quarta-feira, 28 de julho de 2021

A RAPOSA E A CEGONHA

 Amigos leitores,

Vamos à história.

"A comadre raposa, apesar de mesquinha, tinha lá seus momentos de delicadeza.  Num dos tais, convidou sua vizinha cegonha a partilhar da sua mesa.

O banquete foi pequeno e não muito refinado, pois a raposa vivia de maneira econômica.  Um caldo ralo servido num prato raso foi oferecido à cegonha, cujo bico, muito duro e comprido, cada vez que tentava tomar a sopa, batia no fundo do prato, e ela nada conseguia beber.  A raposa, esperta, aproveitou-se disso e lambeu a sopa toda.

Para se vingar, a cegonha convidou a raposa para jantar.

Na hora marcada, chegou à casa da anfitriã. Esta, com caprichoso afã, pedindo desculpas pelo transtorno, solicitou ajuda para tirar do forno a carne, cujo cheiro enchia o ar.

A raposa, gulosa, espiou o cozido: era carne moída - e a fome a apertar! Sentou-se depressa à mesa, esperando a comida chegar.

Nesse momento, a cegonha entrou na sala e colocou sobre a mesa uma vasilha de gargalo estreito e muito comprido.  Lá dentro, estava a carne macia e cheirosa que seria o jantar.

Vocês já perceberam o que aconteceu? A cegonha, com seu bico fino e comprido, conseguiu comer toda a carne, enquanto que a raposa tentava enfiar lá dentro o focinho, sem sucesso.  Pobre raposa! Quis dar uma de esperta e só o que conseguiu foi levar de volta sua barriga, roncando de tão vazia.  Voltou em jejum para casa, envergonhada, com o rabo no meio das pernas e as orelhas baixas.

La Fontaine diz ao final desta fábula; Embusteiros, é para vocês que eu escrevo: esperem sempre pelo troco.  Quem planta, colhe."

Com esta fábula, La Fontaine apenas demonstra que tudo aquilo que realizamos de ruim para os outros volta para nós, mais cedo ou mais tarde e, dependendo do momento que volta, pode voltar com intensidade diferente e pode causar também reações diferentes no indivíduo que o recebe de volta.  A história é um tanto agressiva e o ideal não é revidar, mas como ele tinha que colocar dois animais (como já foi dito no primeiro texto, fábulas são histórias fictícias que envolvem animais ou divindades, com um toque de humorismo), ele escolheu a raposa e a cegonha para ilustrar a vingança imediata.

Hammed traz outra história para ilustrar uma vingança tardia.

"Numa aldeia um homem foi condenado a ser atirado num poço abandonado e vazio.  A população da vila achou por bem fazer sua própria justiça, pois tinha sido ofendida e desrespeitada por esse homem.

Então, jogaram-no neste poço e começaram a lançar sobe ele muitos insultos juntamente com lama e lixo das ruas - alguns cuspiam também.  Repentinamente, surgiu um homem que lhe atirou, com raiva, uma pedra.

O homem então, com surpresa, olhou para cima e perguntou àquele que o agredia: "Eu reconheço que errei com todos os outros que me condenam ou atacam, mas você eu não conheço.  Quem você pensa que é para me atirar pedras?"

O agressor à beira do poço responde: "Sou aquele que você arruinou há 20 anos."

O condenado então perguntou; "E onde você esteve todo este tempo?"

Ao que o homem responde: "Durante todo este tempo venho carregando uma pedra no meu coração e agora que te encontrei, vulnerável e nesta miserável condição, resolvi colocar a pedra em minha mão."

Esta história trata, como já foi dito, da vingança tardia ou retroativa.  Este tipo de vingança caracteriza-se por mágoas guardadas em segredo durante muitos anos, nódoas emocionais ou feridas da alma.

Ambos os tipos de vingança, tardia ou imediata, são prejudiciais à vida.  Analisemos cada uma delas.

No primeiro caso, da cegonha e da raposa, da vingança imediata, o fato é menos prejudicial para um dos lados - o lado da cegonha.  Esta se vingou quase que de imediato, querendo dar uma lição na raposa.  É quase como "mostrar" à raposa o que ela fez.  Pode trazer bons resultados de aprendizado, se a raposa aceitar a lição, do contrário, ela pode, por exemplo, sentir-se enraivecida e atacar a cegonha.  Então, neste caso, a cegonha também sairia perdendo com sua vingança "orgulhoso-vaidosa" e se machucaria.

No lado da raposa, como o texto diz, "voltou em jejum para casa, envergonhada, com o rabo no meio das pernas e as orelhas baixas".  Nesta fábula, ela entendeu o que havia feito com a cegonha e envergonhou-se, ou seja, tomou consciência do seu erro, aprendeu a lição.  Muitas vezes, quando nos envergonhamos por causa de alguma coisa aprendemos a lição, e dificilmente a repetimos.  Entretanto, também existem casos de pessoas que passam por humilhações, vergonhas e mesmo assim não compreendem onde erraram, ou até não admitem que errem e não entendem como fazer para não repetir o erro. Se usarmos o raciocínio e se quisermos crescer e aprender, lançamos mão da humildade e compreendemos o nosso erro.

Outra atitude que poderia advir da raposa como já mencionei, é a raiva.  O seu orgulho ferido poderia por tudo a perder e ela poderia atacar a cegonha.

Buscando o lado mais sombrio da situação, ela poderia virar uma "bola de neve" onde as vinganças se sucederiam até a destruição de um dos lados (a raposa vingando-se da cegonha que se vinga novamente da raposa e assim por diante).

No segundo caso, do homem que atira pedras no condenado, da vingança tardia, o fato é bastante pernicioso para aquele que guarda as mágoas por um bom tempo e depois resolve vingar-se.  Na história contada por Hammed, o homem que atirou a pedra, vingou-se casualmente, pois estava passando por ali, viu seu desafeto e aproveitou a oportunidade para desforrar-se dele, por um ato prejudicial que o condenado cometera no passado.  Todavia, poderia ser diferente - a vingança poderia ter sido planejada com minúcia e estratégia, para depois ser colocada em prática num momento que o vingador achasse adequado.  Ainda existe também, a questão do teor vibratório da ação.  Sabe aquele ditado "o perfume permanece nas mãos que entregam flores?" Pois é.  Aquele que se vinga também sente os efeitos negativos de sua vingança planejada.

Assim, nenhuma das duas vinganças, a imediata e a tardia são situações positivas, pois trazem à tona o pior daquele que se vinga.

Então como fazer para não guardar mágoas, ou melhor dizendo, como fazer para não desejar a vingança? Qual a melhor atitude quando enfrentamos situações de ultraje ou de afronta?  Hammed nos faz refletir: se uma farpa de madeira, por acidente, introduz-se em nossa pele, qual atitude devemos ter? Com certeza, removê-la o mais breve possível.  Se ela for deixada na pele, parada, poderá causar dor e até pode infeccionar e, por consequência, contaminar todo o nosso organismo.  Com as farpas venenosas da vingança que se instalam em nosso espírito, é necessário fazer a mesma coisa, antes que os planos de revide comecem a se delinear em nossa mente.  Claro que as farpas da vingança são mais difíceis de serem extirpadas do que as farpas de madeira.  Para extirpá-las o processo começa exatamente em nossa mente.  De nós depende analisar e transformar as situações de ultraje, de ofensa.  Mas, como? Mudando o nível de consciência para alterar a concepção sobre os atos e atitudes que vivenciamos.  Como assim?

Bem, tentemos explicar melhor.  Quando percebemos que alguém nos ofendeu, ou nos acusou/difamou sem razão, o ideal é rever as próprias emoções que gravitaram em nosso íntimo no momento da ofensa; talvez o outro tenha pisado em nosso "calcanhar de Aquiles" e não percebemos conscientemente.  Daí a importância do autoconhecimento.  Se você conhece os seus pontos fracos, deve fortalecê-los para não cair como um "patinho" - não cair em armadilhas.

Por exemplo, se você tem o costume da maledicência e quer eliminá-lo de sua personalidade deve ficar longe de rodinha de amigos, que usualmente faz uso deste tipo de comportamento.  Outro exemplo: suponha que você se acha limitado, com baixa autoestima e alguém, intencionalmente ou não, acusa-o de ser "burro" (ignorante).  Você poderia sentir muita raiva e buscar revidar.  Aqui, também o autoconhecimento presta um enorme serviço à sua harmonia interior, pois você compreenderia que esse é o seu ponto fraco que deveria trabalhar.

Para evitar os planos de vingança, devemos ter empatia; devemos ter a capacidade de nos identificarmos com o outro - a ideia é, emocionalmente, tornarmo-nos conscientes e compreensivos com os atos do outro que o levaram a nos ofender, humilhar, caluniar; ponderarmos quais seriam os sofrimentos que ele carrega no seu íntimo para ter agido de tal maneira.  Outras considerações a pesar seriam tentar saber que tipo de aprendizado ele teve para agir no meio social, qual seu nível de discernimento do mundo que o cerca, qual sua maturidade.

Hammed completa afirmando que o ser empático possui sensibilidade suficiente para perceber a emoção que levou o outro a agir daquele jeito e então, ele consegue atenuar ou reduzir o "abalo íntimo" que ele sofre diante de certos atos e atitudes alheias.

E, então quando falamos do ato de não se vingar, temos que falar do ato de perdoar.  Se exercitarmos a empatia, se buscarmos compreender os atos alheios, principalmente àqueles dirigidos a nós de maneira negativa, estamos a caminho do ato de perdoar.  Quando desejamos perdoar alguém, precisamos acrescentar às coisas novos significados, ou seja, compreender uma experiência de forma diferente.  Para perdoarmos, precisamos refazer ou modificar nossas atitudes, voltarmos nossa atenção para o outro lado da questão e até talvez, perguntarmo-nos: "O que mais isto poderia significar?"

Muitas vinganças familiares, crimes, guerras acontecem porque as ofensas não são relevadas, esquecidas, compreendidas.  Talvez por isso a igreja moderna tenha modificado a frase do Pai-Nosso "Pai, perdoai as nossas dívidas assim como perdoamos aos nossos devedores" para "Pai, perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tenha ofendido".

Quando fazemos o exercício de reflexão para compreendermos e perdoarmos o outro, todos nós crescemos e todos nós evoluímos igualmente, porque podermos ver com clareza que todos têm dificuldades iguais às nossas e que se nós estivéssemos em sua condição ou situação, talvez atuássemos do mesmo modo.  Essa postura de vida leva à solidariedade, a uma convivência de teor ético e a relacionamentos mais saudáveis.

Quando criamos expectativas irreais a nossos respeito e a respeito dos outros, podemos nos frustrar facilmente.  Se não refletirmos, compreendermos e buscarmos uma razão dentro de nós, nódoas de desgosto podem tomar conta de nossas vidas.  A mágoa pode se instalar sutilmente no início e pode desencadear desejos de vingança mais adiante.  

Uma mágoa acalentada por anos a fio pode trazer enfermidade tanto para o corpo como para a alma.

Hammed define o revide como o ato ou efeito de polemizar, rebater, replicar uma crítica ou ofensa, ou também reação imediata e penetrante a um acontecimento.

Uma das vantagens de não revidar e perdoar é nos livrar dos desgastes de energia e da fadiga do revide, das discussões, das brigas, da raiva e da crítica.  O perdão traz paz interior.  As emoções de melindre e ressentimento, por sua vez, trazem mal estar, cansaço, queda de adrenalina.

Moral da história, para finalizar: aquilo que plantar, colherá.  A vingança nunca substitui o mal que se sofreu - ao contrário, pode trazer males maiores.  É como um bumerangue que volta para nós, quando o arremessamos.

Mas, é importante lembrar que quando perdoamos, não queremos dizer que concordamos com os atos de agressão cometidos a nossa pessoa, pois estes violam valores e modos de pensar e agir de um indivíduo.  Não está em nós julgarmos os atos e comportamentos de nossos semelhantes.

Perdoar é uma nova maneira de ver a vida fora e dentro de nós. Quando perdoamos genuinamente, o outro pode transformar-se em nosso amigo.

Acho que o texto de hoje deu para refletirmos bastante.

Boa semana!

Até!






























sexta-feira, 23 de julho de 2021

O DESTINO DO HERÓI

Caros leitores,

A segunda regra do novo livro de Jordan Peterson é simples e complexa ao mesmo tempo.  Ele fala muito do mundo mitológico e como este retrata algumas situações do cotidiano.  Para aquelas pessoas não familiarizadas com esse mundo, apenas informo que muitas histórias da mitologia mundial são retratos fiéis de como a humanidade caminha desde os tempos extremamente remotos até os dias atuais.

Assim para chegar nessa regra ele discorre sobre algumas cenas mitológicas antigas e atuais, entretanto não o farei aqui.  Vamos direto à regra: "Imagine quem você poderia ser, e então mire diretamente nessa imagem."

A primeira pergunta a refletir é "Quem é você?" E o mais importante - "Quem você poderia ser, se você pudesse conceber qualquer ideia do que pudesse ser?"

"O antigo filósofo grego Sócrates acreditava que todo o aprendizado era uma forma de lembrança.  Sócrates afirmou que a alma, imortal em sua essência, conhecia tudo antes de vir ao mundo como uma criança."

Bem, baseado nessa premissa de Sócrates, talvez já, inconscientemente, viemos cumprir uma missão...

Embora tenha afirmado no início que não iria discorrer sobre mitologia, entretanto mencionarei algo a respeito de heróis (Peterson discorre sobre isso para dar respaldo a essa regra) - na mitologia, nas histórias em quadrinhos, em contos de fada, em história infantis - em suma, todos têm o mesmo papel no final: matar o dragão/monstro/bandido e salvar a mocinha/princesa/a virgem indefesa.

Peterson traz vários exemplos de histórias de várias épocas da humanidade, as quais trazem a mesma temática Herói-Monstro-Donzela indefesa.

Afinal de contas, o que as histórias de heróis têm a ver com "Quem você poderia ser, se pudesse escolher ser qualquer coisa?" Em realidade muita coisa, na opinião de Peterson e na minha também.

A humanidade foi se desenvolvendo através de histórias contadas sobre fatos reais e também sobre fatos imaginários.  Muitas mitologias parecem realmente histórias extremamente estranhas, entretanto elas também têm seu lado verdadeiro.

Peterson traz muitos exemplos da Bíblia e aqueles que já tiveram a curiosidade de ler algum trecho do Velho Testamento verão que ele se parece com histórias de Steven Spielberg tamanha quantidade de fantasias; entretanto muitas religiões seguem essa coletânea de livros e fazem de seus relatos um exemplo a ser seguido na vida cotidiana.  O Novo Testamento também tem suas idiossincrasias, porém os fatos, exemplos e atitudes de Jesus, na minha opinião, são o modelo ideal de vida para aqueles que desejam uma vida relativamente feliz e para a vida em sociedade.  Afinal de contas, Ele separou o calendário mundial em antes e depois Dele.

Assim, desde sempre a humanidade, em seu caminhar, observou e raciocinou sobre as tradições, as histórias passadas de geração em geração.  A vida moral do planeta foi sendo construída no passado através de figuras, desenhos, imagens que contavam as histórias e o folclore dos povos.  Depois do advento da escrita, as histórias foram transformadas em literatura que hoje, infelizmente está sendo apenas consumida através de filmes e séries cinematográficas; nada contra, podemos conhecer uma história completa vendo um filme de duas horas de duração, ao invés de levar alguns dias (para algumas pessoas meses ou anos...) para ler a mesma história num livro.  Aqueles que já leram uma determinada história, ao verem o filme da mesma, percebem que, de longe, o livro é melhor.  Sabem por quê? Ao ver o filme tenho a visão do diretor do filme e a imagem está na minha frente, mas quando leio o livro uso de minha imaginação, apesar da criatividade do escritor.  Isso torna meus pensamentos mais criativos - começo a aprender a fazer escolhas próprias ao invés de "comprar" escolhas alheias.  Reflitam sobre isso.

Bem, voltemos ao tema da regra de J. Peterson.  Nos livros, nos filmes, nas histórias infantis, nos contos de fada e na mitologia temos fartos exemplos de muitos tipos de comportamento e podemos escolher aquele que consideramos melhor, mais adequado ao momento presente, o que melhor condiz com nossa personalidade em constante construção.

O modelo de história de herói-monstro-donzela traz muitos comportamentos, sendo o principal deles, a coragem. "Nós aprendemos a ver e agir do mesmo jeito que os heróis das histórias que nos cativam."  Isso faz de nós uma criatura que é parte natureza e parte cultura.

Peterson afirma que "cada sociedade já está caracterizada por um comportamento padrão (por comportamento padrão, entendo a noção de virtude e vício como sendo praticamente universais); do contrário tudo seria puro conflito e não haveria "sociedade" como a conhecemos." Para ele, "a demolição da tradição é um convite ao reaparecimento do caos - quando a ignorância destrói a cultura, os monstros emergem."

"O ser humano pode e continuamente busca e encontra o novo, investiga e se adapta à ele, e até o torna parte dele mesmo."

Isso faz de nós criaturas em constante evolução - partes de nós morrem em situações de crises e conflitos, mas há o nascer ou o renascer de outras partes de nós continuamente - é um ciclo de Herói-Dragão-Morte e Renascimento. Em que etapa da vida você está? No herói matando o dragão; no dragão sendo morto; na morte de um processo ou de uma característica de personalidade que não serve mais ou no nascimento e/ou renascimento de uma nova forma de vida?

A história tem moldado a vida e a sociedade desde o início da humanidade e cada um de nós continua construindo-a.  Entretanto, cada indivíduo busca ser feliz e há inúmeras maneiras diferentes de realizar essa construção - uns escolhem copiar a vida dos outros, dos livros, dos filmes; outros usam de imaginação e criatividade nessa busca; mas uma coisa é certa - nem todos caminham em direção a suas metas.  Alguns encontram-se perdidos por vários motivos, mas acredito que o principal deles é a tal falta de coragem do herói falada aqui.

Então trago a vocês um roteiro, inspirado por Jordan Peterson, para que vocês possam iniciar vossa viagem em direção ao vosso objetivo; aquele que já atingiu seu alvo pode buscar outros, pois a vida é um eterno caminhar, um constante evoluir, tudo está em movimento. (Não nos esqueçamos que a Terra gira sobre si mesma, gira ao redor do Sol e nossa Galáxia se arrasta continuamente pelo Universo).

Assim, "para o melhor ou para o pior, você está numa jornada.  Você está numa aventura e seria bom que seu mapa fosse preciso."

Vamos ao roteiro. Busque um objetivo futuro, faça planos para daqui a dez anos.  Para facilitar coloque tudo num papel.  Lembre-se de que nessa empreitada o passado, o presente e o futuro são importantes - afinal de contas, o ideal é tentar não incorrer em erros passados.  Analise prós, contras, consequências - a curto e a longo prazo.  Se no meio do caminho achar melhor fazer desvios, faça-os.  O caminho até a meta final pode conter curvas, retas, pontes, encruzilhadas.  Você pode até mudar o objetivo final, porque a ideia aqui é expandir, melhorar a sua pessoa.  Com disciplina e vontade você fará sua vida ser significativa e produtiva e talvez ela até lhe traga momentos de satisfação e alegria.  Com vontade e perseverança você poderá ser o herói de sua história, o viajante disciplinado, o transformador criativo, o benfeitor de sua família e da sociedade como um todo.

"Imagine quem você poderia ser, e então fixe seu olhar nessa imagem."

Boa semana a todos!









 

quarta-feira, 14 de julho de 2021

COREIA DO SUL X COREIA DO NORTE

Amigos leitores,

A semana passada assisti a uma das melhores séries, na minha opinião, na Netflix - "Pousando no Amor" ("Crash landing on you" em inglês) - é uma comédia romântica de produção coreana.  A história é fictícia, bem contada, bem escrita, bem dirigida e com bons atores.  Muitas reflexões ocorreram no decorrer da trama - tentarei passar para vocês todas as ideias e descobertas que realizei sobre mim mesma e o mundo.

Com a Netflix e outras emissoras de streaming podemos assistir produções filmo gráficas do mundo inteiro, sejam filmes, séries ou documentários - acredito ser essa uma das grandes conquistas da globalização.

Quando jovem sempre gostei de cinema, não somente os filmes da moda, os chamado filmes comerciais, mas também os filmes "de arte" - aqueles filmes que nem todo mundo aprecia; assisti muitos filmes chineses, suecos, alemães, italianos, franceses. 

Mas a experiência de assistir a uma série, uma comédia romântica de 16 episódios de aproximadamente uma hora e meia cada um, da Coreia do Sul, foi além, muito além de qualquer expectativa.

As surpresas, as descobertas e as reflexões que foram aparecendo enquanto via a série foram incríveis.

Quando vejo um filme estrangeiro gosto de assisti-lo na língua original com legendas em português.  Alguns de meus amigos preferem assistir a filmes dublados em português - eles não tem ideia do que perdem ao fazer isso - perdem toda a estrutura da cultura do país.  O idioma, sua melodia, seu ritmo, as expressões faciais conjugadas com a língua trazem toda uma riqueza e aprendizado que obtemos dos outros povos.  Podemos até aprender muitas palavras de outros idiomas. Através da língua entendemos melhor suas expressões corporais e assim compreendemos melhor suas vidas, seus ambientes e seus comportamentos.

A série me foi indicada por uma amiga que conhece razoavelmente minhas preferências de filmes.  A história se passa nos dias atuais quando uma sul-coreana praticando parapente para experimentar uma roupa para esse esporte, de sua própria grife, acaba "caindo" na Coreia do Norte, por conta de um tufão na região.  Bem, aí a trama começa a se desenrolar quando um capitão do exército norte-coreano a encontra.  Por conta desse acidente, ela fica uns dois meses lá, conhece pessoas de lá e passa a "morar" na vila militar da região.  Eles, ela e o capitão do exército, se apaixonam mas ela consegue voltar para casa, para a Coreia do Sul.  A outra metade da série é passada na Coreia do Sul quando ele vai para lá escondido para salvá-la de um possível atentado contra sua vida.

Bem, obviamente não relatarei toda a história e compartilharei com vocês as minhas impressões.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o contraste da vida cotidiana das duas Coreias - a do Sul, capitalista e a do Norte, comunista.  A primeira com cidadãos livres, bastante consumista (demais para meu gosto), parecida com qualquer cidade capitalista que conhecemos.  A segunda, com cidadãos "contidos", ninguém entra e ninguém sai do país sem autorização do governo.  Bem, em realidade, a Coreia do Norte é tão fechada que nós realmente não temos muita ideia de como é a vida deles.  Acredito que os sul-coreanos, pela proximidade geográfica, devem ter mais ideia disso, embora talvez na série,  eles tenham exagerado na situações vividas pela personagem quando esteve "prisioneira" lá.

Na história foi comentado que haviam sotaques diferentes; detectava-se de qual Coreia cada pessoa "pertencia" por causa dos sotaques diferentes. Assim, quis entender melhor a divisão da Coreia, quando ocorreu e o porquê da mesma.  Então, trago para vocês algumas informações gerais que compilei da Internet - Wikipédia.

"A divisão da Coreia em Coreia do Norte e Coreia do Sul resulta da vitória dos aliados na II Guerra Mundial de 1945, terminando o domínio colonial de 35 anos do Japão na Coreia.  Em uma proposta que obteve a oposição de quase todos os coreanos, os Estados Unidos e a União Soviética concordaram em ocupar temporariamente o país com uma tutela com a zona demarcada de controle ao longo do paralelo 38.  O objetivo desta tutela foi o de estabelecer um governo coreano provisório, que viria a ser "livre e independente no devido tempo".  Embora as eleições fossem agendadas, as duas superpotências apoiaram líderes diferentes e dois estados foram estabelecidos de forma eficaz, cada qual reclamando a soberania sobre toda a península coreana.

A Guerra da Coreia (1950) deixou as duas Coreias separadas pela Zona Desmilitarizada Coreana, mantendo-se tecnicamente em guerra durante a Guerra Fria até os dias atuais.  A Coreia do Norte é um Estado socialista, muitas vezes descrito como stalinista e isolacionista.  Sua economia inicialmente teve um crescimento substancial, mas entrou em colapso na década de 1990, ao contrário do seu vizinho socialista - China.  A Coreia do Sul surgiu após décadas de regime autoritário, como uma democracia liberal capitalista, com uma das maiores economias do mundo.

Desde a década de 1990, os sul-coreanos com administrações progressivamente liberais, assim como a morte do fundador norte-coreano Kim Li-Sung, os dois lados deram pequenos passos no sentido simbólico de uma possível reunificação coreana."

Depois dessa informação histórica, relato outra coisa que descobri - achei curioso um detalhe: achava que não saberia quem era quem na história pela semelhança entre os coreanos/orientais.  Esse é um dos nossos preconceitos.  Achamos todos parecidos...  Entretanto isso não é real - depois do quarto ou quinto episódio você já se familiariza com os personagens e sim, eles são diferentes.  Em realidade, nem sei se todas as pessoas ocidentais têm essa impressão - eu tinha...

Outra particularidade que me chamou a atenção é a sensibilidade dos personagens - é uma história romântica onde há lágrimas, dores, partidas e as expressões faciais de todos eram muito coerentes.  Também tinha a impressão (ou melhor, o preconceito) de achá-los frios, com pouca expressão corporal, mas outra descoberta (pelo menos para mim) - em cenas engraçadas (e existem muitas), de ação, ou de tristeza, quase não havia necessidade de palavras.

No tocante às tramas familiares, também estavam retratados a inveja, o orgulho, o egoísmo, a desonra, a corrupção, a vingança.  O autor do enredo foi muito imparcial - retratou mocinhos e bandidos nos dois lados: na Coreia do Norte há pessoas boas e na Coreia do Sul há pessoas más - como qualquer lugar do planeta.

Em suma, é uma bela série que eles denominaram de comédia romântica e que traz de volta o cinema antigo - sem cenas de sexo irrelevantes, uma violência coerente com o enredo (não gratuita e sem exageros) e uma história, embora fictícia, passível de acontecer na vida real.

Não quero esquecer de mencionar a trilha sonora - muito boa, embora não entenda a letra das canções.  Há também uma música instrumental que o protagonista principal toca na série - muito bonita - já a coloquei no toque do meu celular.

O final da história, o qual não irei contar, não me deixou satisfeita mas, de quebra trouxe mais um ensinamento - a de que a vida é uma aventura extraordinária onde o momento presente deve ser valorizado, sabendo que o futuro será cheio de novas e encantadoras surpresas - basta acreditar e aceitá-lo como vier.

Para mim, essa série, além de muito boa, trouxe autoconhecimento.

E aí, bora assistir a série?

Boa semana a todos.






 






 




terça-feira, 6 de julho de 2021

A RAPOSA E AS UVAS

 Caros amigos,

Hoje é dia de mais uma fábula.  Vamos à ela.

"Contam que certa raposa astuta, quase morta de fome, sem eira nem beira, andando à caça de manhã, passou por uma parreira carregada de cachos de uva bem maduros, todos pendentes na grade que oferecia suporte à videira.

Mas eles estavam altos demais e a raposa não podia alcançá-los.  De bom grado ela os trituraria, mas sem lhes poder tocar disse:

- Estão verdes... já vi que são azedas e duras.  Só os cães podem pegá-las.

E foi embora a raposa, deixando para trás os cachos de uva, madurinhos e doces, prontos para quem por ali passasse e pudesse alcançá-los."

Essa fábula de La Fontaine é bastante conhecida e muitas vezes mencionada em situações do dia a dia quando fazemos uso de uma mentira para aplacar uma angústia interna.

Na história, num primeiro momento, a raposa avista um alimento que pode saciar sua fome, depois faz várias tentativas para alcançar as uvas (objeto de seu desejo).  Quando, exausta, percebe que não irá conseguir alcançá-las, uma atmosfera de incapacidade começa a delinear-se em sua mente.

No início, a busca pelo alimento estava ligada ao seu "estado físico" (o saciar a fome como necessidade biológica), entretanto, depois do ocorrido (suas infrutíferas tentativas de alcançar as uvas), ela começa a sentir algo diferente - frustração. Então, ela pensa, reflete sobre o seu fracasso, percebe que não pode realizar tudo o que deseja, é um ser limitado, mas não quer ser considerada falida ou derrotada.  Nesse momento, também percorre pelo seu íntimo um sentimento de desestima e rejeição a si mesma, percebe a sua pequenez perante a realidade dos fatos da vida.  E, pensa: "Que futuro me espera daí em diante?" Como fazer uso da razão para aceitar a si e aos fatos sem contradizer a realidade? Se fizer isto estará sendo incoerente, estará em jogo a falta de nexo ou de lógica...

Nesse momento, ocorre o inesperado: ela conta uma mentira para si mesma, engana si própria. "Estão verdes... já vi que são azedas e duras.  Só os cães podem pegá-las."  Como seu sistema mental não podia aceitar a derrota, o fracasso, ele precisou adaptar-se de maneira "positiva" à dura e frustrante realidade; a raposa deu a si uma vantagem e mentiu para si mesma.  Sua conclusão sobre a condição das uvas não condiz com a realidade, entretanto salva a estrutura íntima da raposa.

Então, ela parte dali, em busca de outro tipo de alimento, com sua angústia interna aplacada, não dá continuidade a seus pensamentos e sentimentos internos (que ela considera negativos - fracasso, derrota) e desiste da crise existencial que poderia provocar reflexões e mudanças em sua vida.

O mecanismo do qual ela faz uso é o da racionalização.  Este mecanismo de defesa permite a negação dos reais motivos de uma situação, escondendo as sensações desagradáveis que vivenciamos com justificativas equivalentes ou histórias semelhantes.

A racionalização é o processo de encontrar motivos aceitáveis para pensamentos e ações inaceitáveis.  Esse termo foi criado por Freud.  William James, outro teórico da psicologia fala de sentimento de racionalidade. "A racionalização envolve o processo de desejo e a procura da razão para justificar um ato cometido por outras razões, na maioria das vezes, irracionais.  O Sentimento de racionalidade é a carga emocional que emerge do relacionamento com uma ideia antes que nos mobilizemos para aceitá-la ou não". (Teorias da Personalidade - James Fadiman, Robert Frager, 1976).

Lembremo-nos de que todo mecanismo de defesa do ego possui duas características comuns:

a) Nega, falsifica ou distorce a realidade;

b) Opera inconscientemente, ou seja, a pessoa não tem consciência do que está ocorrendo. (Teorias da Personalidade, C.S.Hall e G. Lindzey, 1973).

Assim como a raposa, nós também buscamos acalmar nosso íntimo com falsas razões que consideramos "boas razões"; criamos "explicações" para justificar nossos fracassos e frustrações.

Um dos bons exemplos de racionalização é a maledicência onde a desculpa é a de que todos fazem isso e pior, os outros também falam mal de nós, então... A racionalização está na afirmação de que quando falamos dos defeitos alheios estamos apenas analisando suas personalidades como se conhecêssemos suas vidas na íntegra e melhor, com se fôssemos profundos conhecedores da psicologia humana. A desculpa da "análise" da personalidade humana, para alguns, é impedir que se cometam os mesmos erros.  Em verdade, desvalorizamos ou difamamos as pessoas para nos sentirmos melhores, mais eficientes, mais superiores ou capazes perante os outros.  Esta é a verdadeira intenção inconsciente dos maledicentes.  O que deve ser realmente analisado e observado nesta situação é de que em muitas circunstâncias, temos exatamente as mesmas qualidades negativas que observamos nos outros - é a famosa projeção, relatada num texto anterior.

Em sã consciência, quem pode realmente emitir julgamentos sobre alguém? Como apontar ciscos nos olhos dos outros com uma trave nos próprios olhos? Como se pode atirar pedras quando se está carregado de "pecados" (imperfeições)?

Será que quando falamos mal ou bem de uma pessoa, esta não recebe os eflúvios das vibrações de nossas palavras, sentimentos ou pensamentos? Cientificamente a sintonia, as vibrações à distância já foram estudadas.  Assim, se forem palavras de crítica destrutiva, esta pessoa não sentir-se-ia mal? Não sentiria ela um mal estar, uma leve indisposição, uma tontura, ou como diria Luke Skywalker de "Guerra nas Estrelas", um abalo na força?

E se forem palavras de crítica construtiva, palavras positivas, ela também não sentiria as vibrações de amor, de caridade, de benevolência e portanto, sentir-se-ia bem, com disposição e uma sensação de paz e bem estar? O pensamento é vida e neste caso tanto o falar quanto o pensar tem o mesmo peso, pois são vibrações.

São facetas da maledicência: a denúncia caluniosa, a crítica mordaz, o comentário malicioso, o falar mal, a interpretação pejorativa, o julgamento falso, a suspeita comprometedora.  Atualmente é difícil não cair nas malhas deste desvio moral, mas tratemos de nos esforçar em ampliar os recursos da caridade para com o nosso próximo e mantenhamo-nos silentes quando não pudermos valorizar, pela palavra, ato ou pensamento, as ações no bem que podemos realizar, porque o mal não merece comentário em tempo algum.

Agora, falemos um pouco mais sobre a Frustração.  No dicionário Aurélio, Frustração é o estado de quem, por ausência de um objeto ou por um obstáculo externo ou interno, é privado da satisfação dum desejo ou necessidade.  A ideia inicial é compreendermos que tipo de desejos ou necessidades que não são satisfeitos.  Hammed vai mais fundo nesta questão e afirma que quando estabelecemos altos padrões e metas existenciais elevadas ao mais algo grau, mas não estamos preparados para aceitar serenamente resultados que não vão de encontro imediato ao objetivo desejado, sentimo-nos frustrados, e nesta frustração nossa autoestima se rebaixa e podemos apresentar depressão, tristeza, raiva.  Então, sentimo-nos impotentes - essa é a única realidade; os outros sentimentos que nos acometem são exatamente fruto de nossa não aceitação da realidade.

Para identificarmos melhor a sensação de frustração, ilustremos com dois exemplos.

Um milionário de Nova York toma conhecimento de um leilão de arte em Londres.  Ele pretende adquirir um quadro que lhe traz muito bem estar e satisfação quando o admira.  Quando vai tomar o avião para Londres, cai uma nevasca, o aeroporto é fechado, ele é impossibilitado de ir ao leilão e o quadro é adquirido por outro comprador.  Então o milionário, embora tendo todas as condições para satisfazer seu desejo, é bloqueado por um problema climático, e sente-se frustrado.

No segundo exemplo, tomemos uma mulher de 25 anos, solteira que está interessada num rapaz que conheceu superficialmente numa festa.  Numa festa seguinte em que é convidada, ele aparece lá com uma namorada.  Então, ela, que tinha o desejo de começar um relacionamento com ele, sente-se frustrada de não ter o seu desejo realizado.

Com estes dois exemplos descritos façamos uma projeção futura e imaginemos que tipos de atitudes posteriores poderiam advir dessas duas situações frustrantes.

No primeiro caso, se ele não aceitasse com serenidade a perda do objeto desejado, no caso, o quadro, ele poderia tentar encontrar o comprador para adquiri-lo a qualquer preço, afinal de contas, ele é um milionário, mas ele poderia incorrer numa nova frustração.  E, se caso ainda não aceitasse que o comprador não o venderia por nenhum valor, sua raiva em não conseguir o quadro poderia levá-lo a atitudes irracionais - dá para imaginar que tipo de atitudes!

No segundo caso, ela poderia desestruturar, com atos estratégicos, o casal de namorados para tentar ficar com ele.  Imaginemos que ela o consiga, mas descobre que ele não está interessado nela - ele não gosta dela do mesmo modo que ela gosta dele.  Nesse sentido, a frustração seria imensa e se, principalmente, ela não aceitasse este fato com serenidade, poderia continuar tentando seduzi-lo de todas as maneiras possíveis.  Em não aceitando o fato, a realidade da vida, perderia a oportunidade de crescer e evoluir.  Ficaria parada, estagnada.

A frustração nada mais é do que outra faceta do orgulho, pois só fica frustrado aquele que não aceita os percalços da vida com compreensão, serenidade e raciocínio.  É bom, saudável e correto lutarmos por nossos objetivos na vida; o que não é saudável é não aceitarmos com serenidade aquilo que não podemos mudar.  A oração da serenidade, muito usada nas reuniões de compulsivos (alcoólatras, neuróticos,  toxicômanos, etc.) se ajusta perfeitamente a essa situação: "Senhor, concedei-nos a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para aceitar aquelas que podemos, e sabedoria para distinguir umas das outras."

E assim, como já foi dito antes, a racionalização é um mecanismo de defesa do ego quando uma pessoa apresenta uma explicação com lógica e consistência ou até eticamente aceitável para uma ação, sentimento ou atitude que lhe causa sofrimento moral e com a qual ela não consegue lidar ou aceitar.  Essa explicação disfarça os reais motivos tornando o inaceitável mais aceitável.  Ilustremos novamente com os dois exemplos anteriores.

No caso do milionário, ele poderia dizer que o quadro não valia todo aquele dinheiro ou até que o quadro tinha um defeito na pintura.

No caso da moça apaixonada, ela poderia maldizer o rapaz dando-lhe características negativas, tais como "ele não era honesto, se vestia mal, tinha dentes feios, falava com a boca cheia de comida, etc."

Nosso crescimento como indivíduos no contexto social pressupõe melhorarmos nosso caráter.  Para melhorarmos nosso caráter devemos, antes de qualquer coisa, reconhecer nossos erros, nossos defeitos, sermos honestos com nós próprios.  Quando usamos da racionalização, usamos também a inteligência para negar a verdade, mentimos para nós mesmos e, portanto, somos desonestos com nós próprios. Se mentimos para nós mesmos, é fácil mentirmos para os outros também.  Se há a mentira em jogo, há uma ruptura em nosso caráter.  E, havendo esta ruptura há a dificuldade da expansão da consciência, que por sua vez causa uma desestruturação da nossa individualidade como ser humano.

Para expandirmos nossa consciência devemos integrar todos os conhecimentos adquiridos até o presente para além dos limites conhecidos.  E essa expansão traz experiências transformadoras, radicais (às vezes) e intensas no indivíduo no que diz respeito à sua visão de mundo e à sua forma de viver.

Mas para que ela ocorra, o indivíduo deve decidir-se por realizá-la, deve usar de sua vontade para iniciar o processo.  A expansão da consciência o leva ao crescimento pessoal, social e espiritual e mais que tudo, ao despertar dos potenciais inconscientes, tais como capacidades inatas, aptidões e conduzi-lo à sabedoria almejada.

Moral da história: uma desculpa, um julgamento inadequado pode ser uma forma de compensar nossos fracassos, e ao mesmo tempo trazer certo consolo para nosso ego ferido - mas, analisando realisticamente a situação, este "consolo" é a trave que colocamos em nossos olhos quando não queremos aceitar não somente nossos erros e más escolhas, mas também aquelas situações que não podem ser modificadas por nossa vontade, onde "ego ferido" é simplesmente nosso orgulho.

As racionalizações são usadas para compensar uma frustração.  É comum encontrar indivíduos que agem como a raposa: quando não conseguem, alcançar seus objetivos, acusam as circunstâncias, denigrem os projetos e desta forma diminuem a gravidade de seu insucesso.

Boas reflexões e boa semana!

Até!


 

 




 


 







 







segunda-feira, 28 de junho de 2021

INSTITUIÇÕES E REGRAS X CRIATIVIDADE MORAL

Caros amigos leitores,

O assunto de hoje foi motivado pelo novo livro de Jordan B. Peterson que comecei a ler - "Além da ordem - mais doze regras para a vida" (em tradução livre, acredito ainda não ter tradução em português).  Em sua primeira regra ele discorre sobre a importância das instituições sociais, as regras morais da sociedade e os grandes feitos da criatividade.

As ideias que ele trouxe à baila, eu nunca havia pensado.

Muitos de nós têm o hábito de denegrir a imagem de algumas instituições, principalmente as instituições públicas.  Entretanto, a maioria delas realiza um bom trabalho - muitas vezes critica-se a maneira como elas realizam suas funções, como se, aqueles que as criticam conseguissem realizar seu trabalho melhor do que os funcionários das mesmas - porém é sabido que essa não é a realidade.  O hábito, o costume, ou melhor, o vício de criticar é realizado automaticamente, sem o exame dos fatos.  Basta uma atitude delas com a qual não concordamos porque vai de encontro aos nossos interesses pessoais, para, automaticamente, julgarmos essas instituições como ineficientes, ruins ou até inúteis. Com certeza, algumas instituições servem como "cabides de empregos" como as chamamos - mas não são a maioria.

Jordan Peterson iniciou a discussão dessa nova série de regras falando das instituições e de como elas são importantes, na opinião dele, para o funcionamento da sociedade como uma entidade moralmente equilibrada.  Concordo parcialmente com ele.  Para mim quanto mais instituições, menos reflexão da parte das pessoas - um mundo cheio de muitas regras retira a nossa capacidade de fazer uso de nosso livre arbítrio, principalmente se forem regras as quais não conseguimos entender para o que elas servem, qual a sua finalidade.

Como exemplo, vamos pegar as regras de trânsito do Brasil - embora o código seja nacional, cada estado e/ou cidade faz uso dele como lhe aprouver.  Nasci e morei em São Paulo - Capital até 2011.  Em junho de 2011, meu marido e eu, nos mudamos para a capital do Paraná - Curitiba, onde residimos até hoje.  Aqui, não  dirijo por opção (ter um carro hoje é muito dispendioso).  Obviamente que as leis de trânsito deveriam ser as mesmas de São Paulo, entretanto percebemos um detalhe que é diferente - o estacionamento de carros nas calçadas.  Em São Paulo quando um veículo estaciona na calçada ele é multado de acordo com a quantidade de rodas que se encontra na calçada.  Aqui em Curitiba é livre - pode-se estacionar nas calçadas onde não há rebaixamento das mesmas, sem receber nenhuma multa.  Como não temos entrada para carros em nossa casa, para não ter nossa calçada danificada, plantamos quatro árvores (hibiscos) para evitar essa prática, pois assim que nos mudamos, os vizinhos se acostumaram a colocar os carros em nossa calçada.  Com certeza, o código de trânsito é o mesmo em todo o país, mas cada um "obedece" quando e onde lhe convém.

Esse exemplo me leva à outra ideia dessa regra de Peterson onde ele afirma: "respeite as regras, exceto quando ao segui-las você desrespeita, ignora ou mantém-se cego para um princípio moralmente elevado."  Ele traz dois exemplos, aos quais achei muito condizente com a sua informação. Os dois exemplos dizem respeito à duas atitudes de Jesus Cristo.

A primeira está no Evangelho de Lucas 2:42-52.  Jesus estava com doze anos de idade e foi juntamente com sua família para Jerusalém para as festas da Páscoa.  Ao fim das comemorações, os pais de Jesus, Maria e José, ao deixarem a cidade, Jesus não estava com eles e eles acreditaram que ele já se encontrava com o pessoal da caravana, entretanto ao buscarem-no não o encontraram.  Tiveram que voltar à cidade e o encontraram no templo, sentado em meio aos doutores em confabulação a respeito das sagradas escrituras. Quando interpelado pelos pais dizendo que ele os havia desobedecido, ele respondeu: "Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?"

A segunda atitude de Jesus está em Lucas 6:6-10.  Num sábado, Jesus entrou numa sinagoga para ensinar e havia ali um homem com a mão atrofiada. " Os escribas e os fariseus observavam-no para ver se ele o curaria no sábado, e assim encontrar com que o acusar. Ele, porém, percebeu seus pensamentos e disse ao homem da mão atrofiada: "Levanta-te e fica de pé no meio de todos." Ele se levantou e ficou de pé. Jesus lhes disse: " Eu vos pergunto se, no sábado, é permitido fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou arruiná-la." Correndo os olhos por todos eles, disse ao homem: "Estende a mão". Ele o fez, e a mão voltou ao estado normal." Para os judeus, o sábado é um dia santo, onde muitas atividades não podiam ser realizadas.

Nesses dois exemplos, Jesus "burlou" a lei estabelecida na época e usou de uma ação moralmente criativa (aliás, eu diria que Jesus sempre usou de muita criatividade moral - lembremo-nos de sua atitude no evento da tentativa de apedrejamento da mulher adúltera).

Peterson afirma: "É necessário ser disciplinado e seguir regras - fazer humildemente o que os outros fazem; mas também é necessário usar o julgamento, a visão e a realidade que guia a consciência que diz o que é certo, quando a regra sugere o contrário.  É esta habilidade para lidar com essa atitude que verdadeiramente caracteriza a personalidade desenvolvida de uma pessoa."

Os heróis das histórias fictícias que lemos ou que vemos nos filmes, possuem essa atitude.  Peterson traz também o exemplo das histórias de Harry Potter.  Harry e seus amigos, Hermione e Ron, muitas vezes desobedeciam as regras da escola Hogwarts por boas causas - tais como, ajudar um amigo com problemas ou desvendar um segredo.

"Cada regra que existe hoje no meio social foi antes um ato criativo - o de quebrar outras regras."  Para Peterson é a "interação entre as instituições sociais e os feitos e atitudes criativas que mantém o mundo equilibrado na tênue linha entre a extrema ordem e o extremo caos."

No início do texto, ao reportarmo-nos sobre as instituições lembremo-nos de que elas são úteis para o andamento da vida social, e que algumas vezes a hierarquia se faz necessária porque nenhum homem consegue realizar tudo em todos os momentos.  Outras pessoas realizam coisas melhores que nós.  Deveríamos usar de gratidão por outras pessoas poderem realizar o que não conseguimos e usar de humildade para reconhecer esse fato.

No quesito hierarquia sabemos que autoridade é necessária, entretanto esta deveria ser exercida somente por quem tem autoridade moral.

Assim, "siga as regras até onde você for capaz de ser uma pessoa exemplar naquilo que elas representam, mas quebre-as quando essas mesmas regras constituem, no momento presente, um grave impedimento para a representação de suas próprias virtudes centrais."

Quando li essa primeira regra desse novo livro de J.Peterson, tive muitas  reflexões e, como disse no início, refleti sobre ideias que nunca havia pensado e, para finalizar, trago uma frase de Henry David Thoreau, grande pensador americano do século XIX, do seu texto "Desobediência Civil":

"O melhor governo é o que não governa de modo algum".

Essa reflexão fica para outro texto.

Boa semana!













 


 

quinta-feira, 24 de junho de 2021

A ANDORINHA E OS OUTROS PÁSSAROS

 Caros amigos leitores,

Primeiramente, vamos à história/fábula:

"Uma andorinha bem viajada muito aprendeu por onde andou: quem muito viu tem muita lembrança guardada.  Acabou se diferenciando dos outros pássaros: tinha uma sabedoria que os outros não tinham e desenvolvera a capacidade de prever os perigos, por menores que fossem.

Um dia, ao ver o camponês semear o cânhamo, ela sentiu o perigo que ameaçava os pássaros.  Reuniu todos e os alertou sobre a ameaça que pairava sobre eles;  as máquinas, as armadilhas, os homens querendo matá-los ou aprisioná-los em gaiolas.

Os pássaros zombaram dela dizendo que era nos campos que encontravam os alimentos.

Quando as sementes brotaram, novamente a andorinha experiente aconselhou-os:

- Arranquem broto por broto do que o maldito grão produziu, ou pagarão caro pela sua ignorância.

Os pássaros não acreditaram nas palavras da andorinha e chamaram-na, zombeteiramente, de profetisa do azar, de língua sem trave.  Mas a sábia andorinha insistia:

- Colocarão armadilhas e vocês serão presos, pois, diferentemente dos patos e das outras espécies que migram, vocês não tem condições de procurar outros mundos.  Não fiquem confusos, às tontas: recolham-se aos ninhos, ou mudem de clima.  Façam como as cegonhas: no final das contas, fujam pelo alto, por cima.  Não tentem caminhos incertos: escondam-se nalguma brecha da parede.

Os pequenos pássaros ouviam sem nada entender, assim como os troianos ouvindo a sibila prever o triste final que os aguardava.

Dito e feito: um número enorme de aves o homem encarcerou.

Só se escuta o que se acha mais conforme, e só se crê no mal quando ele já chegou."

Observação: Quando La Fontaine menciona "os troianos e a sibila", ele se refere ao evento que iniciou a invasão de Tróia pelos gregos.  Cassandra, a filha do então rei de Tróia, Príamo, que tinha o dom da profecia, alertou sobre o presente que os gregos ofereceram a Tróia - o famoso Cavalo de Tróia; ela que criou a expressão "presente de grego", mas eles não lhe deram crédito; tudo o que Cassandra dizia era verídico, mas ninguém acreditava em suas palavras.

Sibila: 1. Entre os antigos, profetiza. 2. Termo familiar: bruxa, feiticeira.

Essa fábula, entre outras coisas, fala da atenção.  No dicionário Aurélio, existem algumas definições importantes de atenção. São elas: 1. Aplicação cuidadosa da mente a alguma coisa: cuidado, concentração, reflexão, aplicação; 2. Reparo; 3. Ato(s) ou palavra(s) que demonstra(m) consideração, amabilidade, urbanidade, cortesia ou devoção a ou para com alguém; 4. Serve para advertir, recomendar cuidado, impor silêncio, etc. 5. No corpo militar é a voz de advertência que põe o soldado de sobreaviso para a ordem que virá depois.

Lembremo-nos de que estamos em constante processo de crescimento e um dos instrumentos que temos ao nosso dispor para usar nessa empreitada é a atenção. Sem atenção é difícil fazer escolhas e prever suas consequências.  Entretanto, há um mecanismo psicológico muito usado, como método de defesa do ego, quando não podemos suportar ou admitir os fatores e resultados de um fato ou acontecimento.  Isso quer dizer que tudo o que possa desorganizar nossa autoestima ou até ser inadequado ao nosso modo de pensar ou sentir é desviado de nossa atenção.  Esse mecanismo de defesa do Ego é chamado de desatenção seletiva - só vemos o que queremos ver.

A atenção possui algumas funções.  São elas:

1. Atenção seletiva - é quando o indivíduo escolhe prestar atenção a alguns estímulos e ignorar outros;

2. Vigilância - é quando o indivíduo se mantém alerta e concentrado e espera detectar o surgimento de algo ou algum estímulo específico:

3. Sondagem - é quando o indivíduo metódica e ativamente busca descobrir algo através de exame e observação minuciosos.

Todas as vezes que queremos compreender algo a fundo ou analisar o significado de alguma coisa caminhamos para um processo de atenção seletiva e/ou desatenção seletiva, ou seja, ainda algumas percepções escapam de nossa "visão" porque não é possível captar todas as nuances de um objeto ou situação porque "nem tudo o que se olha e o que se quer ou se pode ver".

Por incrível que pareça só vemos, percebemos aquilo que estamos habituados.

Muitos historiadores contemporâneos relatam que à época do descobrimento da América, quando as caravelas de Colombo aportaram na nova terra, os indígenas da região, a princípio não teriam visto as naus porque não estavam acostumados àquela visão, porque nunca haviam visto tais embarcações e só depois de um tempo, pouco a pouco foram percebendo os traços daqueles objetos imensos para depois poder vê-los por completo.  Isso prova que todos precisamos estar alertas para "ver até o que não queremos ver".

A atenção pode ser consciente e inconsciente - é o fenômeno através do qual processamos certa quantia de informações.  Inconscientemente, a atenção está ligada diretamente com a intuição e o discernimento.  Mas, muitos homens, assim como os pássaros da fábula, desprezam essas suas capacidades.  São pessoas dispersivas onde lhes falta concentração e atenção para si mesmos - são imaturos, comportam-se como crianças e pior de tudo, tratam com desprezo e descaso aquelas outras pessoas que conseguem ir mais além e realmente, ver.

Atualmente, esse tipo de pessoa parece existir em maior número.  são pessoas consumistas onde falta a reflexão, atentam apenas para algo imediatista, procurando aquilo que oferece vantagem rápida, vivendo a seu bel-prazer, sem considerar as consequências futuras.  A melhor frase da fábula para este tipo de pessoa é "só se escuta o que se acha mais conforme, e só crê no mal quando ele já chegou."

Talvez seja por este motivo que usamos em grande escala, no dia-a-dia, expressões combinadas com a palavra atenção.  São elas:

- "chamar a atenção": muito usada nas escolas, pois as crianças são facilmente distraídas por outras coisas.  Na realidade, a escola, algumas matérias, alguns professores são maçantes e entediantes...

- "dar ou prestar atenção": além das escolas, expressões usadas também no cotidiano, no tráfego, em algumas fábricas, quando se ministra uma palestra ou aula e queremos que a pessoa "preste atenção" em determinado assunto ou detalhe específico importante.

- "em atenção à": em cartas, memorandos, avisos onde se convoca a atenção consciente para determinada pessoa ou grupo de pessoas.

- "atenção, olhe!": este é um aviso onde nosso consciente é acordado, alertando para algo muito importante, caso onde, se atenção não for dada pode ocorrer um acidente ou um infortúnio; em fábricas, na rua, perto de construções, em cruzamentos de linhas de trem, no ônibus, no metrô, etc.

- "atenção flutuante": expressão usada quando nos referimos a pessoas que não conseguem ter total concentração num determinado assunto, a atenção fica desorganizada e elas perdem parte do que está sendo explicado ou apresentado.

Essas expressões também denotam que uma ou duas palavras são mais significativas para o que se deseja alcançar ou mostrar do que frases maiores.  Por exemplo, se existe um cartaz afixado com os dizeres "atenção, olhe!" perto de um cruzamento de ruas é mais significativo do que as palavras "atenção, olhe para os dois lados da rua porque podem vir outros carros e você terá que aguardá-los passarem para então poder cruzar a rua."  E se houver apenas a palavra atenção é mais eficaz, porque a pessoa colocará todo o seu consciente em estado de alerta e concentrar-se-á naquilo que deverá realizar.

Como bem diz Hammed "a atenção é a bússola que determina a direção que nossos atos e atitudes vão tomar".  Como crescer e mudar comportamentos sem prestar atenção aos nossos atos e atitudes do dia-a-dia? Quando damos atenção àquilo que nos cerca estruturamos seletivamente nossa maneira de pensar, de julgar, de analisar, de imaginar e de formar opiniões e pontos de vista perante a vida.

A atenção possui características próprias:

a) Monitorar interações com o ambiente;

b) Interligar memórias com a sensação do momento, o seja, interligar o passado com o presente;

c) Planejar e controlar futuras ações baseado nas informações armazenadas pelas duas características anteriores.

Para viver uma vida harmônica é de suma importância escolher com cuidado para onde direcionar a atenção.  A existência é constituída por diminutas atenções do dia-a-dia e, consequentemente, a soma delas é que determina as nossas escolhas.  Para compreender como isso é importante, imaginemos estar caminhando por uma rua onde de um lado há árvores frondosas, flores, pássaros, casas bonitas e bem cuidadas, bem pintadas e algumas pessoas alegres, calmas e sorridentes e, do outro lado da rua há casas mal cuidadas, sujas, cães latindo ruidosamente, bares, música em alto tom e pessoas brigando em altos brados.  O resto do seu dia-a-dia dependerá de sua atenção voltada para o lado da rua que você escolher.  Bem, não é necessário explicar mais nada; o resto é fácil de concluir.

Um dos objetivos do texto de hoje é orientar sobre como fazer bom uso da atenção.  Ela ocorre diariamente, inconscientemente, queiramos ou não. É natural e não há como evitar, mas dá para treiná-la, educá-la a nosso favor.

Assim é que através da análise das nossas escolhas do presente, deduzimos as implicações e comprometimentos que podem ocorrer no futuro.  Essas escolhas sempre darão a nós um grande leque de opções pois podemos:

a) Prestar atenção aos obstáculos e vê-los como oportunidades a serem vencidas;

b) Prestar atenção aos conflitos e distingui-los como uma superação de dificuldades emocionais;

c) Prestar atenção aos sofrimentos e percebê-los como situações onde distinguimos ou determinamos limites de nossos excessos e carências.

O que diferencia homens e mulheres tranquilas e em paz daquelas criaturas infelizes, exaustas e desequilibradas é a seleção consciente das atividades, situações ou pessoas aos quais a atenção é dedicada.  Não podemos negar que diariamente somos compelidos em direção a uma grande quantidade de solicitações que geram intenso comprometimento pessoal.  Afinal de contas, colhemos o que plantamos.  Outrossim, se somos colocados frente a frente às situações aquém de nossa vontade, isso não significa que não temos o poder de dosar a intensidade de nossa atenção nesta ou naquela situação.  Se a situação for importante e trouxer bons resultados, a intensidade da atenção, da concentração será maior que uma situação que só trará desequilíbrio, aborrecimento, sem grande ganho para nós.

Outro ponto importante a considerar é que atualmente abraçamos muitas coisas ao mesmo tempo, e por este motivo a atenção é superficial e flutuante.  A ideia é dar atenção total a um número razoavelmente reduzido de atividades e pessoas - nesse sentido a concentração seria mais intensa e profunda.  A atenção total ao presente é o que enriquece nossa vida e nos faz crescer.  "Não podemos ser tudo para todos em todos os lugares... mas o importante é termos a consciência de ser alguém em nosso próprio lugar..."

Hammed lembrou nessa fábula das palavras do Cristo: "Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração" (Mateus, 6:2), onde poderíamos substituir a palavra tesouro por atenção: "Porque onde estiver tua atenção, aí estará também o teu coração."

As escolhas que realizamos na vida são, sem sombra de dúvida, parte de nosso cotidiano.  Portanto, fazendo uso de nosso livre-arbítrio podemos escolher como viveremos nossos dias.  Dependendo de nossas escolhas podemos eliminar ou concretizar um sonho; optar por coisas adequadas que a vida nos oferece ou nos fixar nas dificuldades que acreditamos ter pela frente; olhar para o copo preenchido pela metade de água à nossa frente e considerá-lo quase cheio ou quase vazio; eleger como trataremos as pessoas e como deixaremos que elas nos tratem.  Através da seleção consciente das prioridades de nossa vida podemos escolher e "desescolher" a todo momento.

Para haver uma clara e sensata análise das situações e pessoas que nos cercam é imprescindível que possamos manter nossa mente aberta. O discernimento e o bom senso andam de mãos juntas e são considerados a luz que vem da alma. Quem faz uso deles como guia interno não se perde nas estradas da vida.  Aqueles que quiserem aprender a utilizar-se deles não poderão usar de impulsividade e precipitação na conclusão de ideias como absolutas - pelo contrário, deverão observar essas ideias de modo relativo, por todos os ângulos possíveis antes de chegar a qualquer conclusão ou definição.  Para o discernimento cumprir fielmente o seu papel, ele deverá vir acompanhado de paciência, tolerância, compreensão, raciocínio e amor.

Para finalizar acrescento que quanto mais a mente se abre, mais o indivíduo estará atento para a verdade de sua missão nesse planeta.

Boas reflexões!

Até a próxima semana!

































quarta-feira, 16 de junho de 2021

OS DOIS ALFORGES

Caros leitores,

Vamos à história:

"Um dia, Júpiter convocou todos os animais para comparecerem diante dele, a fim de que, comparando-se com os outros, cada animal reconhecesse o próprio defeito ou a própria limitação.  Assim, Júpiter poderia corrigir as imperfeições

E os animais, um a um, elogiavam a si próprios, gabavam-se de suas qualidades e só relatavam os defeitos alheios.  O macaco, ao ser questionado se estava feliz com seu aspecto, respondeu:

- Mas claro que sim! Cabeça, tronco e membros, eu os tenho perfeitos.  Em mim, praticamente, não acho defeitos.  É pena que nem todo o mundo seja assim... - Os ursos, por exemplo, que deselegantes!

O urso veio em seguida, mas não se queixou de seu aspecto físico, até se gabou de seu porte.  Fez críticas aos elefantes; orelhas demasiadamente grandes; caudas insignificantes.  Animais grandalhões, sem graça e beleza.

Já o elefante pensa o oposto e se acha encantador; porém, a natureza exagerou, para o seu gosto, quanto à gordura da baleia.

A formiga, ao falar da larva, franze o rosto:

- Que pequenez mais triste e feia!

Assim são os homens.  É como se lhes tivessem colocado dois alforjes: no peito, o alforje com os males alheios, e nas costas, o alforje com os próprios males.  De tal modo que eles são cegos quanto aos próprios defeitos, mas enxergam com nitidez os defeitos dos outros."

No dicionário Aurélio: Alforje: - duplo saco, ligado por uma faixa no meio (por onde se dobra), formando duas bolsas iguais; usado ao ombro ou no lombo dos animais, de forma que um lado fique oposto ao outro.

Psicologicamente falando, usa-se o termo transferência ou projeção quando evitamos entrar em contato com sensações, pensamentos, impulsos ou lembranças que nos causem desconforto.

Hammed colocou os dois termos como sinônimos e eles o são, realmente na conceituação das palavras, embora em termos psicológicos transferência seja mais comumente usada como um caso particular de projeção onde se descrevem os laços inconscientes e emocionais que surgem no analisando em relação ao analista.  Então, no decorrer do texto usarei a palavra projeção.

O termo projeção foi usado primeiramente por Freud, depois foi usado por outros teóricos da psicologia, mas Jung descreveu-o através de exemplos do cotidiano de maneira mais ampla.

A projeção é o processo automático pelo qual os conteúdos de nosso próprio inconsciente são percebidos como se estivessem nos outros.  Ele é um processo considerado automático porque todos tendemos a supor que o mundo é como nos o vemos e supomos também, de maneira ingênua, que as pessoas são aquilo que imaginamos que elas sejam.  Por isso, projetamos em tudo que nos circunda (lugares, pessoas, objetos) todos os conteúdos do nosso inconsciente.  Em primeira instância este é um fator positivo, pois facilita os relacionamentos interpessoais.  Quando supomos que uma pessoa possua determinada característica ou qualidade e, depois de um tempo de convivência com ela, constatamos que a suposição inicial estava errada, ou seja, ela, na realidade, não possui tal característica ou qualidade, surge a oportunidade de aprendermos algo sobre nós mesmos.  Este é o momento de retirar ou dissolver as projeções.

Antes de continuar nesta linha de raciocínio gostaria de lembrar que as projeções não são processos conscientes. Nós nos defrontamos com elas; elas não são criadas por nós.  A razão para sua existência é sempre (para Jung) um inconsciente ativado em busca de expressão.  Se a pessoa é consciente de si e do mundo não há necessidade de projeção.  Mas não há neste mundo um único indivíduo totalmente consciente.  Aquele que o fora, foi Jesus.

A projeção então surge como uma oportunidade de autoconhecimento.  Com coragem, paciência, perseverança podemos conhecer nossas características e qualidades e transformá-las.

As projeções existirão enquanto o indivíduo usá-las como pontes agradáveis e convenientes para interagir com o mundo e dessa maneira, aliviarão o fardo da vida de modo positivo.  Entretanto, assim que o indivíduo perceba a realidade, tanto de si como do outro, a projeção perde a sua função - ela deverá ser retirada ou até dissolvida. Do contrário atuará como um impedimento para o crescimento pessoal.

Uma das percepções da necessidade da retirada das projeções é a indicação de expectativas frustradas nos relacionamentos, acompanhadas de reações emocionais marcadas por sintomas físicos e distúrbios no pensamento.  Mas, enquanto houver uma discordância óbvia entre aquilo que imaginamos ser verdade e a realidade que se nos apresenta, não há como retirar as projeções ou mesmo falar delas.

Um exemplo típico de projeção automática é o ato de apaixonar-se.  Quanto menos conhecemos outra pessoa, mais fácil a projeção nela de nossos aspectos inconscientes.

Entretanto, a recusa de nosso mundo íntimo, a não aceitação de nossas características de como elas realmente são, a projeção de nossas ações e emoções nos outros, agindo como se elas não nos pertencessem pode-se tornar um hábito, um modo de vida.  Todos conhecem indivíduos que colocam a culpa em tudo e todos, isentando-se da responsabilidade de seus próprios atos.  Alguns destes indivíduos são amargos, outros são inconsequentes, outros despreocupados com o futuro, mas todos são inconscientes; possuem uma personalidade infantil, são imaturos.

Hammed discorre sobre um método para projetar nossa vida íntima em outra pessoa.  Ele descreve duas etapas: a negação e o deslocamento.

A negação, como a palavra já o diz, consiste em negarmos certos sentimentos ou pensamentos, ou seja, não os aceitamos como sendo nossos; quando temos dificuldade de ver, de interagir com a realidade: quando nos recusamos a aceitar as coisas como elas são. Então deslocamos (deslocamento) nossos sentimentos e pensamentos para o mundo externo.

O deslocamento é um mecanismo psicológico de defesa onde a pessoa substitui, desloca a finalidade inicial de um impulso por outra diferente e que seja socialmente mais aceita e menos desastrosa.  Por exemplo, numa discussão, o desejo de uma pessoa é o de agredir fisicamente a outra pessoa, mas acaba esbarrando "inadvertidamente" numa garrafa e esta se quebra no chão.  O impulso inicial (e real) foi deslocado impetuosamente para a garrafa.  Esse comportamento ocorre inconscientemente.

Outro tipo de deslocamento é quando uma ideia ou vivência é colocada simbolicamente na mente por outra ideia ou vivência onde as duas estejam emocionalmente associadas.  Por exemplo: um indivíduo teve uma experiência de trabalho desagradável com um determinado chefe no passado e reage, no presente, com medo, desprezo ou aversão por todos os outros chefes futuros.  Quando é consciente, o deslocamento, na maioria das vezes, não ocorre.

Vamos a outro exemplo: suponhamos que tivéssemos um desentendimento com uma pessoa no que diz respeito à divergência de opiniões em determinado assunto e por causa disso desenvolvêssemos certa antipatia por ela.  Com o passar do tempo julgamos já ter superado esta fase e consideramos este episódio como passado.  Entretanto, começamos a perceber que esta pessoa passou a ter uma antipatia e aversão por nós.  Na realidade, o incidente não foi bem resolvido e projetamos inconscientemente esta emoção nesta pessoa, porque continuamos a ter sentimentos negativos em relação a ela.  Esta é uma maneira de não aceitar nossas características negativas e projetá-las em outras pessoas.  "Nós somos bons e perdoamos, mas os outros são maus, rancorosos e não perdoam."

"Assim são os homens.  É como se lhes tivessem colocado dois alforjes: no peito, o alforje com os males alheios, e nas costas, o alforje com os próprios males: De tal modo que eles são cegos quanto aos próprios defeitos, mas enxergam com nitidez os defeitos dos outros."

Todos nós conhecemos indivíduos desta estirpe: atentam para o cisco no olho do vizinho, ao invés de se dedicarem a conscientizar-se de suas próprias fraquezas e por causa desta atitude aumentam a trave que lhes obnubila a visão de seu próprio mundo interno.

Quando mentimos conscientemente causamos menos danos para nosso crescimento pessoal do que quando mentimos para nós mesmos; as mentiras que projetamos são mais prejudiciais do que aquelas que verbalizamos.

Jung também se utilizou do termo Persona, termo usado no teatro grego que significava a máscara usada pelos atores para indicar o papel que desempenhavam. De início, a máscara serve como uma adaptação ao mundo externo e pode, como foi dito antes, ser uma conveniência pessoal.  Em verdade, a civilização depende da interação entre as pessoas realizadas através da persona, pois apresentamos ao mundo exterior frequentemente, os aspectos ideais de nós mesmos para manter uma polidez e uma relativa harmonia.

Todavia, neste aspecto particular, onde buscamos a melhoria de nossas personalidades e uma maior conscientização de nossas vidas, não podemos nos utilizar de "máscaras", pois elas turvam nossa verdadeira realidade interior, fazendo com que vivamos ilusões, e adotemos um "papel" que não é verdadeiro.

Como vivemos em sociedade algumas regras de conduta devem ser seguidas para, como foi dito acima, manter uma harmonia relativa.  Então quando nossas reinvindicações (exigências) internas não são admitidas (por nós mesmos ou pelos outros) ou quando são opostas àquelas que estão sendo solicitadas pelo mundo externo, inconscientemente projetamos e interpretamos papéis.

O processo todo se dá em nível inconsciente - projetamos e interpretamos "papéis" quando nossas exigências internas que, na maioria das vezes estão carregadas de emoções fortes, impulsivas e irracionais, entram em conflito com as regras e normas da sociedade.  Então o processo passa da consciência para a inconsciência.

Será que realmente somos verdadeiros atores no palco da vida? Reflitamos sobre algumas situações da vida.  Será que somos verdadeiros para nós mesmos quando nos colocamos diante de alguém como sendo mais do que somos? Quando nos mostramos alegres, quando na realidade estamos tristes? Quando escondemos e mantemos em segredo tudo o que mais queremos e desejamos? Quando fingimos um amor ou um desinteresse que não sentimos? Quando aparentamos uma frieza ou uma força que não temos? Ou até quando nos associamos a grupos de caráter social, político, religioso, cultural, recreativo, etc., para obter benesses que não merecemos, recebendo reconhecimento e elogios?

Para nossa evolução cultural, social, intelectual, espiritual há que se ter coerência, ou seja, o nosso eu, ou como chamou Jung, o nosso Self (Si mesmo) deve estar numa relação equilibrada entre o que sentimos e pensamos e o que vivemos.

Por que então falsificamos nossa realidade? Qual nosso ganho com essa atitude? Medo do que outros irão achar se formos nós mesmos? Frustração se descobrirmos coisas a nosso respeito de que não gostamos ou até não aprovamos? Respostas a essas perguntas não são fáceis de encontrar, entretanto saibamos agora de que quando distorcemos nossa realidade, danificamos nossa própria intimidade e vivemos toda uma vida com uma sensação de angústia de sermos uma fraude, com o agravante do receio de um dia descobrirem quem realmente somos.  Tenhamos a coragem de tirar a máscara agora e encarar nossa vida com alegria.

Quando imbuídos da certeza de uma vida mais plena no futuro, caminhamos mais plenamente dentro de nosso autoconhecimento, tornamo-nos mais maduros social e espiritualmente para então iluminar não apenas as áreas externas de nossa vida, mas também as internas.  Então, quando olhamos além dos olhos físicos, quando deixamos de ter uma visão parcial ou incompleta da vida, deixamos de projetar continuamente.

O ponto básico do problema da projeção está na compensação da falta de não termos consciência do que somos, do que queremos e por isso ansiamos ser ou possuir algo que não é real.

Termino com uma frase de La Rochefocauld: "Deploramos com facilidade os defeitos alheios, mas raramente nos servimos deles para corrigir os nossos."

Até semana que vem!





 



 



















FELIZ ANIVERSÁRIO!

Olá leitores, Dia 17 de setembro último o blog Refletindo completou 6 anos de existência.  Não sei se isso é um sucesso ou um exercício de d...