sexta-feira, 17 de maio de 2024

A MÁGOA COMO COMBUSTÍVEL PARA A ANTIPATIA

Olá leitores,

Para melhor entendimento do tema de hoje, será interessante destacar os dois vocábulos, suas declinações e suas definições contidas no dicionário Aurélio.

Mágoa: Desgosto, amargura, tristeza; sentimento ou impressão desagradável causada por ofensa ou desconsideração; descontentamento; desagrado.

Magoado: Melindrado, ofendido, suscetibilizado; aflito, contristado; dolorido, lastimoso.

Magoar: Melindrar, ofender, suscetibilizar; afligir, contristar, melindrar; provocar mágoa.

Antipatia: Aversão espontânea e instintiva; repugnância.

Antipático: Que inspira antipatia; que sente antipatia; contrário; adverso; discordante.

Antipatizar: Ter ou sentir antipatia.

Com essas definições em mente, façamos agora um exercício de imaginação sobre a seguinte situação.

Numa discussão coloquial, devido a uma discordância ou a uma ofensa, a relação de duas pessoas é rompida.  Desse rompimento resta uma energia ruim.  Por causa disso, futuramente, todas as vezes que um dos lados ouve ou fica sabendo algo de bom e positivo que ocorre com o outro lado, será mal recebido, mal interpretado por este.  Haverá desgosto de saber que o outro está bem, que ele continuou a caminhar, melhorou, está progredindo ou até obteve vitórias em sua vida.

Esse sentimento tóxico é a antipatia - mesmo não vendo ou convivendo com essa pessoa, esse sentimento nos desgasta.  A mágoa sustenta, alimenta, é o combustível para a antipatia.

Muitas vezes antipatizamos com algumas pessoas que encontramos e vice-e-e-versa.  Nesse caso, elas trazem em suas personalidades características nossas que desconhecemos em nós e não gostamos.

Antes de trazer sugestões para resolver o problema da mágoa, tentemos compreender qual ou quais as funções dela em nossa vida emocional ou psíquica.  Vale lembrar que a frustração, o ódio, o orgulho, a inveja e aqueles sentimentos culturalmente considerados negativos, somente podem ser considerados tóxicos quando não sabemos quais as suas funções dentro de nós. Há de se buscar educação emocional, através do processo de conscientização, para entender ao que eles vieram.

A principal função da mágoa é nos revelar que existe algo em nós difícil de aceitar. A maior revelação dessa função é sobre como sempre idealizamos as pessoas esperando demais delas ou sobre como idealizamos o mundo e suas leis.  Esse é o aprendizado principal quando nos magoamos - devemos diminuir as expectativas que mantemos em níveis muito altos, inclusive em relação ao ofensor.

Outro aprendizado trazido pela mágoa é a nossa impossibilidade de dizer não quando necessário - quando isso ocorre, aumentamos os riscos de manipulação e abuso em nossos relacionamentos.

A ofensa é algo muito dolorido e difícil de tratar.  Sensatamente temos que acreditar que ela existe por um motivo - motivo este que deveria ser analisado e descoberto a fim de realizarmos as mudanças necessárias em nossa vida.  A mágoa geralmente só ocorre entre pessoas que são importantes em nossa vida.

Outra função da mágoa em nossa vida é buscar desiludirmo-nos sobre o que pensamos a respeito da pessoa que nos ofendeu. Ela ocorre como uma reciclagem sobre quem nos magoou.

A mágoa é um sentimento riquíssimo que nos faz viver com os pés na realidade, pois deixamos de fantasiar família, colegas, amigos, parentes e todos nossos relacionamentos.

A fim de realizarmos com mais acerto nossa maneira de extrair o melhor da mágoa em nosso benefício, podemos fazer uso de duas habilidades que podem ser exercitadas com a nossa força de vontade.

A primeira habilidade é fazer um exame de consciência, uma reflexão sobre o acontecido entre você e a pessoa que supostamente o ofendeu  - uso a palavra supostamente porque só nos ofendemos quando não aceitamos que todos podem ter direito a ter ideias diferentes da nossas.

A segunda habilidade é acolhermo-nos como seres humanos passíveis de erro, perdoando-nos.  Não podemos voltar ao passado - só poderemos trabalhar o perdão no presente.

Na Bíblia, no evangelho de Mateus 5:25, Jesus sugere: "Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão."

Podemos interpretar dessa maneira: O adversário, o inimigo com o qual necessitamos a nos conciliar nos momentos conflitantes de uma relação é o nosso próprio coração, nosso mundo emocional. Quando não há essa conciliação, o juiz ao qual nosso coração, nosso mundo emocional nos entrega é o egoísmo e este nos entrega ao oficial implacável da mágoa que nos encarcera na prisão mental/psíquica da ofensa e da vingança.

Assim, quando não percebemos os alertas, as lições da mágoa, nos encarceramos literalmente nas teias do desequilíbrio e da antipatia.

Quando perdoamos somos os primeiros beneficiários deste ato.  Limpemos nosso coração para enxergar a beleza que a vida quer nos mostrar em relação ao futuro.

"Os piores inimigos não estão lá fora.  Vivem dentro de você."

Boa reflexão!

 



 

quarta-feira, 8 de maio de 2024

POR DENTRO DOS X FILES

Olá leitores,

O texto de hoje é de autoria de nosso colaborador José Tucón.

"X Files (Arquivo X) é uma série televisiva criada por Chris Carter.

Sou fã de Arquivo X desde que vi o primeiro episódio.

Arquivo X é uma sala no FBI onde estão guardados casos estranhos e sem solução ou explicação.

O responsável pelo Arquivo é o agente especial Fox Mulder, um tipo que acha que muitos dos casos arquivados teriam explicação se admitirmos a visita de extraterrestres à Terra, bem como o fato deles terem aliados aqui no planeta.

Logo no começo da série os superiores de Mulder designam a agente especial Dana Scully para trabalhar com ele.

Na verdade essa designação ocorre porque a verdadeira missão de Scully é tentar esculhambar com as ideias de Mulder e aí ficaria justificado o fechamento do Arquivo X.

E ela consegue?

Claro que não pois se conseguisse isso significaria o fim da série.

Quem é Mulder no FBI? É um especialista super competente em análise de perfil psicológico, uma ferramenta poderosa no combate ao crime.

Já que falamos em perfil, vou tentar traçar o de Mulder.

Fox Mulder tinha um pai muito rígido e uma irmã mais nova, Samantha.  Quando era pré-adolescente e sua irmã ainda criança ele presenciou a abdução da irmã durante a noite por uma luz fortíssima oriunda de uma nave extraterrestre.  A partir daí sua meta de vida passou a ser reencontrar a irmã e encontrar uma explicação para esse fato.  Já na adolescência recebeu a sugestão de um agente do FBI de estudar Psicologia pois teria um lugar no FBI e aí poderia tentar encontrar as respostas que buscava.  E foi o que aconteceu.  Foi estudar Psicologia em Oxford, na Inglaterra, onde foi um aluno brilhante.  Daí o FBI foi só um passo.

Vamos a Scully.

Dana Scully era uma estranha no ninho onde nasceu.  Era o tipo de pessoa racional, excelente aluna, disciplinada, cumpridora de metas.  Sendo assim foi uma excelente aluna de Medicina.  Tinha um raciocínio lógico e cientifico impecável.  Sempre no seu irretocável "tailleur", exímia em artes marciais e tiro, como não ser contratada pelo FBI? Foi por causa do seu raciocínio rigoroso que foi encarregada de esculhambar com Mulder. 

E assim durante a série se verifica o embate entre as visões dos dois.

Mulder tem uma meta fixa que é o reencontro com a irmã.  Na verdade para ele isto representa o reencontro com sua dimensão feminina, com sua Anima.  Com um pai muito durão, projetou sua Anima na irmã.  Essa dimensão feminina se mostra presente no seu trabalho uma vez que é um tipo de intuição muito forte.  A irmã ele não vai encontrar pois foi mesmo abduzida.  Terá que reencontrar sua Anima na plenitude dentro de si mesmo.  Por isso mesmo na sua sala há um pôster com uma foto de um disco voador com a frase: "Eu quero acreditar". Isto é uma manifestação da esperança no reencontro.

Já Scully é uma personalidade com uma dimensão masculina mais forte, com um Animus forte.  É mais fácil no ambiente de trabalho aceitar essa característica de Scully, o pragmatismo, do que a intuição de Mulder.  Parece que Scully é mais bem sucedida no seu encontro com o Animus do que Mulder com sua Anima; isto se deve ao ambiente mais favorável ao masculino, é claro.

Mas creio que no longo prazo, Mulder será mais bem sucedido em sua viagem interior pois ele domina duas ferramentas que ajudam muito esta viagem: a intuição e a imaginação.

Entenderam porque sou fã de Arquivo X?"

P.S. Para elucidar melhor o texto: Carl Gustav Jung, psicólogo analítico, denominou Anima, a dimensão feminina que há no homem e Animus  a dimensão masculina que há na mulher.  Isso não tem absolutamente nada a ver com homossexualismo.

Boa semana!





 

sexta-feira, 3 de maio de 2024

HÁ QUANTO TEMPO TE ESPERAVA...

Caros leitores,

Durante uma limpeza em gavetas do meu escritório, encontrei esse texto que foi escrito em 20.02.1999, em São Paulo - foi escrito logo depois que reencontrei meu marido e iniciamos um relacionamento.  Depois que o reli senti que as palavras nele descritas revelam que nada é por acaso, que almas afins acabam realmente se encontrando e então desfrutam de uma vida rica de experiências, com altos e baixos (no meu caso, mais altos que baixos).  As palavras do texto, as emoções, sentimentos e pensamentos continuam os mesmos e então resolvi transcrevê-lo aqui.

O título do texto remete a um quadro que adquiri numa galeria de arte antes de nosso reencontro.  O quadro, representado aqui no final do texto de hoje tem exatamente esse título "Há quanto tempo te esperava...".  Ele foi pintado por um russo radicado no Brasil chamado Dimitri.  No quadro simbólico vemos uma "ninfa" a beira de um rio ou do mar tendo ao fundo a lua (símbolo do feminino, vênus) e um soldado grego aproximando-se num barco tendo ao fundo o sol (símbolo do masculino, marte).

Boa leitura!

"Tempo, destino, amadurecimento, maturidade.  Todas essas são palavras que requerem muita paciência, dedicação, espera, perseverança e otimismo.  O futuro, às vezes, parece incerto, mas o certo é que ele chega e só não chega nossa certeza nele.  Ele parece ter as mesmas propriedades que a felicidade de acordo com um poeta português, do qual, infelizmente, não me recordo o nome. Ele dizia que a felicidade está sempre onde nós a pomos, mas nós nunca a pomos onde nós estamos.  O futuro nunca é reconhecido como tal, pois quando ele chega ele vem com o nome de presente, o que aliás não deixa de ser verdade.  Se fizermos de nossa vida o melhor de nossas forças, com certeza o futuro chegará como uma dádiva, um perfeito presente.  Um presente que pode ser tanto uma maravilhosa surpresa cercada de magia, quanto uma decepção, onde a pessoa que se decepciona é a principal responsável pela mesma.  De qualquer maneira, o futuro chega com cara de presente mesmo para aquelas pessoas que não souberam construí-lo, pois estas devem fazer de seu presente uma dádiva dos céus.

Todo esse prólogo foi apenas para extravasar, colocar pra fora, exteriorizar, externar uma felicidade imensa que está alojada em meu coração.  E o motivo de toda essa paz de espírito, esse bem-estar é o presente que recebi na construção do meu futuro: você!

Você veio chegando de mansinho, devagarinho, veio quase materializado do nada através de uma voz ao telefone.  Aliás, eu diria que foi essa voz que foi a causadora de tamanha alegria.  Através das entrelinhas dessa voz que pude perceber a mudança, a transformação de uma pessoa muito querida que outrora fizera meu coração bater mais forte.  Felizmente, a minha intuição não se enganara.  Você está mais mudado, mais amadurecido, mais sensível, mais ser humano como nunca.  Minhas mudanças para fazer do meu futuro um lugar mais habitável também foram significativas.  Talvez este seja o motivo do ponto exato do encontro de nossas almas:  a mutação interna de cada um de nós.  As pessoas sentiriam inveja se soubessem que partilhamos do presente com o suor de nosso trabalho na construção de um futuro melhor para toda a humanidade.  Se todos pudessem fazer um laço como o nosso o mundo com certeza daria um passo gigantesco a caminho da evolução.  Com a união de nossas almas, esse passo foi atingido, pois todos os seres do universo estão ligados...

O que as pessoas invejam, os anjos rejubilam-se.  Afinal de contas, não é todo o dia que se unem duas almas à procura do mesmo objetivo:  a vontade de viver o presente e ser feliz.

Agradeço a Deus a oportunidade de poder estar vivenciando essa vida ao seu lado, onde alternadamente somos professores e alunos um do outro.  Agradeço a Deus também pela ajuda que me enviastes no caminho de minha evolução e de meu autoconhecimento, pois foi com estes instrumentos que consegui abrir meus olhos e encontrar você, em sua doçura, sua paciência, seu amor.

Não sei se te amo, acho um pouco cedo para dizer isso, mas o sentimento que invade o meu ser não pode ser definido de outra maneira.  Se tudo for uma ilusão, já terá valido a pena, pois desde o dia que nos reencontramos o mundo ficou melhor, as pessoas ficaram mais alegres, os lugares menos pesados, e o melhor de tudo, os problemas se transformaram em desafios prontos para serem encarados.  A tua mansidão me dá forças para poder ajudar os meus semelhantes. Obrigado a você também, meu bem-querer, por estar do meu lado apenas existindo.

Há quanto tempo te esperava...  Avaliando, não foi uma espera muito grande, visto que a felicidade que nosso reencontro proporciona é infinita.  Valeu a pena a espera!"

Boa semana!






sexta-feira, 26 de abril de 2024

"MEMÓRIAS DO SUBSOLO"

 Caros leitores,

O livro do mês de abril de nosso Clube de Leitura foi "Memórias do Subsolo" de Fiódor Dostoievsky.

Ele foi escrito em 1864, em poucas semanas; a esposa estava gravemente doente, em últimas semanas de vida.  O texto, a princípio sofreu censura por parte do governo (lembrete: havia uma ditadura na Rússia de Alexandre II (o czar); não chamava-se comunismo, mas tudo pertencia ao Estado e ele provia desde comida, educação, assistência médica, até moradia - o país era dividido em províncias). Dostoievsky escreveu o livro após ter saído da prisão.  Sua obra era censurada quando falava de Jesus Cristo.

A história narra a vida de um funcionário público que vivia só - ele era amargo, com baixa autoestima - se achava mais insignificante que um inseto.  Por conta dessa baixa estima, sente inveja de tudo e de todos.

O livro é difícil de ler por conta desse pessimismo, entretanto, em minha opinião, Dostoievsky é brilhante  pois através dos pensamentos do protagonista, consegue-se sentir exatamente o seu mau-humor.

O ponto alto do livro, quase ao final, quando em suas "regurgitações mentais" o protagonista confessa: "Afinal, sem exercer poder e tirania sobre alguém, não sou capaz de viver..." Podemos até refletir sobre o porquê da tirania, do despotismo, da ânsia de poder de algumas pessoas.

Em outra página, ele afirma "... amar, para mim, significava tiranizar e subjugar moralmente.  Por toda vida, não fui capaz sequer de imaginar outro tipo de amor, e cheguei a tal ponto que, agora, às vezes, até penso que o amor consiste no direito que o objeto do amor concede, espontaneamente, ao outro de exercer uma tirania sobre ele."  Talvez seja esse tipo de atitude/sentimento que os tiranos acreditam ser o amor.  Até que faz sentido quando vemos algumas figuras públicas "declararem" o seu amor pelos semelhantes através da subjugação, não apenas moral, como também física e psicológica.

Eu recomendo a leitura desse livro, desde que o leitor esteja preparado a enfrentar seus próprios e íntimos sentimentos e pensamentos.  Não há como não se interiorizar quando se lê Dostoievsky.  Também foi assim comigo quando li dele "Crime e Castigo".

Boa reflexão!



 

sexta-feira, 19 de abril de 2024

A IMPORTÂNCIA DE GUARDAR DOCUMENTOS HISTÓRICOS

Caros leitores,

Domingo passado assistimos no cinema, meu marido e eu, um filme muito bonito, comovente, que me trouxe uma reflexão interessante, sobre uma circunstância que eu nunca havia dado importância.  Conforme vamos enfrentando altos e baixos da existência, nossa mente, com o passar dos anos vai ficando mais aguçada e, nossas reflexões vão nos tornando mais sábios, se é assim que ouso me expressar.  Claro está que o exercício constante da leitura, o assistir a filmes e documentários e palestras sobre temas gerais, sem contar com encontros e conversas com amigos, nos trazem uma miríade de ideias e reflexões.  Nosso raciocínio fica mas apurado e muitas coisas que não faziam sentido, hoje o fazem.

O filme que me trouxe uma elucidação de um fato foi "Uma Vida - A História de Nicholas Winton". Aí vai um pequeno resumo transcrito literalmente de uma resenha de uma sala de cinema:

"A história real de Nicholas Winton, que, em 1938, visitou Praga e se deparou com famílias vivendo em condições extremamente precárias e sob a constante ameaça de uma invasão nazista.  Em uma corrida contra o tempo, Winton e um improvável grupo de apoio trabalharam incansavelmente para resgatar o maior número de crianças possível antes do fechamento das fronteiras.  Em 1988, Winton vive assombrado pelo destino das crianças que não conseguiu levar em segurança para a Inglaterra.  Somente após um reencontro surpreendente com algumas dessas pessoas resgatadas, ele finalmente começa a se reconciliar com a culpa e o sofrimento que carregou por cinco décadas."

A película começa com a esposa do protagonista pedindo para o marido arrumar a "bagunça" do seu escritório em casa (muitos livros jogados, papéis e pastas para todos os lados - parecido com o escritório do meu marido em casa...). Havia uma pasta de couro jogada numa gaveta que a esposa disse peremptoriamente: "Dê um fim nisso..."

Essa pasta continha um álbum com todos os dados e fotos das crianças que ele havia resgatado de Praga (na antiga Tchecoslováquia, hoje República Tcheca) e também seus nomes e as famílias as quais elas haviam sido entregues.

Numa reviravolta do filme ele acaba entrando em contato com um importante jornal da Inglaterra e, com essa pasta em punho,  sua história é contada num programa de TV.  

Assim ele consegue reencontrar muitas das crianças, hoje adultos com mais de 50 anos de idade aproximadamente, e ele com 80 anos de idade nesse período.

No início do texto afirmei que tive uma reflexão de uma ideia a qual não havia pensado antes.  Pois bem.  Essa ideia é a seguinte: atentemos para a importância de documentos antigos - se ele não tivesse guardado a pasta, ele não poderia ter encontrado as "crianças" do passado e por conseguinte não aliviaria sua culpa e talvez nem teria vivido até os 106 anos, como ele viveu. Sua convivência com elas após tê-las encontrado durou até o fim de sua vida.

Sua culpa se devia ao fato de que o último trem com mais uma "carga" de crianças não conseguiu sair de Praga - os nazistas fecharam a fronteira e elas e seus pais pereceram nas câmaras de gás. Entretanto ele havia resgatado 699 crianças.

Outro detalhe importante que me chamou a atenção é que famílias inglesas se dispuseram a adotar essas crianças resgatadas e nenhuma delas ficou sem uma família/um lar, pois os pais/os adultos não foram resgatados - somente as crianças.

O filme é realmente muito comovente (baseado em fatos reais, e ao final aparecem as fotos dos protagonistas reais). Eu recomendo e como diz o título "One Life" - "Uma Vida" vai de encontro à citação originada do Talmude Judaico "Quem salva uma vida salva o mundo inteiro".

Boa semana!






 

sexta-feira, 12 de abril de 2024

OUT OF THE MAP: A LIBERDADE OU A VISIBILIDADE

Caros leitores, 

O texto de hoje é de autoria de J. Tucón.

" Como diria Jack o Estripador, vamos por partes:

1. Out of the Map (Fora do Mapa) é um filme muito interessante cuja história é a seguinte: Numa propriedade rural situada no Estado de New Mexico (USA), um fazendeiro é surpreendido pela visita de um fiscal do imposto de renda que vem indagar  porque ele não entregou a referida declaração.  E a resposta deixa o fiscal perplexo (sim, a palavra certa é perplexo): a declaração de renda não foi entregue porque não houve renda.  A produção deu apenas para a subsistência do fazendeiro.  Mas o fiscal não se faz de rogado e insiste que o fazendeiro deveria entregar uma declaração dizendo que nada havia a declarar.  O filme continua.  Como o fiscal se vê obrigado a passar a noite na fazenda, no dia seguinte ele começa a se interessar pelo modo de vida do fazendeiro, em contato com a terra e com a natureza, totalmente diferente de alguém que vai "cumprir uma missão" importantíssima: multar alguém que não declarou que nada tinha a declarar.  A partir daí começam as descobertas e os questionamentos do fiscal a propósito de seu modo de vida.

2. Como sou "vidrado" no Novo México e abomino carimbadores e preenchedores de formulários é absolutamente desnecessário perguntar o que achei do filme.

3. Todos cometem erros e eu não fujo a regra, mas creio que meu maior erro foi não ter nascido em New Mexico.  Conheço o local e foi aí que recebi uma inspiração para caminhos em minha existência.

4. Mas, vamos ao Brasil, Curitiba, bairro do Capão da Imbúia.  Passei a morar no Capão em 2011.  Situado na região leste, fazendo fronteira com a cidade de Pinhais, era "out of the map" muito embora bem servido pelo transporte público, dotado de um pequeno comércio bem variado que atende muito bem as necessidades do dia-a-dia, além de um posto de saúde com médicos excelentes.  Comprei uma casa pequena situada num terreno grande o qual foi transformado num belo jardim.  Bem perto da casa há uma reserva de mata nativa anexa a um museu de história natural.  Construí um bom relacionamento com todos os vizinhos.

5. O bairro é horizontal, portanto bem ensolarado.  Porém as ruas e calçadas não são bem conservadas.  Por este motivo, um dia minha esposa fez a seguinte observação: será que a Prefeitura se esqueceu do nosso bairro? Para sua surpresa, respondi: "Tomara que nunca se lembre dele." Nesse instante passou pela minha mente a lembrança do filme do qual falei.

6. Tenho uma tia por afinidade que mora no Texas e ela costuma dizer: "Everything Government touches turns into shit", em outras palavras, o governo é um anti-Midas.  Se o dos Estados Unidos que se mete muito pouco na vida do povo é assim, imagine o resto...

7. Os envergonhados:

- Um amigo nosso, um senhor de avançada idade sentia-se tão envergonhado de morar no Capão que, quando lhe perguntavam onde ficava sua casa, ele respondia baixinho, sussurrando de lado: "Capão da Imbúia"...

- Uma distinta dama, palestrante de um centro espírita do nosso bairro dizia que o centro ficava:"...ao lado do Jardim Botânico..." (outro bairro, não confundir com a reserva de mata do Capão).

8. É claro que há muito mais "envergonhados" e é a partir desses tipos que a "história mal contada começa". Qual é o sentimento deles? É "eu não mereço!" Mas não merece o quê? Não merece tomar café de coador e sim café de cápsula com propaganda feita pelo George Clooney.  Então não vai a padaria tomar café de 2,50 reais e sim numa portinha travestida de modernidade politicamente correta tomar um troço com nomes italianos que custa 2,50 euros.  É a turma que, como dizia minha avó "come banana e arrota peru".  Só aparência e dívidas.  É através destes que o bairro começa a "entrar no mapa" (big deal!) Preferi usar big deal do que a tradução.

9. A invasão dos aliens: eles são também os predadores.  Como conseguem depredar e o que depredam? Bem, eles contam com aliados dentro do bairro.  E quem são? São os envergonhados que sonham com um mundo desenhado pela propaganda e pelo marketing, comprar "sonhos" pois são incapazes de tê-los ou de formulá-los.  Nada tem a declarar, só repetem slogans de publicidade. Repetem até aquela ladainha tipo "o progresso vai chegar ao bairro" e aí café de coador nunca mais!

10. Resultado da invasão progressiva: o bairro vai perdendo a sua espiritualidade.  Sim, é isso mesmo! As arquiteturas cheias de histórias e sentimentos que criam o "clima" do bairro vão desaparecendo pouco a pouco e dando lugar aos "caixotes" impessoais que não vão além de uma obra de engenharia civil.

11. E assim, para a satisfação dos "envergonhados" eis que o "progresso" e o "desenvolvimento" chegam aí no bairro.  Primeiro resolvem desmontar o terminal de ônibus e reconstruí-lo cem metros adiante (juro com a mão sobre a Bíblia!).  Depois resolvem construir um tal de "binário" que consiste em alargar e retificar duas ruas paralelas e estipular mão única de tráfego para cada uma delas.  E, para isso se abatem dezenas de árvores de grande porte que estão nas calçadas.  Só na frente do posto de saúde foram três árvores.  Belo exemplo!  Uma das ruas que foi alargada é uma rua quase que exclusivamente residencial.  E, para isso tem que deslocar as redes de esgoto, de águas pluviais e também os postes, além de abater árvores.

12. Quando começaram as obras eu perguntava para o farmacêutico:  quem bombardeou: o Putin ou o Zelensky? Hoje eu digo: olha a Faixa de Gaza.  E aí o farmacêutico, veterano do bairro, responde: eu prefiro a faixa de gaze.

13. E assim, o bairro se tornou "visível".  E os "envergonhados" se sentem "dentro do radar", se sentem considerados, assistidos.  E o que acho de tudo isto? Vou responder com as palavras de um velho amigo holandês que veio ao Brasil: "Bela bosta!"

14. A carência e a necessidade de uma parte da população em ser "vista" pelos outros como condição para existir é que abre espaço para daqui a um tempo retificarmos Descartes: passaremos de "penso, logo existo" para "sou visto, logo existo".

15. Quando sou visto, há grande chance de eu ser espionado ou controlado.  O lance é que o controlador ou o espião vai oferecer a você uma "benesse" qualquer e aí os idiotas que são a maioria; sim, são os idiotas que compraram a ideia "filosófica" "Sou visto, logo existo", vão aceitar a benesse porque isto significa que foram vistos (ergo, existem).  Mordem a isca e trocam o reino da liberdade por um prato de lentilhas.  As lentilhas são apenas lentilhas mas para o imbecil elas significam a sua visibilidade e portanto sua existência.

16. J.P.Sartre dizia que o homem está irremediavelmente condenado a ser livre.  E condenado a assumir a responsabilidade de suas escolhas.  Assim, aqueles que escolheram trocar a liberdade pela visibilidade também o fizeram livremente.  Absurdo? Sim. E daí?

17. Irremediavelmente condenado a ser livre.  Mas, recusa-se a cumprir a sua sentença.  Faz qualquer coisa para escapar.  Mas não adianta.  Ninguém vai resolver isso.

18. Quantos emojis, curtidas, inscritos no seu canal, likes, joinhas você precisa para se sentir o máximo?  O máximo do idiota?

19. Gostou do texto? Não gostou? De minha parte, continuo pensando e existindo."

Boa reflexão pessoal e boa semana!



 





 

sexta-feira, 5 de abril de 2024

POR QUE VOCÊ SENTE ANGÚSTIA?

Caros leitores,

Primeiramente, antes de responder a pergunta do título, temos que compreender o que é angústia.

Angústia no dicionário Aurélio é:

1. Estreiteza, limite, redução, restrição.

2. Ansiedade ou aflição intensa; ânsia, agonia.

3. Sofrimento, tormento, tribulação.

Só pela definição do dicionário, no que diz respeito à primeira definição, já podemos perceber o estado de uma pessoa que sente angústia - limitada, reduzida, restrita.  A impressão que temos é de uma pessoa contida dentro de um local fechado, com limitações de movimentos, restrita, reduzida a um tamanho pequeno.  Assim, é uma pessoa fechada em si mesma, em sua intimidade, só.

Com todas essas imagens no pensamento, podemos ter uma ideia bem exata de como se sente uma pessoa angustiada.

A segunda definição do dicionário já traz a ideia emocional - ansiedade, aflição intensa, agonia.  Atentemos para o detalhe de que não é uma simples aflição - é uma aflição intensa.  E, assim, a terceira definição já traz a ideia de sofrimento, tormento, tribulação.

Agora que conseguimos definir praticamente com exatidão o que é angústia concluímos que a sensação da angústia é desconfortável, é um sofrimento que deveríamos evitar.

Mas, antes de responder a pergunta inicial, também podemos inferir que a angústia é um estado temporário, pelo menos deveria o ser.  Com certeza, existem pessoas que podem vir a senti-la mais frequentemente.

Então, como livrarmo-nos dela ou até evitar senti-la?  É o que tentaremos analisar no texto de hoje.

A angústia, entretanto, tem uma finalidade - aparece para tentar restabelecer o equilíbrio emocional/espiritual, o qual foi abalado por algum motivo.  A angústia nos avisa da desorganização de nosso mundo interior - está a serviço de algo que nós ainda não compreendemos no momento em que ela surge ou que não temos consciência para mudar.  O alerta da angústia é para nos mostrar que estamos nos auto abandonando e indo em direção contrária às nossas necessidades de realização interior.

O estado de auto abandono acontece quando:

- Não enfrentamos nossos medos - para enfrentá-los obviamente, precisamos descobri-los, aceitarmos que os temos; muitos tipos de medo são difíceis de detectar; às vezes, os dissimulamos e dizemos para nós mesmos que estamos usando de prudência ao invés de aceitarmos que estamos receosos de enfrentar determinadas situações - afinal de contas, a prudência não invalida o enfrentamento de uma situação - apenas nos faz usar de estratégias, ou vagar para ir em frente.  Sendo assim, busquemos descobrir nossos medos, compreendê-los para poder enfrentá-los.

- Queremos ter controle de tudo - ninguém tem o controle de tudo o tempo todo - isso de ter controle de tudo é uma ilusão e, melhor dizendo, uma pretensão infantil.  Pessoas controladoras não são livres e a falta de liberdade impede a evolução.  Quando desejamos controlar tudo e todos somos controlados por tudo e todos e nem nos damos conta dessa via de mão dupla.

- Usamos de muita perfeição nas atitudes - aqui vai outro componente de ilusão - não somos perfeitos, embora estejamos no caminho - se o fôssemos estaríamos em outro planeta.  Na Terra aprendemos errando.  Muitas vezes, tentativa e erro nos levam a descobrir coisas incríveis sobre o mundo e sobre nós mesmos.

- Convivemos exaustivamente com a culpa - se somos criaturas que nos sentimos culpadas por tudo o que acontece, temos dificuldade de encontrar alegria para viver e, sem esse fator, a vida se torna insustentável.

Todos esses caminhos da dor emocional citados acima nos levam ao auto abandono.

A angústia ocorre para nos trazer de volta para nós mesmos.  Ela sinaliza nosso desvio de rota no caminho da evolução.  Ela aparece para nos dizer que não há como resolver coisas de fora, sem resolver mudar o nosso interior.  Quando nos entregarmos ao auto amor, nossa vida emocional não precisará do sentimento de angústia.

O auto abandono aparece sutilmente nos atos de orgulho, ciúme, inveja, tristeza pela insatisfação de nossa vida não ser como gostaríamos, na impaciência e na intolerância com o progresso e a melhoria das pessoas que amamos (gostaríamos que elas progredissem ou melhorassem junto conosco, na mesma velocidade), na compulsão em fazer escolhas pelos outros, no destempero (raiva), na sensação de fracasso diante do que deveríamos fazer nas frustrações de nossa vida.  Ao nos atermos a esses atos surgem as sensações de perda, de culpa as quais fatalmente nos levam a angústia - tornamo-nos restritos, fechados, presos, contidos.  A angústia aparece para nos mostrar que a saída para nossos problemas está dentro de nós.  Parece óbvio, chavão, mas não percebemos, pois se o fizéssemos, não sentiríamos angústia.

Ao primeiro sinal de angústia nos perguntemos: o que não estou aceitando? O que estou tentando controlar? Depois dessas perguntas respondidas perceba o padrão de comportamento no seu dia a dia, seus hábitos ao lidar com as situações e busque mudá-los.  Já foi dito que não podemos esperar resultados diferentes tendo sempre o mesmo comportamento.

Caso a elucidação dessas duas perguntas não for suficiente, há de se realizar uma investigação mais profunda.

Em suma, dois comportamentos são causas muito comuns nos momentos de angústia: 

1. O controle sobre o que não é para ser administrável - os relacionamentos e as situações inalcançáveis;

2. A não aceitação dos acontecimentos na vida.

Esses dois comportamentos consomem muita energia inutilmente e nos levam ao auto abandono.

Assim, lembremo-nos de que a angústia propriamente dita não é um mal, mas um aviso que devemos acatar; através da interiorização temos a oportunidade de nos entregarmos ao auto amor e assim, termos uma vida mais plena a cada dia que passa.

Boa reflexão e boa semana, pessoal!

















 

FELIZ ANIVERSÁRIO!

Olá leitores, Dia 17 de setembro último o blog Refletindo completou 6 anos de existência.  Não sei se isso é um sucesso ou um exercício de d...