:

- Não sejas tolo, ó burro insano! Deixa de lado essa presunção! És pobre de cabeça? Não vês que as homenagens e as preces dos suplicantes são para o santo que carregas, e não para ti?

Quantos burros se imaginam adorados pelos homens!

Quantos magistrados que nada sabem são aplaudidos pela imponência da toga!"

Através da história, quando refletimos sobre a evolução do homem, pode-se facilmente concluir que a interação entre as pessoas facilita e promove o crescimento tanto pessoal e, portanto individual, quanto social, ou grupal.  Então refletimo-nos uns nos outros - através da observação do meio social é possível "adaptar-se" a ele para melhor convivência nele.  Coloco aspas em "adaptar-se" porque muitos podem concluir que basta agir como todo mundo para ser aceito, admirado e amado.  Mas sabemos que não é bem assim.  Reflitamos.

A cada dia, cada pessoa é trabalhada em sua psicologia, sua moral, seu eu pessoal.  Muitas qualidades positivas já se encontram em cada um bastando apenas realizar o autoconhecimento.  Outras qualidades positivas que não se encontram no seu íntimo são facilmente identificáveis no meio social por aqueles que realizam a observação acurada e refletem racionalmente em sua importância - estas outras características positivas podem ser imitadas, exercitadas, postas como atividades habituais no dia-a-dia de cada um.

Nessa empreitada, o indivíduo observa, olha, raciocina, analisa, copia, vê e é visto.  Cada pessoa serve de modelo para a outra, tanto positivo quanto negativo.  Assim como foi dito que observa, copia, também é observada e copiada - e este é o mundo das relações onde toda ação, palavra, gesto, atitude é expressa e é copiada.

Se todos estivessem no mesmo parâmetro de crescimento, de evolução, tudo pareceria muito simples - todos se analisariam, todos raciocinariam, todos refletiriam e o crescimento tornar-se-ia a meta consciente.  Mas, sabemos que há uma miríade de indivíduos inconscientes que não tem ideia do valor da vida, do motivo de estarem vivos, de estarem em determinado país, determinada cidade, determinada família, determinada condição física, etc.  A estes indivíduos, o meio social se apresenta de maneira diferente - só há análise para criticar o outro, não há autoanálise, o raciocínio está a serviço de ganhar vantagens e a reflexão é parcamente usada.

Bem, voltando à palavra "adaptar-se" podemos dizer que só o indivíduo inseguro, inconsciente de si e do mundo "adapta-se" quase que totalmente ao meio ambiente, copiando aquilo que ele considera mais vantajoso para sentir-se seguro dentro do grupo - como ele não realiza a autorreflexão, não sabe quem é, não conhece suas características negativas e positivas e assim vive em função do meio que ele acredita que lhe dará todas as coisas de que ele julga que necessita.

Toda essa introdução foi feita para chegarmos a falar sobre a fábula de hoje.

Para Hammed, o burro age como um vaidoso sem conteúdo interno. Acredita que todos olham para ele e o admiram, quando na realidade, admiram e olham para o que ele carrega - ou seja, olham para sua aparência externa.

O filósofo e matemática Blaise Pascal escreveu que "a vaidade é de tal forma inerente ao coração do homem que todo mundo quer ser admirado - mesmo eu, que assim escrevo, e você, que me lê". Conclui-se que ele disse que a vaidade é inata em todo homem.  Em parte isso pode ser verdade, por tudo o que foi explanado no início - o homem precisa de um modelo para seguir a vida e ele também é um modelo para outros.  Entretanto muitos homens preferem ser apenas modelos para outros.  Então nesse instante a vaidade aparece no cenário.

A linha que separa a modéstia da vaidade é tênue e é difícil saber se um indivíduo é vaidoso ou modesto, principalmente numa auto-observação.

Aquele que não conquistou valores próprios não possui asas para voar, parafraseando Hammed - então ele voa com asas falsas, próteses de asas ou até com asas de cera, iguais as que trouxeram a Ícaro a sua queda.  Ícaro também se considerava melhor do que na realidade era, achou que podia galgar os céus com suas asas de cera - mas o sol as derreteu para fazê-lo ver a sua própria realidade, trazendo-o ao mundo real, ao solo, de volta a Terra/terra.  Estes, que emprestam dos outros seus valores são os vaidosos.  Os homens modestos colocam suas habilidades e competências em uso com grande generosidade porque possuem valores próprios e possuem consciência de suas virtudes inatas.  Os vaidosos, como foi dito no início, não têm consciência de seu potencial e procuram-no no meio externo, ao invés de desenvolvê-lo dentro de si mesmos.

A modéstia é facilmente observada quando aquele que se exprime o faz de maneira simples, lúcida e sintética, ao passo que a vaidade aparece quando aquele que se exprime faz uso de discursos pomposos, arrogantes, às vezes herméticos, principalmente quando quer obter algo a qualquer custo.

Para o filósofo francês André Comte-Sponville, em seu livro Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, o ser "simples é aquele que não simula, que não presta atenção em si, na sua imagem, na sua reputação, que não calcula, que não tem artimanhas nem segredos, que não tem segundas intenções, programa, projeto..."

Em realidade, todos nós gostamos de atenção, de homenagens, agradecimentos, consideração.  Demonstrações de reconhecimento, agradecimento e afeição fazem bem a todos nós e são muito desejáveis.  Não há por que condená-las.

Mas, para o vaidoso, o aplauso é uma necessidade vital e não é vista como um desejo momentâneo frente a um fato merecido.

Há, então, homens como este burro que carregava relíquias - julgam-se melhores e superiores, não se enxergam, não percebem o equívoco de suas atitudes de arrogância.

Para finalizar esse texto, reporto-me ao mito de Narciso - personagem mitológico extremamente belo e vaidoso, Narciso se atira nas águas, apaixonado pela sua própria imagem refletida no lago.  Diz-se então que os narcisistas são visionários da própria imagem.  A psicologia adotou este mito para dizer que o narcisista identifica-se com a imagem autocriada, ou seja, ele não se "apaixona" por si próprio, ele se apaixona por aquela imagem, aquela personalidade que ele acredita que ele é, mas que necessariamente não é totalmente verdadeira.   Dessa maneira, pode-se concluir que o narcisista é um presunçoso, pois ignora o seu eu verdadeiro; assim com Narciso, os narcisistas  olham para seu reflexo no espelho e não para si mesmos.  Nesse intento, perdem a oportunidade de amadurecer, impedindo que sentimentos verdadeiros venham à tona e construam sua identidade pessoal.  O narcisista sustenta-se emocionalmente pelas aparências e não cultiva os dons divinos que lhe foram gratuitamente oferecidos.

Infelizmente, o narcisista, como não amadurece, jaz apenas como peça decorativa, ornamento camuflando o espaço ocioso de uma sala.  São seres estáticos, sem ação, estagnados na vida.

Aqui, o que entendo por gratuitamente é que cada um de nós tem dentro de si, uma bagagem de virtudes, de aptidões, de dons à nossa disposição a qualquer momento, desde que nos interiorizemos e busquemos o autoconhecimento, a autoanálise.  Essas conquistas veem à tona na medida em que amadurecemos.

Que todos possamos amadurecer paulatinamente.

Boa reflexão!

Até a semana que vem.











"O CAIBALION" - CAUSALIDADE

Olá leitores, O sexto Princípio Hermético é bem conhecido nosso - hoje falaremos da Causa e Efeito, onde nada é por acaso.  Esse princípio a...